Transe: Uma Explicação Científica - Parte 1

Samej Spenser
Jan 22, 2017 · 16 min read
“A maioria das pessoas percorre o mundo em transe, destituídos de poder. Nosso trabalho é transformar isso em um transe de capacitação.”
Milton H. Erickson, (1901–1980)

Introdução

Geralmente é difícil falar sobre o tema do “transe”, pois a palavra tornou-se tão lugar-comum que não existe mais nenhuma definição precisa. Em debates sobre hipnose, é comum ouvirmos pessoas discorrendo sobre transe como se realmente soubessem algo a respeito do que estão falando. No entanto, se lhes perguntarem: “O que significa isso? O que é um transe?”, torna-se obviamente evidente que elas não têm a menor ideia sobre o assunto.

O significado de transe

O termo “transe” vem da palavra transe do inglês medieval e do francês antigo, que significava grande ansiedade e medo, de transir, perecer, e do latim transire, morrer [2]. É fácil ver de onde as conotações mórbidas e negativas se originaram. O termo em si mesmo está relacionado com a própria morte ou com a ansiedade mórbida e o medo paralisante que precedem a morte. Não admira que o “transe” tenha sido tão temido! (Alguns acreditam que o termo latino significava “transição”, mas essa é uma maneira moderna de pensar sobre a morte. Por milhares de anos, a morte provinha de ferimentos sofridos em acidentes ou batalhas, ou de doenças incuráveis. Poucos dos nossos ancestrais morreram em paz; a morte era sempre horrivelmente cruel e frequentemente agonizante. Assim, a princípio, a palavra “transe” tinha qualidades semelhantes à morte.)

  1. Um estado de atordoamento; torpor, letargia;
  2. Uma situação de grande abstração mental, especialmente a provocada pelo fervor religioso ou pelo misticismo; em anos recentes, um estado induzido por meios químicos, tais como drogas psicodélicas;
  3. Uma situação na qual um médium espírita supostamente perde a consciência e fica sob o controle de alguma força externa, para a hipotética transmissão de uma comunicação dos mortos.

Alteração neurológica

Um transe é um estado de percepção alterada provocado por uma alteração do sistema nervoso. É mais um estado de consciência do que de inconsciência. É um estado de “perda de consciência” que pode ser subjetivamente experimentado de várias maneiras. É uma alteração temporária do sistema nervoso que é sentida como percepção e atenção alteradas. Constitui o resultado de certos fatores causais definidos. A técnica para causar essa alteração neurológica é chamada de “indução hipnótica” e a condição dela resultante é chamada de “transe hipnótico”.

  1. Transe por droga;
  2. Transe por sugestão:
    a) Induzido verbalmente;
    b) Induzido não-verbalmente.

Duas espécies de transes

As conotações mórbidas e negativas originalmente dadas à palavra “transe”, na verdade, têm alguma base, de acordo com estudos neurológicos do estado de transe. Dependendo da espécie de estímulo empregado, são possíveis duas espécies distintas de transe hipnótico. Anatol Milechnin (em seu livro Hypnosis, 1967) chamou-os de “trofotrópicos” e “ergotrópicos”. É mais simples considerá-los como transes positivos e negativos.

Os sistemas nervosos simpático e parassimpático

O transe negativo é causado pela estimulação das emoções perturbadoras; isso, na verdade, é uma espécie de reação ao “choque” do sistema nervoso simpático. O sistema nervoso simpático provoca reações no corpo que estão relacionadas com “lutar ou fugir”. Em outras palavras, ele prepara o corpo para lidar com as emergências. Essas reações são percebidas por nós como sensações de excitamento e estimulação das emoções relacionadas com o medo.

  1. Contração das artérias menores, particularmente na área visceral e na pele, dirigindo o sangue para os músculos e os centros nervosos; possível aumento da pressão sanguínea.
  2. Dilatação dos brônquios, com respiração mais profunda e mais rápida; prolongamento da fase de inspiração, em relação ao ciclo total de respiração, e um aumento na aeração pulmonar.
  3. Aumento da transpiração, com o correspondente aumento na condutibilidade elétrica da pele.
  4. Dilatação das pupilas com tendência a uma abertura maior das pálpebras.
  5. Diminuição da secreção salivar.
  6. Contração das fibras musculares da pele.
  7. Retardamento dos movimentos peristálticos gastrointestinais.
  8. Contração da bexiga.
  9. Aumento de açúcar no sangue, por causa de uma maior eliminação de glicogênios no fígado.
  10. Aumento de células vermelhas no sangue, devido à contração do baço, com um certo aumento de células brancas, predominantemente de mielócitos, e um relativo decréscimo de linfócitos.
  11. Predominância de cálcio sobre o potássio e uma tendência à acidose.
  12. Mudanças nos coloides sanguíneos.
  13. Certo aumento nas secreções de adrenalina e da tireoide.

