Os Melhores Livros Brasileiros de 2017

Os melhores livros brasileiros do ano selecionados pela coluna Hiperliteratura.

1. João Guimarães Rosa, Ficção Completa

João Guimarães Rosa

Para marcar este meio século sem o autor de “Grande sertão: veredas”, a editora Nova Fronteira lançou um box com toda sua obra de ficção reunida, à venda, com exclusividade, pela Amazon. João Guimarães Rosa (1908–1967) era homem de fé, mas muito supersticioso. Acreditava no poder da oração, não duvidava do sentido místico das coisas e exercitava o controle da mente. Costumava contar que antes de escrever era preciso “limpar o aparelho até que o santo baixasse” como uma espécie de ritual mediúnico. Essas e outras “confissões” do autor poderão ser encontradas em “Tutameia”, incluído no box, um dos meus livros preferidos (surpreendente, fragmentário, exponencial, hiperliterário — possui 2 índices que oferecem ao leitor diferentes possibilidades de leitura), que tendo sido lançado poucos meses antes da morte de Rosa, também está completando 50 anos.

Nova Fronteira, R$ 189,00

2. Romance de Dom Pantero no Palco dos Pecadores

Ariano Suassuna

O testamento literário de Ariano Suassuna (1927–2014), que começou a escrever este livro monumental em meados dos anos 1980, um trabalho de permanente burilação, que manteve até morrer, em 2014, aos 87 anos. Em suas próprias palavras, “Romance de Dom Pantero…” é uma “autobiografia musical, dançarina, poética, teatral e vídeo-cinematográfica”, ou seja, a sua obra definitiva. Um livro “espetaculoso”, com mais de mil páginas distribuídas em dois volumes, que inclui ilustrações do próprio autor e procura integrar, na sua narrativa, elementos do teatro, da poesia, da prosa de ficção e do ensaio de Suassuna. Um livro que já nasce clássico.

Nova Fronteira, R$ 189,00

3. Memória e Esquecimento

Sérgio Branco

A internet reinventou a maneira como lidamos com nossas memórias. O livro de Sérgio Branco — doutor, mestre em Direito Civil e cofundador e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) — além de apresentar breve inventário sobre a prática de registro da memória contrapondo os métodos mais tradicionais (diários, álbuns de família, etc) às novas possibilidades de registro digitais, reflete, a partir do olhar das Ciências Sociais, sobre como criamos nossas memórias online, apontando os desafios e apresentando algumas regras jurídicas que incidem sobre esse processo. Leitura obrigatória.

Arquipélago, R$ 48,00

4. Lima Barreto triste visionário

Lilia Moritz Schwarcz

O livro da professora Lilia Moritz Schwarcz —resultado de um abnegado trabalho de pesquisa e escrita que durou mais de 10 anos — é um clássico contemporâneo. Lima Barreto, ao que parece, jamais se interessou (explicitamente) pela arte da biografia, mas “exercitou” com regularidade diários, correspondências e romances “confessionais”. Sobre o título da biografia, a autora me explicou pelo WhatsApp: “Lima Barreto é triste, não só porque sua vida foi dura, ou porque criou personagens tristes. É triste também porque não desiste, é teimoso, não se deixa vencer. O escritor é igualmente um visionário, porque jamais desiste de planejar o futuro”. De minha parte, eu prevejo que daqui a 50 anos, este livro essencial ainda será leitura obrigatória para os futuros pesquisadores da vida e da obra de Lima Barreto, o psicólogo amargo da sociedade carioca.


5. A hora da estrela (40 anos)

Clarice Lispector

É uma pequena obra de arte esta edição de 40 anos de “A Hora da Estrela” de Clarice Lispector (1920–1977). Além da novela, o volume (em capa dura) inclui seis ensaios sobre a obra, escritos por especialistas, além de um caderno extra com reproduções do manuscrito original de Clarice. O texto — o mais popular da autora — foi lançado dois meses antes da sua morte em 9 de dezembro de 1977. Como informei em “Os mistérios de Clarice Lispector”, especial da coluna Hiperliteratura para o jornal O Globo, a novela pode ser lida em 1h50min e tem 13 títulos, que ajudam, cada um deles, a “elucidar” a obra: “A culpa é minha”, “A hora da estrela”, “Ela que se arranje”, “O direito ao grito”, “Quanto ao futuro”, “Lamento de um blue”, “Ela não sabe gritar”, “Uma sensação de perda”, “Assovio ao vento escuro”, “Eu não posso fazer nada”, “Registro dos fatos antecedentes”, “História lacrimogênica de cordel” e “Saída discreta pela porta dos fundos”.

