Diálogos Impossíveis Com Clarice Lispector [Hiperentrevista]

A coluna Hiperliteratura imaginou uma hiperentrevista, um hiperdiálogo ficcional, com a ‘Bruxa do Leme’ a partir de suas crônicas sempre tão confessionais.

O antecedente — Em 1972, Caderno B do Jornal do Brasil, por ocasião das comemorações dos 70 anos de Carlos Drummond de Andrade (1902–1987), compôs uma entrevista ‘reversa’ entre o jornalista Mário Lúcio Franklin e o ‘poeta de 7 faces’, a partir dos seus textos de prosa e verso. Hiperliteratura se valerá do mesmo artifício criativo para dialogar com personalidades do passado. A estreia é com a escritora Clarice Lispector, morta há 40 anos.

E m uma crônica de maio de 1970, intitulada ‘Lembrança da feitura de um romance’ a escritora Clarice Lispector assegurava: “O que escrevo não se refere ao passado de um pensamento, mas é o pensamento presente: o que vem à tona já vem com suas palavras adequadas e insubstituíveis, ou não existe”. Em outra, datada de junho de 1971, ela confessava ao ‘inventor da crônica’ Rubem Braga: “Não sou cronista, e o que escrevo está se tornando excessivamente pessoal”.

Clarice dizia que jamais escreveria uma autobiografia. Mas, nas crônicas que publicou, deixou escapar confissões que de certa forma apresentaram um autorretrato acurado da si mesma. A coluna Hiperliteratura imaginou um diálogo ficcional (uma ‘hiperentrevista’) com Clarice Lispector, a partir de trechos confessionais de suas crônicas. A posteridade nos julgará.


Clarice, você já disse que o adulto é triste e solitário. A solidão é mesmo algo inevitável?

O que nos salva da solidão é a solidão de cada um dos outros. Às vezes, quando duas pessoas estão juntas, apesar de falarem, o que elas comunicam silenciosamente uma à outra é o sentimento de solidão. (‘A comunicação muda’, 1970)

Qual a diferença entre escrever para jornais e para livros?

Escrever para jornal não é tão impossível; é leve, tem que ser leve, e até mesmo superficial: o leitor, em relação ao jornal, não tem nem vontade nem tempo de se aprofundar. Mas escrever o que se tornará depois um livro exige às vezes mais força do que aparentemente se tem. Sobretudo quando se teve que inventar o próprio método de trabalho, como eu e muitos outros. (‘Lembrança da feitura de um romance’, 1970)

Leia também: Os Mistérios De Clarice Lispector — Hiperliteratura No Jornal O Globo

Quais os seus maiores defeitos?

Os maiores não conto porque eu mesma me ofendo. Mas posso falar daqueles que mais prejudicam a minha vida. Por exemplo, a grande fome de tudo, de onde decorre uma impaciência insuportável que também me prejudica. (‘Perguntas e respostas para um caderno escolar’, 1970)

O que acontece com a pessoa encabulada que você é, enquanto tem a ousadia de escrever?

Desabrocho em coragem, embora na vida diária continue tímida. Aliás sou tímida em determinados momentos, pois fora destes tenho apenas o recato que também faz parte de mim. Sou uma ousada-encabulada: depois da grande ousadia é que me encabulo. (‘Perguntas e respostas para um caderno escolar’, 1970)

Como nascem suas histórias? Elas são planejadas antes do ato de escrever?

Não, vão se desenvolvendo à medida que escrevo, e nascem quase sempre de uma sensação, de uma palavra ouvida, de um nada ainda nebuloso. (‘Perguntas e respostas para um caderno escolar’, 1970)

Clarice, o que é a morte? Você tem medo dela?

Meu Deus, como o amor impede a morte! Não sei o que estou querendo dizer com isso: confio na minha incompreensão, que tem me dado vida instintiva e intuitiva, enquanto que a chamada compreensão é tão limitada. Perdi amigos. Não entendo a morte. Mas não tenho medo de morrer. Vai ser um descanso: um berço enfim. Não a apressarei, viverei até a última gota de fel. Não gosto quando dizem que tenho afinidade com Virgínia Woolf: é que não quero perdoar o fato de ela se ter suicidado. O horrível dever é ir até o fim. E sem contar com ninguém. Viver a própria realidade. Descobrir a verdade. (‘Ao correr da máquina’, 1971)

Você diz ‘viver a própria realidade e descobrir a verdade’, mas afinal de contas o que é a vida para a escritora Clarice Lispector?

Refletindo um pouco, cheguei à ligeiramente assustadora certeza de que os pensamentos são tão sobrenaturais como uma história passada depois da morte. Simplesmente descobri de súbito que pensar não é natural. Depois refleti um pouco mais e descobri que não tenho um dia-a-dia. É uma vida-a-vida. E que a vida é sobrenatural. (‘A vida é sobrenatural’, 1969)

A vida é sobrenatural e cheia de mistérios. Quais são os seus mistérios, Clarice?

Há coisa que jamais direi: nem nos livros e muito menos em jornal. E não direi a ninguém no mundo. Um homem me disse que no Talmude falam que há coisas que se podem contar a muitos, há outras a poucos e outras a ninguém. Acrescento: não quero contar nem a mim mesma certas coisas. Sinto que sei de umas verdades. Mas não sei se as entenderia mentalmente. (‘Ao correr da máquina’, 1971)

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