Cientistas identificam áreas do cérebro modificadas durante a hipnose

Fran Lowry
23 de agosto de 2016

Pesquisadores descobriram que diferentes áreas do cérebro apresentam alteração de atividade e conectividade durante o transe hipnótico de pessoas facilmente hipnotizáveis.

Essas modificações da atividade neural fundamentam a atenção direcionada, o controle emocional e somático e a ausência de autoconsciência que caracterizam o estado hipnótico, informam os pesquisadores, liderados pelo Dr. David Spiegel, médico, professor e diretor associado da cátedra de psiquiatria e ciências comportamentais da Stanford University School of Medicine em Palo Alto, na Califórnia.

“Essas modificações podem nos ajudar a compreender por que a hipnose possibilita que alguns de nós façamos coisas que normalmente não conseguiriam fazer.”, disse o Dr. Spiegel ao Medscape.
A hipnose é a forma mais antiga de psicoterapia ocidental, mas ela ficou marcada por pêndulos e capas roxas. Na verdade, trata-se de um poderoso instrumento para modificar a forma como usamos a mente para controlar a percepção e os nossos corpos.”, disse o Dr. Spiegel.
“Se a hipnose for um tipo de atividade cerebral com algum potencial especial para nos auxiliar a lidar com problemas como dor, ansiedade e estresse, acho que este estudo nos fornece indícios de que ela, de fato, o seja.”, disse ele.

Diminuição da autoconsciência

Para elucidar as mudanças que ocorrem no cérebro durante o estado hipnótico, os pesquisadores utilizaram a ressonância magnética nuclear funcional na avaliação da atividade e da conectividade funcional entre três redes neurais durante a hipnose: a rede de modo padrão (default), a rede de controle de execução e a rede de saliência.

Após a triagem de 545 voluntários saudáveis, os pesquisadores selecionaram 36 pessoas com alta pontuação nos testes de hipnotizabilidade e as 21 pessoas com pontuação mais baixa nas escalas de hipnotizabilidade.

Cada participante fez o exame de imagem funcional em repouso, ao relembrar algum fato e durante duas sessões de hipnose diferentes.

“Na população geral, cerca de 10% são muito hipnotizáveis, aproximadamente dois terços são um pouco hipnotizáveis e um terço não é hipnotizável. Neste estudo, para obter a melhor maneira de demonstrar as diferenças no cérebro, escolhemos os extremos e selecionamos os 10% mais e menos hipnotizáveis; porém, há uma grande quantidade de pessoas nas faixas intermediárias que podem usar a hipnose, porque a maioria das pessoas é ao menos um pouco hipnotizável”, explicou o Dr. Spiegel.

Os resultados dos exames de imagem revelaram modificações em três áreas do cérebro, mas apenas no grupo de pessoas altamente hipnotizáveis, e somente enquanto os participantes deste grupo estavam hipnotizados.

Durante a hipnose, houve redução da atividade na parte dorsal do córtex cingulado anterior, que faz parte de rede de saliência do cérebro; aumento da conectividade entre o córtex pré-frontal dorsolateral e a ínsula; e diminuição da conectividade entre o córtex pré-frontal dorsolateral e a rede de modo padrão, que engloba o córtex pré-frontal medial e o córtex cingulado posterior.

