Exemplos de Ressignificação

Image by Luca Giordano — “St. Michael” | Wikimedia.org
“Acredito que todos os problemas e sintomas atuais sejam, na verdade, metáforas com uma história sobre qual é realmente o problema. Portanto, é responsabilidade do terapeuta criar metáforas, com uma história que contenha as soluções (possíveis). A metáfora é a mensagem… A hipnose é, por si só, uma metáfora dentro de outra…”
Steven Heller, Ph.D.

INTRODUÇÃO

Bom dia, boa tarde ou boa noite. Eu sou Samej Spenser e você está ouvindo o podcast HP News — Hipnose ao pé do ouvido! Neste episódio, quero trazer pra vocês um aspecto que considero extremamente importante no uso e na prática da hipnose clínica, (ou, como geralmente utilizamos), na hipnoterapia: trata-se da liberdade criativa e/ou raciocínio clínico no processo de ressignificação, ou seja, na forma como o cliente dá um novo significado a algo.

E para abordar este tema, trago pra vocês dois relatos de caso, o primeiro deles descrito no livro “Hipnose Não Existe? Monstros e Varinhas de Condão”, (inclusive, o relato que dá nome ao subtítulo do livro), escrito por Steven Heller, Ph.D., e Terry Lee Steele, com tradução de Soraya Borges de Freitas e publicado no Brasil em 2012 pela Editora Madras; o segundo relato é de um atendimento conduzido por mim com um cliente que, aqui, chamarei de “John Doe”.

MONSTROS E VARINHAS DE CONDÃO

Quando meu filho tinha uns 3 ou 4 anos, encasquetou que suas bolas de beisebol e futebol transformavam-se em monstros à noite, quando as luzes estavam apagadas. Ele as “via” ganhando vida, pareciam malvadas e tentavam pegá-lo. Agora, racionalmente, isso não faz o menor sentido. Nossa realidade consensual sabe que não é real. Minha esposa e eu tentamos explicar para ele o que era real e o que não era. Ele ouviu com bastante atenção e, quando terminamos, ele disse: “mas elas estão vindo me pegar”. Sabe-se lá por que razão, sua mente inconsciente criou essa realidade interna, que saltou, de repente, para se tornar sua realidade externa. As explicações lógicas, factuais, lineares do hemisfério esquerdo não deram em nada.

Então, resolvemos nos tornar ilógicos (muitos chamariam de criativos) para solucionar o problema. Fomos a uma loja de material para construção local e compramos um pedaço de vara de madeira cilíndrica com 61 centímetros de comprimento e 2,5 centímetros de diâmetro. Enrolamos veludo roxo em volta da vara e colocamos uma borla dourada na ponta. Depois, compramos uma caixa do tipo usado para colocar rosas e pusemos dentro dela a futura “varinha de condão”. Levamos a caixa para casa e explicamos ao nosso filho que fomos ver um médico especial, chamado de doutor mágico. Contamos para ele que o doutor mágico fez uma varinha de condão que faria todas as bolas monstruosas fugirem com medo. Dissemos então as palavras “mágicas” que o médico nos dera. Explicamos que, por duas ou três noites, ele deveria apontar a varinha de condão para os monstros e dizer as palavras mágicas.

Naquela noite todos fomos para seu quarto e realizamos uma cerimônia solene de abertura da caixa e entregamos a varinha de condão para ele. Ele pegou a varinha e, com grande determinação, percorreu o quarto. Em cada canto do quarto ele parou, apontou a varinha e disse as palavras mágicas. Naquela noite ele dormiu sem ter os pesadelos de antes e sem acordar sobressaltado. Na segunda noite, ele foi para seu quarto sozinho e repetiu o ritual. Depois da terceira ou quarta noite, ele encostou a varinha de condão em um canto e parou de usá-la. Dormiu sem problemas e nunca mais falou de monstros.

Cerca de duas semanas depois ele nos deu a varinha e disse que não precisava mais dela. A moral dessa história é: já que seus processos inconscientes, baseados em seus sistemas de crença, criaram essa realidade interna de bolas monstruosas, era necessário usar seu processo inconsciente para criar uma realidade interna que acreditasse em uma cura mais potente do que os monstros de bola para resolver o problema. As abordagens tradicionais usariam argumentos e provariam que os monstros não existem, “avaliariam” a profundidade de suas sensações ou o ajudariam (?) a extravasar seus medos/raivas/hostilidades/inseguranças (escolha um). Então, durante vários meses (ou anos), ele teria se tornado capaz de lidar com “O Problema”. Em vez disso, em questão de dias, ele não só aprendeu como resolver o problema… ele resolveu.

