O que você deve saber sobre o futuro do peer review

Ilustrado com tuítes do Neymar

O ousado chegou.

Embora não pareça, estamos em 2016 (quase 2017) e as coisas na área de comunicação científica estão passando por uma revolução. Cada vez mais pesquisadores e revistas estão adotando a filosofia da ciência aberta, por entenderem que as pesquisas devem ter longo alcance e nem todo mundo (na verdade quase ninguém) pode pagar para ter acesso à literatura científica. Além disso, a ciência aberta envolve também práticas que promovem a reprodutibilidade da pesquisa, algo fundamental para o progresso da ciência.

Particularmente, o processo de revisão por pares tem sido criticado até mesmo por revisores e editores de revistas. Acontece que hoje é muito fácil um revisor (que você não sabe quem é) convencer um editor a rejeitar o seu artigo e se apropriar das suas ideias/dados. Sem contar os inúmeros casos onde o revisor é simplesmente rude e não revisa de verdade o seu manuscrito. Isso tudo deixa a gente muito cansado e decepcionado.

Felizmente isso tudo está ficando no passado, e aos poucos os cientistas estão buscando novas formas de pôr seus artigos à prova. Assim estão surgindo os novos e ousados processos de publicação de artigos.

Hoje nós temos basicamente seis tipos de revisão de artigos, e alguns deles são adotados por alguns tipos diferentões de revistas científicas:

Revisão “cega de um lado só”

Neste modelo, o mais comum atualmente, você envia o seu artigo para a revista e o pessoal lá escolhe dois ou três revisores que você não sabe quem são. Eles sabem quem você é, seu nome está no arquivo gerado pelo sistema. Este modelo é geralmente adotado por revistas fechadas (aquelas que cobram pelo acesso aos artigos) e por muitas revistas abertas. Se seu artigo recebe uma daquelas revisões inúteis, você não sabe nem quem xingar.

Revisão “cega dos dois lados”

Neste processo, nem você conhece os revisores, nem os revisores te conhecem. Esse tipo pode ser mais legal porque evita (teoricamente) os vieses relacionados a preconceitos com gênero e nacionalidade. No entanto, ainda não existem evidências que comprovem que este tipo de revisão realmente faz alguma diferença. Por enquanto a gente segue na expectativa pra ver no que vai dar.

Cascata

É quando você faz teste pra entrar no Barcelona e acaba entrando no time do seu bairro. O que acontece neste tipo de revisão é o seguinte: se você envia um manuscrito para uma revista com uma taxa de rejeição muito alta e seu manuscrito não é aceito, os revisores, o editor ou, em alguns casos, os autores do artigo podem sugerir que ele seja enviado para outra revista (do mesmo grupo editorial) com uma taxa de rejeição mais baixa. Caso ele seja novamente rejeitado, ele pode ir para outra revista ainda mais “acolhedora” e assim sucessivamente. Um exemplo de revista “acolhedora” é a Nature Communications. Isso é legal, pelo menos o paper não fica engavetado mesmo quando ele é bom.

Terceirizada

Quando você contrata um serviço de revisão por fora. As empresas que fornecem este tipo de serviço (como a Peerage of Science ou a Rubiq) recebem o seu manuscrito, enviam para os revisores e aí começa um processo de revisão às cegas (de um lado só ou dos dois, depende da empresa). A empresa monta um relatório detalhado sobre o seu manuscrito e você pode corrigir o seu artigo ou mandar direto para alguma revista. Muitas revistas aceitam estes relatórios de revisão e consideram que o artigo já foi revisado, ficando a cargo do editor aceitar ou não o manuscrito para publicação na revista. Não é lá muito diferente, mas é bem mais rápido que a maioria dos processos de revisão. E a gente sabe que velocidade de processamento é um negócio importante.

Revisão aberta

A revisão aberta pode ter algumas “modalidades”. O que é aberto neste processo pode ser a autoria das revisões e do manuscrito, ou mesmo os relatórios dos revisores. Não tem lado ruim nesse tipo de revisão: os autores sabem quem revisou, recebem revisões mais cuidadosas, os leitores podem acompanhar a história do manuscrito e ter acesso a informações complementares, os revisores podem receber crédito pelo trabalho… Só vantagens!

Pós-publicação

Neste caso o seu artigo é publicado e recebe a revisão por pares após a publicação. Os relatórios dos revisores são anexados ao manuscrito e você pode editar o artigo. Quando o seu artigo ficar supimpa, ele passa a ser indexado no PubMed, Google Scholar e no Scopus. Parece bastante, mas é diferente do esquema dos preprints: quando você publica um preprint, ele recebe feedback, mas não revisões completas e sistematizadas. É como começar cantando no karaokê do bairro, receber os elogios e críticas dos amigos, e só depois gravar um mixtape e enviar para a rádio.


Pois bem, agora que você conhece as diferentes formas de revisão de artigos, você pode pensar melhor que caminho você quer que seu manuscrito siga. Se você é do tipo moderno, ousado e alegre como o Neymar, talvez você ache uma boa ideia parar de submeter seus artigos direto para as revistas. Existem cada vez mais opções de repositórios de preprints, e muitas revistas já são compatíveis com este tipo de publicação (aceitam a submissão mesmo que você já tenha disponibilizado um preprint). Algumas revistas têm seus próprios repositórios, como a PeerJ e a Nature.

Passada a fase de feedback dos amigos (e inimigos), dê uma olhada no DOAJ para descobrir que revistas de acesso aberto adotam o tipo de revisão que você mais gosta. Se você é do tipo que curte um post-publication peer review, dê uma olhada na f1000Research, ScienceOpen ou AMEE MedEdPublish. Se você só quer uma revisão aberta e não se importa se ela acontecerá antes da publicação, considere olhar as revistas do grupo BMC ou a Royal Society Open Science.

Se você também está triste e cansado das revisões tradicionais e toda essa coisa !=OpenScience, tente uma revista diferentona da próxima vez. A revolução já começou e você pode ter seu artigo publicado da maneira mais honesta e aberta possível, basta querer. :)


Este post é uma contribuição para a série sobre artigos científicos do Hipótese Nula, com textos do professor Marcos V. C. Vital, que começa aqui.