Rocco, R$ 44,50

6. Uma forma de saudade

Carlos Drummond de Andrade

Em um dos trechos a que se refere sobre a morte de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade (1902–1987) escreve em seu diário: “No cemitério, Peregrino (Junior) manifestou desejo de que eu concordasse em candidatar-me à vaga na Academia, por me considerar o único poeta em condições de suceder a Manuel. Respondi-lhe que não; qualquer bom escritor preencherá bem a cadeira, não sendo necessário que seja um poeta — e eu, definitivamente, não tenho jeito para isso”. Organizado pelo artista plástico Pedro Augusto Graña Drummond, neto do poeta, o livro “Uma forma de saudade” contém as páginas arrancadas de seus diários, publicados originalmente em “O observador no escritório”, de 1985, livro no qual, aliás, Drummond afirma que “Ninguém o obriga à anotação íntima, a esse mirar-se no espelho do presente. Então, se escreve o diário, há de ser por força de motivação psicológica obscura, inerente à condição de escritor, alheia à noção de utilidade profissional”. A páginas de diário inéditas neste “Uma forma de saudade” tratam de doenças, percalços, mortes de parentes e amigos, como a do poeta Manuel Bandeira, uma morte triste, lamentável, sob todos os aspectos. A edição caprichada da editora Companhia das Letras vem acompanhada de interessante iconografia.

Companhia das Letras, R$ 59,90

7. A diplomacia na construção do Brasil: 1750–2016

Rubens Ricupero

O modelo maior da diplomacia brasileira”, explicou Rubens Ricupero, o autor deste livro — em recente entrevista ao jornalista Mário Sérgio Conti — , “foi José Maria da Silva Paranhos Júnior (1845–1912), o barão do Rio Branco, o grande institution-builder do Itamaraty”. “A diplomacia na construção do Brasil: 1750–2016” é uma importante contribuição para a compreensão da nossa história. Um livro de fôlego, com quase 800 páginas, no qual Ricupero — testemunha e protagonista das últimas cinco décadas da diplomacia brasileira — mostra e desvenda várias tramas de influência nacional e internacional desde o “Tratado de Madri”, de 1750, entre Portugal e Espanha, concebido pelo secretário do rei do m João V, o brasileiro Alexandre de Gusmão, “avô da diplomacia brasileira”, até os nossos dias.

Versal Editores, R$ 89,90

8. A arte da educação

Ronaldo Mota

Tomei a liberdade de incluir na lista um livro do qual eu sou o editor. Faço-o por merecimento do livro e não sem um bom (aliás, dois) motivo(s): a qualidade e a pertinência do assunto tratado em suas páginas. Neste “A Arte da Educação”, o professor Ronaldo Mota — que foi secretário de Educação Superior, secretário de Educação a Distância e ministro interino da Educação — analisa criticamente alguns dos principais debates e controvérsias sobre a aplicação das tecnologias digitais na educação. Concentrando-se nos aspectos sociais e técnicos dessas questões, Mota aborda questões fundamentais, mas muitas vezes pouco debatidas. No decorrer de 10 capítulos, o autor reflete cuidadosamente sobre pessoas, práticas, processos e estruturas por trás do uso cada vez maior de tecnologias na educação, com ênfase nas implicações das tecnologias digitais para indivíduos e instituições. Vale à pena conferir.

Obliq Livros, R$ 40,00

9. A marca do Z — A vida e os tempos do editor Jorge Zahar

Paulo Roberto Pires

Esta biografia traça o perfil de Jorge Zahar (1920–1998), um dos principais editores do Brasil, cuja casa editorial acaba de completar 60 anos, tendo sido pioneira na publicação de obras de ciências humanas e sociais e de ensaios no Brasil, além de ter enfrentado a censura durante a ditadura. O discreto e influenciador Zahar foi responsável por trazer ao país obras de autores como Freud, Hobsbawm, Sartre e Lacan. Concordo com o autor deste livro a respeito da “importância de conhecermos a cabeça dos editores, ou seja, daqueles que fazem cabeça de gerações, daqueles que ‘escolhem’ o livro que a gente vai ler”.

Editora Zahar, R$ 59,90

10. Quase diário: 1980–1999

Affonso Romano de Sant’Anna

Às vezes, a poesia apenas não basta como diário do poeta. Às vezes, ele precisa de outras ferramentas, como o próprio diário e a crônica, por exemplo. Escritor eclético, Affonso tem exercitado com maestria, em seus mais de 60 anos de carreira, diversos gêneros literários. Este “Quase diário” começa com a descrição da ida do autor ao enterro do “poetinha” Vinícius de Moraes e termina com a morte do “engenheiro da palavra”, João Cabral de Melo Neto. Affonso não sabia que através dessas décadas anotaria mortes, esperanças de uma geração e também elementos que ajudam (e ajudarão) a compreender uma época. Testemunha ocular de seu tempo, Affonso Romano de Sant’Anna viu as “entranhas do poder”, mas preferiu permanecer poeta (é hoje, sem dúvida, o maior poeta brasileiro vivo) e adorável cronista. Neste livro “de cabeceira” (pelo menos, para mim, tem sido) saberemos, por exemplo, que o enterro de Vinícius não foi triste e que à noite, no Jornal Nacional daquele 9 de julho de 1980, uma quarta-feira, foi usada uma frase de Affonso, sem no entanto lhe darem os devidos créditos: “Vinícius de Moraes foi o último grande poeta romântico”.

L&PM, R$ 64,90
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