AMIGO IMAGINÁRIO

O caso era depressão e fobia social. O cliente tinha, na época, 36 anos de idade e estávamos na terceira ou quarta sessão de um pacote de quatro sessões quando o cliente, literalmente envergonhado, “confessou” que ainda tinha amigos imaginários. Mas antes, ele pediu para que eu não risse. Eu saí pela tangente sem prometer não rir, e quando ele me contou sobre os amigos imaginários, eu abri um sorriso sincero, expressando curiosidade (literalmente), e minha primeira pergunta foi: algum deles está aqui, agora?

Apontando para seu lado esquerdo, ele disse que um deles estava ali. Eu perguntei o nome do amigo imaginário e ele, visivelmente envergonhado, acanhado, respondeu que seu nome era Miguel, (o arcanjo).

Eu abri um baita sorriso, fiquei muito feliz, enquanto ele provavelmente imaginava que eu estaria tirando onda da situação. Em seguida, eu me levantei, me dirigi até próximo do local onde ele havia apontado e disse: eu não posso vê-lo, mas assim como você confiou em mim para realizar este trabalho e para contar este detalhe, confio que você está dizendo a verdade… é aqui que ele está?

Ele acenou com a cabeça, afirmando. Eu deixei de olhar para o cliente e comecei a me dirigir diretamente ao Miguel, dizendo: é um enorme prazer estar em sua presença, ainda mais sendo você quem é, o dono do nome que recebi,(lembrem-se, meu nome é “Michael”, ou seja, Miguel em Inglês), e tenho uma proposta à lhe fazer… como você é amigo do John Doe desde sua tenra infância, conhece-o melhor que ele mesmo, então pensei em colocá-lo em transe, e você, com toda sua sabedoria celestial, dará as sugestões adequadas que farão com que ele atinja o resultado desejado. Nesse meio tempo, ficarei lá fora por 10 minutos e, quando voltar, você passa o comando do transe novamente pra mim, de forma que eu o traga de volta para finalizarmos.

Olhei para o cliente e perguntei: o que ele disse? 🤔

John, já com um sorriso feliz no rosto, disse que Miguel adorou me conhecer “pessoalmente” e que adorou a ideia, pois era justamente o que ele (o cliente) precisava.

Então voltei para minha poltrona, perguntei se ele aprovava a “ideia”, (mais pra reforçar a sugestão que eu estava utilizando desde o início, ou seja, mais um “sim” para o yes-set), [1] ao que ele aprovou e concordou enfaticamente, quase não se contendo de alegria.

Iniciei a indução (relaxamento progressivo, coisa rápida, contando de 5 até 1) e, assim que ele estava relaxado (relaxou mais que nas ocasiões anteriores), eu me levantei novamente, me dirigi até onde estava o arcanjo Miguel e sussurrei: pronto, agora eu passo o comando hipnótico pra você… assim que eu sair pela porta, você dirá ao John, seu protegido, tudo o que ele precisa ouvir para mudar, melhorar e alcançar seu objetivo, afinal, você é um arcanjo extremamente sábio, forte, inteligente e o conhece muito melhor que eu, então, você está em condições de lhe dizer exatamente o que fará com que ele se sinta melhor, bem disposto, e que faça com que ele descubra seu amor próprio, seu alto valor diante de Deus Pai, e da Santa Trindade… agora vou sair e volto em dez minutos! (John era uma pessoa bem religiosa, então sempre que possível eu inseria linguagem religiosa para reforçar as sugestões e ter menor resistência consciente.)

Saí pisando bem de leve, (fechei a porta quando saí), fui tomar um café, lavei as mãos, escovei os dentes, e, dez minutos depois, abri a porta bem devagar, pedi licença pra entrar na minha sala de atendimento, me aproximei de onde estava Miguel e sussurrei: pronto… pode encerrar e passar o comando pra mim…

Tomei assento, aguardei alguns segundos, e iniciei o processo de dehipnotização, sempre sugerindo bem-estar e que as sugestões dadas por Miguel seriam muito mais efetivas e fortes do que as minhas. Também sugeri que durante seu sono comum, durante as próximas 90 noites, ele sonharia, (sempre o mesmo sonho), repetidas vezes durante cada uma das 90 próximas noites, e que esse sonho seria a repetição exata da sessão que estávamos finalizando naquele momento.

