Entrevista com o Mal

Foto: reprodução

ENTREVISTADOR: — Hoje temos aqui em nossos estúdios a presença do Mal que vai conversar conosco! (aplausos)

MAL: — Muito obrigado, é realmente um grande prazer poder estar aqui esta noite.

E: — Antes de tudo gostaríamos de saber por quê você existe e o por quê de tanta maldade?

M: — Me perdoe, mas eu acho que você fez duas perguntas distintas. Vejamos, a minha existência em princípio não é boa ou ruim, isso depende de várias coisas, como interpretação e reação. Já a maldade é um ato consciente em busca de um resultado específico fruto da ação de, e somente de, um ser humano.

E: — Como assim? Somente os seres humanos são aptos a promover a maldade?

M: — Exatamente. A maldade é um ato direcionado com a expectativa de um resultado negativo para outrem. Não existe maldade no mundo natural, só quando está presente uma intenção, o que é próprio do ser humano.

E: — Mas se a maldade depende de um ato, não ajudar uma pessoa em sofrimento então seria o quê?

M: — Podemos pensar de duas formas sobre esse tema. Primeiro: se a pessoa não ajuda desejando o pior para quem necessita, sim isso é maldade; Segundo modo de pensar: se a pessoa tem essa atitude sem nem mesmo pensar nas consequências para o sofredor não é maldade, é algo pior: indiferença.

E: — Mas uma família passando fome, pessoas doentes, enchentes isto não é uma maldade de Deus?

M: — De jeito algum! São consequências de abandono, falta de cuidado consigo mesmo e movimento natural de chuvas e rios. A natureza, força de Deus no planeta, é o que é e pronto. O homem é que se enfia no meio e, portanto, sofre as consequências disso. O mar não avança porque deseja tomar as casas de ninguém, as pessoas é que se colocam, cientes ou não, em locais dentro do perímetro de sua movimentação.

E: — E você, quando vai parar de fazer mal às pessoas?

M: — Mas, eu não faço nada! Eu existo fruto da condição comportamental humana. Veja bem, aquele copo cheio de água em cima dessa mesa. Se você pegá-lo e regar uma planta será um ato caridoso e bem recebido pelo pequeno vegetal. No entanto, se você pega o mesmo conteúdo e joga dentro de um formigueiro será uma tragédia para centenas de pequenas formigas. Não é responsabilidade do copo, ou mesmo da água, o que você fez. Assim funciona comigo, só passo a existir quando a intenção está presente. Mas, eu posso deixar de existir no alvo da maldade executada.

E: — Mais uma vez estou confuso, como assim a maldade pode deixar de existir após ser feita?

M: — Muito simples: o que hoje é visto como um ato de maldade, amanhã, ressignificado pode ser interpretado como um momento propenso para mudanças e reflexões. Rotas são alteradas e destinos são novamente traçados por pessoas que, em algum momento de suas vidas, foram alvos da maldade alheia. Assim, essas vítimas, podem sofrer verdadeiras transformações.

E: — Mas nem sempre é boa!

M: — Sim, é verdade. Isso vai depender da capacidade de cada um de fazer escolhas assertivas.

E: — Então você pode ser útil?

M: — Na verdade sempre sou. Mesmo quando o sofrimento é grande e as pessoas perdem o rumo, eu sou a ferramenta que permite o livre arbítrio. As pessoas podem escolher praticar o mal, ou não. As consequências ruins de retorno não surgem dos alvos afetados pela maldade. Que isso fique claro: jamais culpe o outro, (após praticar alguma maldade), de um revés em sua vida. É natural que, em algum momento, exista uma volta da energia colocada intencionalmente no ambiente natural. Mas, aqui entre nós, acredito que toda pessoa ruim sabe disso muito bem.

E: — E a morte? Quando é que você vai parar com essa maldade de matar criancinhas?

M: — Acho que não tenho condições de continuar com esta entrevista, esta pergunta idiota me deixou passando mal.

Por João Oliveira

Publicação original: http://on.fb.me/1fXjyOG

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