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A Influência Francesa nos Primórdios da Hipnose no Brasil

Em 2009, ano em que se c̶o̶m̶e̶m̶o̶r̶a̶ comemorou o Ano da França no Brasil, recordemos um pouco da História da Hipnose em solo Pátrio.

Samej Spenser
Mar 18, 2016 · 7 min read

Enquanto fervilhavam na Europa as discussões sobre a aplicação do Hipnotismo, enquanto se digladiavam na França as escolas de Paris e de Nancy, tendo de um lado Charcot e a Escola da Salpêtrière e de outro Liébeault e Bernheim com a Escola de Nancy, o hipnotismo, recém-chegado ao Brasil, teve em 1823, publicado seu primeiro trabalho científico através de João Lopes Cardoso Machado, com citações sobre o método no seu “Dicionário Médico-Prático”.

Em 1832, Leopoldo Gamard, publicou a “Monografia Sobre Magnetismo Animal” sendo seguido em 1857 por José Mauricio Nunes Garcia que trouxe à luz seus “Estudos sobre a Fotografia Fisiológica”.

A aplicação do magnetismo, despertado por esses pioneiros, provocou intensa mobilização nos meios médicos brasileiros, culminando em 28 de maio de 1861 com a fundação da Sociedade de Magnetismo e de Jury Magnético no Rio de Janeiro, que teve seu funcionamento autorizado em 03/05/1862 pelo Governo Imperial. É interessante ressaltar que a novel entidade nasceu com a recomendação de D. Pedro II que enfatizava: “as experiências e as aplicações devem ser feitas por médico competente e reconhecido”.

De 1876 a 1887 a técnica do magnetismo animal foi enriquecida com a publicação de inúmeros trabalhos, sobressaindo-se os de Mello Morais, Dias da Cruz, Ferreira de Abreu, Gama Lobo, Gonzaga Filho, Morais Jardim, Calvet, Lucindo Filho, Sá Leite e Affonso Alves.

Com Érico Coelho em 1887, através da apresentação de trabalho versando sobre o tratamento do beribéri pela sugestão hipnótica, na Academia Imperial de Medicina, iniciou-se a fase realmente científica da hipnose em nossa terra. Em seguida, em 1888, Cunha Cruz apresenta seu trabalho inteiramente dedicado à tocoginecologia intitulado “Hypnotismo e Sugestão com Aplicação à Tocologia”, sendo seguido por Francisco Moura com “Physiologia Pathológica dos Phenomenos Hypnóticos”.

Todos os trabalhos derivavam da evolução do hipnotismo no velho continente e continham forte influência francesa. Também com essa característica, na Faculdade de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro, em 1888, foi apresentada a primeira Tese de Doutoramento sobre o hipnotismo, por Francisco Fajardo Jr.

Em 1889 ocorreu no Rio de Janeiro o II Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia que incluiu trabalhos sobre hipnose de Alfredo Barcello, Aureliano Portugal, Francisco Fajardo Jr. e Érico Coelho. Com a publicação dessas monografias, surgiram no Brasil os primeiros trabalhos sobre hipnotismo em nosso meio. Isso nos leva a fazer considerações sobre o importante papel desempenhado por Fajardo na trajetória histórica da hipnose.

Francisco de Paula Fajardo Jr. nasceu na Fazenda da Cachoeira, no Estado do Rio em 1822, e cursou a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde colou grau em 7 de junho de 1888, sendo aprovado com distinção ao defender sua tese de doutoramento “O Hypnotismo”. Em vista do sucesso da tese, ampliou-a e a lançou como um “Tratado de Hypnotismo” em 1896.

Seguiram-se as teses “Ensaio Médico-Legal sobre o Hypnotismo” de José Alcântara Machado de Oliveira em 1895 e “O Hypnotismo Sob o Ponto de Vista Médico-Legal” de Augusto Ribeiro da Silva em 1900.

O livro de Fajardo captou os ecos da célebre polêmica que ocorria entre as Escolas de Paris e de Nancy e foi elaborado debaixo do estímulo de Érico Coelho, que introduzira o método hipnótico no Brasil. Focalizava ainda os resultados obtidos por Francisco de Castro, Miguel Couto, Teixeira Brandão e outros grandes médicos da época. Seu autor já era consagrado pelas pesquisas nas áreas da química, bacteriologia obstetrícia, ginecologia, parasitologia, medicina tropical, medicina sanitária e higiene.

Colhido em sua brilhante trajetória quando se encontrava em seu auge, Fajardo faleceu em 6 de novembro de 1906 com 32 anos de idade, apesar de todos os cuidados que lhe foram proporcionados por Miguel Couto. Seu túmulo, no Cemitério João Baptista, no Rio de Janeiro, traz epitáfio de Álvares de Azevedo: “Vivo, não vi quem fosse tão querido, morto, não vi quem não fosse tão chorado”.

Graças à sua experiência pessoal e chegando a conclusões categóricas, seu livro ficou na história bibliográfica como o primeiro tratado de hipnotismo lançado no meio brasileiro.

