Transe: Uma Explicação Científica - Parte 3

Samej Spenser
Mar 1, 2017 · 9 min read
“A maioria das pessoas percorre o mundo em transe, destituídos de poder. Nosso trabalho é transformar isso em um transe de capacitação.”
Milton H. Erickson, (1901–1980)

Um hipnotizador e seus pacientes

Hipnotizadores de palco/teatro logo aprenderam que nem todas as pessoas são igualmente suscetíveis às suas técnicas nem igualmente capazes de proporcionar um “bom show” em público. Levado pela necessidade de se livrar dos que reagem de forma mais lenta e, afinal, para padronizar as técnicas de indução, o ator teatral utilizou “testes de sugestionabilidade” para selecionar rapidamente os indivíduos mais sugestionáveis. De fato, as pessoas que se apresentavam voluntariamente eram parte do processo de seleção. Testando-as rapidamente, o hipnotizador logo dispunha de vários pacientes nos quais podia confiar que se comportariam de uma maneira previsível. Portanto, os hipnotizadores de palco na verdade consideravam que as pessoas pertenciam a uma das duas categorias: os “bons” pacientes e os “maus” pacientes.

Um médico que começasse a estudar a hipnose inicialmente teria de tomar lições com um hipnotizador leigo ou com um ator teatral e seria natural que aprendesse as mesmas técnicas de seleção que pressupunham que as pessoas eram ou “bons” ou “maus” pacientes para a hipnose. O médico sentia que também ele não podia desperdiçar tempo. Assim, no processo de utilização da hipnose num pequeno número de pacientes selecionados, ele necessariamente eliminava muitos dos quais ele considerava “maus” pacientes e, dessa forma, privava-os involuntariamente dos benefícios da hipnose.

O hipnotizador clínico que se especializou bastante em hipnoterapia teria de trabalhar com quase todos que o viessem procurar e não poderia selecionar e escolher seus pacientes como o apressado entretenedor ou como o ocupado médico. Seu temperamento estava predisposto a gastar mais tempo com cada indivíduo e tentar ensiná-los a se tornarem bons pacientes hipnóticos durante um período de tempo. Em decorrência dessas novas atitudes entre os hipnotizadores, novas técnicas de indução e classificação aos poucos foram surgindo.

A maior parte dessas tentativas de classificação seguia o trabalho de hipnotizadores experimentais no meio universitário e terminava com uma descrição estatística da percentagem de estudantes que respondiam as “testes de suscetibilidade” de vários graus. Esse trabalho poderia ser descrito mais como de cunho fenomenológico do que neurológico. A diferença entre os pacientes hipnóticos era considerada “apenas o modo como a hipnose ocorre”, sem qualquer tentativa de correlacioná-la com os vários tipos de sistemas nervosos.

Algumas vezes os hipnotizadores poderiam, por observação e experiência, chegar a conclusões acerca da diferença na hipnotizabilidade entre pacientes masculinos e femininos, entre pacientes velhos e moços, ou de acordo com diferenças ocupacionais, educacionais ou níveis de inteligência, nacionalidades, etc. Embora operacionalmente válidas, essas classificações apenas atribuíam as diferenças existentes entre pacientes hipnóticos a diferenças de ambientação e de desenvolvimento. Em outras palavras, os indivíduos reagiam de forma distinta por causa das suas diferentes experiências, atitudes, expectativas passadas, etc.

Assim, ninguém parecia capaz de relacionar as descobertas de Pavlov com a classificação dos pacientes hipnóticos. Hipnólogos americanos nunca haviam estado muito interessados na abordagem fisiológica da hipnose, mas a influência pavloviana era muito forte fora do mundo de língua inglesa. Hipnólogos europeus e sul-americanos são pavlovianos (ou neo-pavlovianos como muitos preferem, devido ao reconhecimento do envolvimento das estruturas subcorticais do cérebro na hipnose) e provêm desses lugares os recentes avanços nesse sentido.

O falecido hipnólogo húngaro, Dr. Ferec Andreas Volgyesi, propôs uma tipologia a esse respeito. Ele afirmou que há quatro tipos básicos de temperamentos nervosos, como se segue:

Os da primeira categoria são pessoas que têm constituições nervosas psicoativas herdadas e que também adquiriram características psicoativas através de sua educação. A segunda categoria é das pessoas que têm constituições psicoativas herdadas, mas que adquiriram características psicopassivas. O terceiro grupo é composto das que têm constituições psicopassivas herdadas, mas posteriormente adquiriram características psicoativas. As pessoas que são psicopassivas tanto pelas constituições nervosas hereditárias como pelas características adquiridas pertencem à quarta categoria. Esse sistema poderia satisfazer a ambos os lados do velho debate “hereditariedade versus meio ambiente”!

