Biblioteca Básica do Escritor Brasileiro Contemporâneo (1)
Livros que ajudarão (bastante, tenho certeza) o escritor aspirante a vencer o desafio da escrita

Ah, as bibliotecas. Se tudo que existe no mundo, existe para acabar em um livro (a frase é do poeta Mallarmé), por dedução lógica seria razoável aceitar que o mundo (a vida) é a nossa grande biblioteca. Mas, existem outras, “sub-bibliotecas” mais modestas, porém não menos importantes, que juntas formaram aquela grande biblioteca, aquela biblioteca fundamental.
Há poucos dias, eu indiquei um livro para os colegas do Grupo “Escritores — Teoria Literária (Facebook edition)”. O livro, Oficina de Escritores, do Stephen Koch, mereceu até um vídeo especial do administrador do grupo, o escritor Henry Alfred Bugalho.
O livro do Stephen Koch — realmente muito bom — e outros mais (muitos) são ótimas referências para os postulantes à carreira de escritor. Inclusive, penso, para todos vocês que escrevem diariamente aqui na plataforma “o ”Medium”: jornalistas, romancistas, roteiristas, contistas, poetas...
Tendo isso em mente, eu resolvi empreender esse “serviço de utilidade pública”, compartilhando com vocês, colegas do Medium, alguns livros que, pelo menos para mim, têm sido de grande valia.
Não conseguirei esgotar o assunto em apenas um artigo. Portanto esse é apenas o primeiro de uma série que chamarei de “Biblioteca Básica do Escritor Brasileiro Contemporâneo”.
Antecipo e enfatizo que para esse escritor “contemporâneo”, além das habilidades da boa escrita e da boa leitura, outras mais são importantes, considerando que ele, o escritor, escreverá cada vez mais em ambientes digitais (como esse aqui da plataforma Medium).
Espero que essa lista de livros ajude vocês, da mesma forma que tem me ajudado.
Vamos então aos livros, cada um deles com um propósito.
Uma biblioteca básica para o escritor brasileiro contemporâneo
Aliás, toda leitura pressupõe um objetivo, uma meta.
0. Como ler livros (Mortimer Adler & Charles Van Doren). Portanto, a minha primeira dica, a dica “número zero”, é o Como ler livros, do filósofo americano Mortimer Adler, com colaboração de Charles Van Doren. Antes de saber escrever é necessário saber ler, saber ler bem. Esse livro, cuja primeira edição foi publicada há mais de 70 anos, ajuda. Leia esse livro e você verá que poderá melhorar muito sua capacidade de compreensão de textos escritos. Eu tenho a versão digital, em inglês (How to read a book). Esse livro é essencial.
Tendo dito isso, vamos aos próximos.
1. Aspectos do romance (E. M. Forster). Esse livro traz uma visão bastante “inglesa” do romance. Trata de histórias, pessoas, enredo, fantasia, profecia, padrões e ritmo. Escrito a partir de uma série de conferências proferidas pelo autor em 1927 no Trinity College Cambridge. No ano seguinte, o francês André Maurois, o grande biógrafo, proferiu uma série de palestras — muito interessantes — que também virou um livro intitulado Aspectos da Biografia.
Biblioteca (digital) dos clássicos da Literatura brasileira
2. Cartas (Graciliano Ramos). Eu acho que todo aspirante a escritor brasileiro tem por obrigação ler os clássicos da nossa literatura.
Esse aliás é um dos meus maiores fatores motivadores (aí não só como escritor, mas também como editor) para criar a biblioteca digital “Cidade Livro” (lançamento no final de julho/2016, curta nossa página no Facebook e saiba primeiro as novidades).

Claro que eu quero que os leitores leiam seus mais de 500 livros, exclusivamente de clássicos da literatura brasileira, mas, o leitor “número 1” dessa biblioteca sou eu mesmo.
Lendo os clássicos brasileiros, aprendemos muito sobre as técnicas literárias (e jornalísticas), além de aprendermos sobre o nosso próprio país e os seus costumes.
Há alguns anos, eu havia criado o Blog do Machado de Assis, o que me “forçou” (como se eu precisasse…) a ler minuciosamente as crônicas do Machado de Assis.
Esse exercício, na minha opinião, deveria ser seguido por todos os escritores brasileiros. Ler Machado, com muita atenção e respeito, já é uma grande “oficina” por si só.
Ler Graciliano também.
Nesse livro, Cartas, Graciliano discute aspectos da sua própria escrita. São os “bastidores” de um escritor comedido e rigoroso cujo mantra era “cortar, cortar e cortar”.
3. The Theory of the Novel (editado por Philip Stevick). Esse livro é um achado. Publicado em 1967, é uma coletânea de artigos sobre a arte de escrever romances, em todos os seus aspectos e nuances. É um complemento, uma fonte de referência importante ao livro do Stephen Koch.
Alguns artigos não são exatamente “artigos”, no sentido estrito da palavra, são trechos de autores refletindo sobre a arte de escrever romances, como por exemplo, um certo pensamento de Stendhal intitulado “The novel as a mirror”, ou, “O romance como um espelho”.
Esse livro inclui uma extensa bibliografia suplementar listando mais de 440 livros sobre o tema.
4. Os escritores: as históricas entrevistas da Paris Review. Mais um livro da série “os escritores nos bastidores”. Muitas dessas entrevistas podem ser lidas (em inglês) no site da revista.