Quando ele saiu do transe hipnótico, eu lhe perguntei como estava se sentindo, e ele, (literalmente outra pessoa na minha frente, com um entusiasmo e “brilho” de alegria no rosto), começou a relatar as sugestões dadas por Miguel, elogiando a performance dele, dizendo que superou suas expectativas em relação àquela experiência.

Enfim, o cliente completou o pacote de quatro sessões, tendo atingido o resultado desejado com maestria (dele, não minha), e estava plenamente satisfeito com o resultado. Passado algum tempo, mantendo um contato breve após finalizado os atendimentos, soube que já não sentia a ausência de vitalidade de antes, muito pelo contrário, inclusive estava até saindo com uma pessoa que conheceu num barzinho.

CONCLUSÃO

Nas palavras de André Percia [2] no livro “A Hipnose sem Segredos”:
“Erickson buscava recursos nas pessoas com quem se comunicava, aceitando e utilizando o modelo de mundo das mesmas, o que certamente ajudava-as nas mudanças e a entregarem-se nas experiências.”

Tomando os exemplos acima por base e, aplicando o conceito que Erickson utilizava, podemos (e devemos) tirar proveito de todo e qualquer conteúdo que nossos clientes e/ou sujeitos hipnóticos nos tragam e convertê-los em ferramentas e/ou meios de levar o cliente do estado atual para o estado desejado. Para isso, é preciso que estejamos com nossa criatividade bem desenvolvida e, acima de tudo, que saibamos utilizá-la adequada e corretamente na ocasião propícia.

E você, como tem utilizado sua criatividade no processo de ressignificação e/ou nas sessões hipnóticas que conduz?

Mande um e-mail para nós em hpratica@gmail.com ou visite nosso site em www.hpnews.com.br e deixe um comentário no post deste episódio para que possamos aprender uns com os outros.

Já você que acredita não ter criatividade, lhe adianto que está redondamente enganado! Tanto é que no episódio 80 do BallasCast, “10 Dicas de Criatividade” (dicas essas que eu mesmo estou buscando colocar cada vez mais em prática) o palhaço Marcio Ballas afirma exatamente isso: “VOCÊ É CRIATIVO! VOCÊ É CRIATIVO! VOCÊ É CRIATIVO!”; visite nosso site em www.hpnews.com.br para acessar o link direto para o episódio 80 do BallasCast.

ENCERRAMENTO

Você que já está habituado a consumir e ouvir podcasts em seu agregador, lembre-se de visitar o post deste episódio em www.hpnews.com.br para comentar, ler a transcrição e conferir algumas notas que adicionei.

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Grande e forte abraço e, até o próximo transe! 🌀

CRÉDITOS

  • Fonte: Trecho retirado do livro “Hipnose Não Existe? Monstros e Varinhas de Condão”, de Steven Heller, Ph.D. e Terry Lee Steele, Editora Madras, pp. 124–125;
  • Imagem de capa: “St. Michael” by Luca Giordano | Wikimedia.org;
  • Relato de caso de Samej Spenser, [3] narrado no grupo Hipnose Prática no Telegram (grupo este onde os colaboradores interagem diretamente conosco);
  • Trilha Sonora: “2 Hours of Celtic Music” by Adrian von Ziegler — Part 2 | YouTube: youtube.com/watch?v=ihZwWD4MFtA;

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Notas

  1. “Yes-Set” ou “Padrão Sim”: Trata-se de um enquadramento de concordância. Você faz a pessoa concordar com você o máximo que for possível. Durante a indução hipnótica, use a estratégia de fazer seu cliente dizer “sim” para várias coisas. Depois que a pessoa fizer isso várias vezes e você reforçar, ela tenderá a seguir com o padrão dizendo “sim” para suas sugestões.
    Você também pode fazer várias afirmações e declarações óbvias como “você está deitado, o sofá é bastante confortável, seus olhos estão fechados”, o que naturalmente fará com que ele verifique que é verdade e pense “sim”; ou quando perceber que ele verifica o óbvio ou corrobora o que está fazendo, você pode dizer “isso” ou “sim” para ele.
    Percia, A., “A Hipnose sem Segredos”, p. 70, Editora Jaguatirica, Rio de janeiro, RJ, 2017.
  2. Percia, A., “A Hipnose sem Segredos”, p. 46, Editora Jaguatirica, Rio de janeiro, RJ, 2017.
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