O Dr. Volgyesi acreditava que cerca de cinquenta por cento das pessoas educadas pertencem ao Grupo Quatro, cerca de vinte e cinco por cento ao Grupo Três e vinte por cento ao Grupo Dois, com os restantes cinco por cento no Grupo Um.

Correlacionamento dos tipos

Se tentarmos uma correlação dos “tipos de pessoas”, ficaremos chocados com o fato de que parece não existir apenas quatro categorias e que essas classificações do temperamento humano parecem ser totalmente compatíveis entre si. Se sintetizarmos as tipologias de Hipócrates, Pavlov e Volgyesi, o resultado será este:

Essa classificação merece uma séria análise. Pode não coincidir com o que desejaríamos que fosse a raça humana, mas é muito provavelmente a classificação moderna mais científica. As percentagens de Volgyesi são naturalmente simples aproximações, mas o que é mais interessante, porque os hipnotizadores têm sempre estado de acordo, é que vinte por cento de qualquer população pode ser fácil e profundamente hipnotizada na primeira tentativa.

Inibição do cérebro e desfalecimento

Pavlov descobriu que, sob estimulação gradualmente crescente do tipo perturbador ou exaustivo, poderia surgir, mais cedo ou mais tarde, o comportamento “anormal”. Esse comportamento “anormal” (que na verdade, é normal sob tensão anormal) poderia ser dividido nos três estágios seguintes:

Por fim, naturalmente, o estágio de “desfalecimento” é atingido quando os limites de resistência do cérebro finalmente são ultrapassados. Ele se assemelha ao coma histérico; Pavlov chamou-o de “inibição transmarginal protetora”.

Cães nervosos e homens nervosos

Desses estudos resultaram certas proposições científicas. Elas se aplicam a todos os estados de consciência alterada provocados por fadiga, experiências emocionais traumáticas e que afetam os nervos, drogas, falta de sono, indução hipnótica negativa ou uma combinação programada de todos esses fatores que se tornou conhecida em nossos dias como “lavagem cerebral”.

Todos os dados experimentais levam às seguintes proposições:

Uma diminuição de resistência pode, portanto, ser produzida por meios tais como: fadiga, fome, febres, drogas, etc. No âmbito do hipnotismo, o brilhante Abade Faria fez uma perspicaz observação quando verificou que as pessoas que haviam “sangrado” (uma prática médica comum em sua época) ficavam mais suscetíveis à indução mesmérica do que o normal.

A observação dos seus semelhantes é uma característica do homem desde o início dos tempos, mas é um subterfúgio da natureza humana o fato de observar cuidadosamente só o que é inusitado, com a tendência de não tomar conhecimento do que é comum. Estudamos mais quanto às doenças do que o fazemos quanto à saúde e mais quanto às anormalidades do que quanto às condições normais. Além disso, muito de nossas observações sobre os efeitos da alteração neurológica (transe) do comportamento vêm sendo feitas e, condições anormais de guerras, fome, doenças, drogas e toda sorte de influências desagradáveis. Mesmo assim, esses estudos têm produzido um conhecimento considerável e devemos ser gratos por isso.

Embora muito do que foi dito sobre a explicação científica do transe e sobre os fenômenos relacionados com ele seja aplicável principalmente a transes negativos, que são provocados pela estimulação de emoções perturbadoras, esses princípios podem ser relacionados com todos os casos de alteração neurológica, inclusive o transe hipnótico positivo. Os estudiosos que se aplicam com seriedade ao hipnotismo deverão adequar as implicações desses princípios ao transe hipnótico do tipo positivo, que é eliciado pela estimulação das emoções estabilizadoras.

A hipnose é uma ciência

Espero que essa discussão sobre o “transe” tenha lançado alguma luz sobre o assunto. Pelo menos, eu espero que tenha estabelecido o fato de que podemos falar mais apropriadamente sobre a hipnose numa terminologia científica. É um erro adotar termos metafísicos para descrever fenômenos que podem ser definidos e descritos adequadamente na linguagem comumente aceita pela ciência natural. Pois continuar falando sobre hipnose com figuras de linguagem obsoletas retardará o seu desenvolvimento científico no futuro e a sua aceitação no presente.

Eu insistiria para que todos os hipnólogos aprendam a pensar e a falar na linguagem da ciência!

Fonte: Trechos retirados do livro “Hipnose Científica Moderna”, de Richard N. Shrout, Ed. Pensamento, pp. 59–65, 1985.


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Originally published at telegra.ph on March 1, 2017.

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Samej Spenser

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Brazilian; Hypnotherapist, Mental Reprogrammer, beer (and coffee) lover, podcaster and bearded. http://about.me/SamejSpenser

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