“A parte dorsal do córtex cingulado anterior é geradora de contexto, auxiliando-nos a decidir o que está acontecendo em lugares diferentes e ao que precisamos prestar mais atenção. Por isso, se você estiver preocupado com atividades concorrentes, você olha para o contexto e decide qual é a mais importante”, explicou o Dr. Spiegel.
“Quando desligamos essa região, não nos preocupamos com as outras coisas que não estamos fazendo e assim nos empenhamos mais na tarefa com a qual estamos envolvidos. Vemos isso com a hipnose. É um tipo de atenção intensamente direcionada”, disse ele.
“A segunda constatação é o aumento da conectividade entre o córtex pré-frontal dorsolateral e a ínsula. A hipnose é muito boa para regular estados corporais, de modo que podemos ensinar as pessoas a imaginarem algo com o que estejam preocupadas sem ter todas as sequelas somáticas, como por exemplo, aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial. Você pode se permitir que seu corpo apenas flutue e sinta-se confortável, mesmo ao pensar sobre o que seu chefe lhe disse ontem. Isso ajuda a lidar melhor com as coisas, porque você dissocia a sua reação física da reação mental”, disse o Dr. Spiegel.
“A terceira observação, a relação inversa entre o córtex pré-frontal dorsal e a rede de modo padrão, representa a desconexão entre as ações da pessoa e sua consciência acerca de suas ações”, disse ele.
“Quando você está realmente envolvido com alguma coisa, na verdade não reflete sobre o que está fazendo, apenas o faz. Na hipnose, você diminui a autoconsciência, é assim que um hipnotizador pode fazer um treinador de futebol dançar como uma bailarina; ele não está consciente de suas ações, simplesmente age. Às vezes você quer estar autoconsciente, mas outras vezes você pode fazer as coisas melhor se não estiver preocupado com o seu desempenho. Como eu digo para os meus pacientes, você não pode escrever uma peça de teatro e redigir a crítica da peça ao mesmo tempo. Constatamos que esses elementos da atividade do cérebro podem nos ajudar a compreender como a hipnose nos auxiliam a fazer coisas que normalmente não conseguimos fazer”, observou o Dr. Spiegel.

Alternativa à medicação

A esperança do Dr. Spiegel é de que a medicina e a psicologia tradicionais comecem a levar a hipnose mais a sério como uma ferramenta terapêutica viável.

“A hipnose é uma maneira nova e diferente de usar o cérebro. Por exemplo, o paradigma isolado mais premente no momento é o controle da dor. Eu vi um sujeito ontem com uma dor na parte inferior do abdome que há três anos o incomoda. Ele usa três ou quatro analgésicos e classifica a sua dor como tendo 3 pontos em 10 — não é terrível, mas está lá. Após alguns minutos de hipnose a dor desapareceu”.
“Temos milhões de pessoas viciadas em opiáceos neste país, e pessoas morrendo em decorrência da dependência de opiáceos. Está na hora de ensinar as pessoas a usarem a própria capacidade de controlar sintomas como dor e ansiedade, e lidar com outros problemas”.
“A maioria dos psiquiatras, clínicos e outros profissionais de saúde pode ser treinada para fazer hipnose.”, acrescentou o Dr. Spiegel.
“Eu gostaria de ver a hipnose incorporada ao currículo das faculdades de medicina. As boas faculdades costumam ensiná-la, mas não a maioria. Isso é muito ruim. A hipnose é uma maneira de ajudar as pessoas e não precisa ser feita apenas por médicos”.
“Outros profissionais de saúde, dentro da sua área de especialização, como no controle da dor e no tratamento do estresse, também poderiam usá-la. É uma tremenda oportunidade que as pessoas têm de aprender a cuidar melhor de si e a administrar seus sintomas, e eu gostaria de vê-la utilizada mais amplamente. Este estudo é uma maneira de dizer que a hipnose é um fenômeno neurobiológico cognoscível que pode ser utilizado com muito mais proveito para ajudar as pessoas a lidar com todos os tipos de sintomas.”, disse ele.

Este estudo foi publicado online em 28 de julho no periódico Cerebral Cortex.

Cereb Cortex. Publicado on-line em 28 de julho de 2016. Resumo © 2016 WebMD, LLC.
Citar este artigo: Cientistas identificam áreas do cérebro modificadas durante a hipnose. Medscape, 23 de agosto de 2016.

Este estudo foi financiado por: National Center for Complementary and Integrative Health,National Institute of Biomedical Imaging and Bioengineering, Randolph H. Chase, MD, Fund II, Jay and Rose Phillips Family Foundation e Nissan Research Center.
Dr. Spiegel informa não possuir conflitos de interesses relevantes.

Fonte: Cientistas identificam áreas do cérebro modificadas durante a hipnose



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