Mas os caminhos da hipnose não fazem parte de uma linha reta, horizontal ou ascendente. São muitos os obstáculos, são inúmeros os percalços em seu caminho. Em um momento, brilha como sol que a tudo ilumina e traz calor, em outro se esconde timidamente escondido pelo evoluir da ciência, para reaparecer mais tarde, novamente brilhante e esplendorosa.

Não foi diferente sua evolução naquele tempo. Na clínica obstétrica, ginecológica e psiquiátrica o hipnotismo feito através da sugestão direta proporcionaria apenas sucessos transitórios e duvidosos. Na cirurgia e na anestesia, seria suplantada pelo clorofórmio e manifestações mediúnicas seriam adicionadas à condição hipnótica. Debaixo da sugestão hipnótica só praticaria um crime quem estivesse predisposto e não existiria a sugestão hipnótica praticada à distância. Surge posteriormente a Livre Associação de Sigmund Freud que se propôs a substituir a Hipnoterapia no contexto psiquiátrico.

Por outro lado, na época ainda fervia a controvérsia entre Charcot e Liébeault e Bernheim. Para Charcot, o hipnotismo constituía um estigma de degeneração só ocorrendo nos histéricos e para Liébeault e Bernheim seria um fruto do fenômeno universal da sugestão, plenamente compatível com a normalidade.

Fajardo abraçou a Escola de Nancy, sem se intimidar com o prestígio de Charcot, ao registrar: “Se a sugestão, portanto, toma parte preponderantemente em qualquer das manifestações hipnóticas; se está provado que ela constitui por si só o grande fator em qualquer fase do processo sonambúlico, segue-se que a sua importância está fora de dúvida. Em oposição a opinião geral, ficou demonstrado que o sono hipnótico se produz tanto nas pessoas sãs, como nas histéricas, nos homens e nas mulheres e que a proporção de indivíduos aptos a entrarem em sonambulismo é muito maior do que se admite geralmente. Que o sono hipnótico se produz da mesma sorte nas pessoas sãs como nas histéricas, é hoje um fato de conhecimento geral; pois não há quem não possa verificar por si mesmo, que todo o mundo é variavelmente sujeito a influencias hipnogênicas”.

A participação do Brasil no Primeiro Congresso Internacional de Hypnotismo Experimental e Terapêutico realizado no Hotel Dieu de Paris, ocorreu com a presença de Joaquim Correa de Figueiredo e Siqueira Ramos. Neste Congresso, a Presidência de Honra coube a Charcot, Brown Sèquard, Brouardel, Charles Richet, Azam, Lombroso e Mesnet. Entre os participantes, estavam Liébeault, Bernheim, Déjérine, Pierre Janet, Babinski, Forel, Grasset, Freud, Bechterew, Schrenck-Notzing e William James. A presidência efetiva do congresso foi exercida por Dumontpallier. Compareceram delegações de 23 países.

Devemos ainda nos referir ao nome de Medeiros de Albuquerque que, apesar de leigo, legou-nos um livro de grande valor, editado logo após a primeira grande guerra. Esta obra, foi prefaciada por Miguel Couto e Juliano Moreira e ainda hoje é aceito por grande número de hipnotistas.

Este livro coroou uma época de grande entusiasmo e atividade para o hipnotismo em nosso País, pois após sua publicação iniciou-se a sua fase de ostracismo. Esta duraria até 1956, quando David Akstein, Álvaro Badra, Maurício de Medeiros e Fernando Negrão Prado reacenderam a chama que persiste até hoje, trazendo o psiquiatra argentino José Torres Norry para uma série de conferências que se realizaram no Rio de Janeiro, São Paulo e Campinas. Logo em seguida, em 1957, fundou-se a Sociedade Brasileira de Hipnose Médica, que foi a célula mater de inúmeras sociedades congêneres que se espalharam por todos os estados brasileiros e que em sua maioria, ainda hoje persistem em sua missão de formar e aperfeiçoar profissionais das áreas da saúde, especialmente médicos, odontólogos e psicólogos. Como dizia José Custódio de Faria, (o Abade Faria), em seus primórdios, “as técnicas sugestivas sempre voltarão, porque se constituem em um bem para a Humanidade sofredora”.

Como a Fênix que renasce das suas próprias cinzas, a hipnose ressurgiu então, com todo o seu vigor para ser mais uma diretriz a ser usada como modelo no restabelecimento e na manutenção da saúde física e mental do brasileiro.

Autor: Dr. Joel Priori Maia
Revisão: .


Bibliografia

AKSTEIN, David, “Hipnologia — Vol. I” Editora Hypnos, RJ, 1973.

FAJARDO JR., Francisco, “Tratado de Hipnotismo”, Ed. Laemmert & Cia. RJ, 1896.

MAIA, Joel Priori, “História da Hipnose e A Hipnose no Brasil”, Apostilas de Aulas — Hemeroteca da Sociedade de Hipnose Médica de São Paulo, 2000.

RIBAS, João Carvalhal, “Antologia Psiquiátrica — Francisco Fajardo: O Primeiro Tratado de Hipnotismo no Brasil”, Revista de Psiquiatria Clinica 11(1–2):29–1982 — Cl. Psiq.- F.M.U.S.P.


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Brazilian; Hypnotherapist, Mental Reprogrammer, beer (and coffee) lover, podcaster and bearded. http://about.me/SamejSpenser

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