Transe: Uma Explicação Científica - Parte 3

Samej Spenser
Mar 1, 2017 · 9 min read
“A maioria das pessoas percorre o mundo em transe, destituídos de poder. Nosso trabalho é transformar isso em um transe de capacitação.”
Milton H. Erickson, (1901–1980)

Um hipnotizador e seus pacientes

Hipnotizadores de palco/teatro logo aprenderam que nem todas as pessoas são igualmente suscetíveis às suas técnicas nem igualmente capazes de proporcionar um “bom show” em público. Levado pela necessidade de se livrar dos que reagem de forma mais lenta e, afinal, para padronizar as técnicas de indução, o ator teatral utilizou “testes de sugestionabilidade” para selecionar rapidamente os indivíduos mais sugestionáveis. De fato, as pessoas que se apresentavam voluntariamente eram parte do processo de seleção. Testando-as rapidamente, o hipnotizador logo dispunha de vários pacientes nos quais podia confiar que se comportariam de uma maneira previsível. Portanto, os hipnotizadores de palco na verdade consideravam que as pessoas pertenciam a uma das duas categorias: os “bons” pacientes e os “maus” pacientes.

  1. Os constitucionalmente psicoativos, mas evolutivamente psicopassivos;
  2. Os constitucionalmente psicopassivos, mas evolutivamente psicoativos;
  3. Os constitucional e evolutivamente psicopassivos.

Correlacionamento dos tipos

Se tentarmos uma correlação dos “tipos de pessoas”, ficaremos chocados com o fato de que parece não existir apenas quatro categorias e que essas classificações do temperamento humano parecem ser totalmente compatíveis entre si. Se sintetizarmos as tipologias de Hipócrates, Pavlov e Volgyesi, o resultado será este:

  1. Reações de inibição (psicopassivas)
    a) Calmo, imperturbável. Constituição nervosa psicopassiva herdada, com características psicoativas adquiridas. O indivíduo “melancólico”.
    b) Ligeiramente inibível. Constituição nervosa psicopassiva herdada, com características psicopassivas posteriormente adquiridas. Indivíduo “fleugmático”.

Inibição do cérebro e desfalecimento

Pavlov descobriu que, sob estimulação gradualmente crescente do tipo perturbador ou exaustivo, poderia surgir, mais cedo ou mais tarde, o comportamento “anormal”. Esse comportamento “anormal” (que na verdade, é normal sob tensão anormal) poderia ser dividido nos três estágios seguintes:

  1. Estágio “paradoxal”, no qual o cérebro responde mais ativamente ao estímulo fraco do que ao forte.
  2. Estágio “ultraparadoxal”, no qual os reflexos condicionados e os padrões de comportamento se modificam do positivo para o negativo ou do negativo para o positivo.

Cães nervosos e homens nervosos

Desses estudos resultaram certas proposições científicas. Elas se aplicam a todos os estados de consciência alterada provocados por fadiga, experiências emocionais traumáticas e que afetam os nervos, drogas, falta de sono, indução hipnótica negativa ou uma combinação programada de todos esses fatores que se tornou conhecida em nossos dias como “lavagem cerebral”.

  1. Influências ambientais produzem reações à tensão normal alterando apenas alguns detalhes de comportamento. O padrão básico de temperamento não é alterado; tensões “anormais” forçam todos os seres a reações previsíveis.
    Pavlov notou que cães que mostravam reações de “ligeira inibição” podiam experimentar a “inibição transmarginal protetora” (um “colapso nervoso”, no caso de um ser humano) muito mais rapidamente do que os cães de outro tipo, mesmo com tensões muito mais leves.
    Já disse que os cães do tipo “fortemente excitáveis” requerem doses de sedativos cinco a oito vezes maior do que o necessário para cães de mesmo peso e do tipo “ligeiramente inibíveis”. É de conhecimento geral que os efeitos de drogas nos seres humanos variam amplamente, da mesma forma que as reações e quantidades normais e anormais de tensões. Quaisquer que sejam as modificações de comportamento devidas a diferentes fatores ambientais que possam ocorrer, o tipo nervoso básico do indivíduo não é, nem pode ser, modificado.
  2. A quantidade de tensões que pode ser tolerada por um ser humano ou por um cão de qualquer tipo nervoso depende também do estado físico da pessoa ou do animal.

A hipnose é uma ciência

Espero que essa discussão sobre o “transe” tenha lançado alguma luz sobre o assunto. Pelo menos, eu espero que tenha estabelecido o fato de que podemos falar mais apropriadamente sobre a hipnose numa terminologia científica. É um erro adotar termos metafísicos para descrever fenômenos que podem ser definidos e descritos adequadamente na linguagem comumente aceita pela ciência natural. Pois continuar falando sobre hipnose com figuras de linguagem obsoletas retardará o seu desenvolvimento científico no futuro e a sua aceitação no presente.


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Samej Spenser

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Brazilian; Hypnotherapist, Mental Reprogrammer, beer (and coffee) lover, podcaster and bearded. http://about.me/SamejSpenser

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