Eu tenho uma edição antiga, publicado pela Companhia das Letras, em 1988, que traz entrevistas com Borges, Faulkner, Eliot, Kundera, dos Passos, e outros, sobre a vida dos escritores e seus processos de escrita.
É um livro que transmite o sentimento de ser escritor.
Além dos livros voltados especificamente para os escritores, eu quero falar também mais dois livros, não necessariamente relacionados com a escrita, mas que eu acho muito importante citar.
Escritores contemporâneos, logo digitais
Os escritores de hoje, precisam estar ligados ao seu tempo.
Nosso tempo é, sem dúvida, definido pela internet e pela tecnologia. Somos escritores “tecnológicos”, ou seja, escrevemos e seremos lidos por intermédio da tecnologia digital.
Somos e seremos cada vez mais digitais.
Se por um lado, vemos os jornais passarem por uma grave crise — há poucos dias, eu tratei do tema em outro artigo, Jornalismo em risco— , sem esquecer, claro, que Machado de Assis, Graciliano, Hemingway, dos Passos, e outros grandes escritores, exercitaram e aprimoraram sua técnica escrevendo para jornais, eu penso que aos escritores contemporâneos, os meios à disposição dos escritores são outros e mais variados. Jornais (on-line) inclusive.
Teremos os blogs (como essa plataforma Medium), as mídias sociais, os games. A propósito, soube recentemente que a empresa de games Blizzard (isso deve ocorrer com várias outras) possui um departamento de escritores. Nunca, os escritores estiveram tão em alta.
Eu prevejo que nos próximos anos, os escritores serão contratados por outras empresas, não apenas as antigas “editoras” e as empresas de games. A narrativa (storytelling) está no coração da nossa sociedade atual. Sempre esteve, aliás, desde a literatura oral, o folclore, etc. Mas, agora, chegou também nas empresas. E isso muda tudo.
Mas, voltando ao nosso tema. Quero falar de mais dois livros. Vamos a eles.
5. A hora da geração digital (Don Tapscott). Esse é um ótimo livro para entendermos melhor o mundo em que vivemos. Para isso, será preciso seguir o conselho que o autor dá a seus leitores logo nas primeiras páginas: domar nosso medo pelo conhecimento.
Não podemos ter medo de saber mais. A geração da internet — os nascidos entre 1977 e 1997 — tem muito a ensinar às outras gerações. Eu sou da Geração X (1965–1976) e, agora, nascem os integrantes da Geração Next (1998 em diante).
Para os mais novos, a tecnologia é como o ar.
Como disse Alan Kay: “a tecnologia é apenas para pesoas que nasceram antes da sua invenção”.
Seymor Papert, um pioneiro do aprendizado e tecnologia, concorda: “é por isso que não discutimos se um piano está corrompendo a música com tecnologia”.
Entenderam?
Leiam esse livro e conheçam as normas da geração internet (atitudes ou comportamento que a diferencia).
Os escritores contemporâneos precisam compreendê-las e escrever com elas em mente: liberdade, customização, escrutínio, integridade, colaboração, entretenimento, velocidade e inovação.
O hipertexto vai engolir o texto
Para terminar a lista de hoje, selecionei…
6. Cultura da convergência (Henry Jenkins). Leia esse livro e acredite: vivemos uma mudança de pradigmas. O objeto “livro” não é mais relevante. Explico: nos próximos anos, eu acredito, que o livro e a web serão indistintos. O livro, aliás, será cada vez mais transiente e volátil. O livro estará em todos os lugares. A narrativa já não se contenta mais em ser distribuída a partir de um único meio. Ela está no livro, que se comunica com o cinema, com a internet, com os games, quadrinhos e outros.
É importante que os escritores compreendam que escreveremos para o ambiente digital.
Marshall McLuhan, aliás, já alertou, nos anos 60, que o meio influencia a mensagem.
Eu digo em minhas palestras que os escritores da “geração de Gutenberg” (uma geração longeva, sobreviventes por mais de 500 anos) eram escritores “2D”, ou seja, escreviam no “plano” (da Matemática), representado por uma folha de papel.
Já os escritores da “geração de Tim Bernes Lee” (inventor da Web) são escritores “3D”, escrevem no “espaço”, ou ainda melhor, no “hiperespaço”. Escrevem considerando o hipertexto.
Até 2020, não haverá distinção entre os livros e a web. — @cssoares
Eu penso que até 2020, não haverá distinção entre livros e web. Claro que os impressos existiram por bom tempo, mas serão uso e função cada vez mais limitados.
A sociedade de informação migrará cada vez mais para os livros digitais, não os e-books de hoje, baseados em epub, mas para um produto/serviço indistinto da web.
Aliás, Pierre Levy avisou em uma palestra (durante um evento organizado pela Fundação Telefônica, há 4 anos) que o hipertexto vai engolir o texto. Eu acho que já engoliu.
O livro de Jenkin mostra como as mídias atuais (mídias ativas) se diferenciam das mídias tradicionais (passivas). Mostra aliás como ambas estão em rota de colisão. Um capítulo muito interessante e importante é o que trata das narrativas transmidiáticas.
Eu penso que os autores devem compreender esse conceito e prepararem suas histórias para serem “consumidas” em diversas plataformas.
Para terminar, por enquanto…
É claro que não dá para esgotar esse assunto em um artigo apenas. Por hoje, ficamos nessas considerações. Vou preparar outros. Em breve, publicarei aqui. Até lá.