Hipnose animal

O interessante, porém pouco conhecido fenômeno da “hipnose animal” coloca-se na categoria de transe negativo porque é causado pela estimulação das “emoções” negativas do animal. A hipnose animal foi extensivamente descrita por pesquisadores como Schwartz e Bickford, em 1956, e por Volgyesi, em 1963. (Se estiverem interessados no assunto, posso recomendar-lhes o ótimo livro Hypnosis of Men and Animals, de Volgyesi.)

Transe positivo parassimpático

As mudanças físicas que podem ocorrer com a estimulação do sistema nervoso parassimpático são as seguintes:

  1. Dilatação vascular, particularmente na área visceral.
  2. Aumento do tono dos músculos bronquiais.
  3. Aumento das secreções salivar e lacrimal.
  4. Contração da pupila.
  5. Estimulação da atividade digestiva.
  6. Aumento do tono e dos movimentos do trato urinário.
  7. Aumento do glicogênio depositado no fígado e nos músculos.
  8. Tendência a um decréscimo de células brancas no sangue, com um aumento de eosinófilos e linfócitos.
  9. Tendência à alcalose.
  10. Um certo aumento de insulina e de secreções na paratireoide e no timo.

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Notas

[1] O site HypeScience publicou (14 de Janeiro de 2017) um artigo bem interessante, onde relata (com vídeos e fotos) 10 crimes (supostamente) cometidos com a ajuda da hipnose. Confira: 10 crimes cometidos com a ajuda intrigante da hipnose. Site visitado em 2017/01/22. [Nota de Samej Spenser].

  1. Alteração da consciência caracterizada pela ausência da percepção do meio ambiente, por meio da perda das sensações físicas, mudança de comportamento, que podem ser causadas por estímulos sensoriais ou psicológicos, ingestão de drogas etc.
  2. Estado de exaltação que faz um indivíduo perder as forças sensoriais, ser transportado para fora de si e, supostamente, sintonizar entidades, divindades ou algo exterior a ele.
  3. Estado de profunda abstração no qual alguns artistas mergulham ao produzirem suas obras.
  1. FILOS Na concepção platônica, representa a libertação da alma em relação ao corpo e aos prazeres; isto é, já em vida, a alma se retira das atividades físicas e renuncia aos desejos e paixões, aguardando a separação total que se realiza com a morte.
  2. FILOS No aristotelismo, fenômeno estético de efeito purificador, espécie de libertação ou serenidade, que a poesia e, em especial, o teatro e a música provocam no homem, proporcionando a descarga de conflitos de ordem emocional ou afetiva.
  3. POR EXT, TEAT Efeito benéfico de purificação do espírito do espectador por meio da purgação dos sentimentos de terror ou piedade proporcionado pela contemplação do espetáculo trágico.
  4. REL Ritual de purificação a que os iniciados nos mistérios de Elêusis deveriam se submeter para se transformarem em sacerdotes, na Grécia antiga.
  5. MED Purgação intestinal; evacuação.
  6. PSICOL Descarga emocional pela qual um indivíduo se liberta do conteúdo afetivo ou de emoções reprimidas quanto a um acontecimento passado; ab-reação: “Dessas cenas em movimento, filtra alguns instantâneos. Contorções, risos, arquejos, dança. Flagrantes de catarse digitalizados […]” (AAn).
  7. PSICOL Efeito salutar e liberador observado em pacientes submetidos a tratamentos psicoterapêuticos (hipnose, psicodrama, recordação etc.) baseados no método catártico.
  8. PSIC Procedimento de chamada à consciência de uma lembrança, até então parcial ou totalmente recalcada no inconsciente, e que apresenta forte carga afetiva e emocional, liberando o paciente do estado patológico associado a esse bloqueio.
  1. FON, GRAM Mudança fonética que consiste no recuo do acento tônico de uma palavra para a sílaba anterior: benção e bênção.

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Brazilian; Hypnotherapist, Mental Reprogrammer, beer (and coffee) lover, podcaster and bearded. http://about.me/SamejSpenser

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