O último pedido de Andrews

John Andrews foi um dos mais influentes pioneiros adventistas, e o mais acadêmico durante seu período de vida. Escritor tão prolífico que, durante alguns anos, não havia um exemplar semanal da Review and Herald que não tivesse um artigo de sua autoria. Em um desses, ele concluiu que o início do sábado era ao pôr-do-sol, e não às 18h00 ou ao nascer o sol, como se pensava. Foi também ele quem lançou a base para o plano de "doações sistemáticas" que tanto beneficiaria a pregação do Evangelho, e o primeiro a identificar o segundo animal de Apocalipse 13 como os Estados Unidos. Ellen White diria ser ele "nosso obreiro mais capaz". Foi editor da Review, presidente da Associação Geral, o primeiro missionário a ser enviado para além da América do Norte, e a lista de títulos e aclamações continua… Tanto que hoje é a sua estátua, bem como seu nome, que identificam o mais renomado campus universitário adventista do mundo.

Estátua da família Andrews, no campus da Andrews University

Mas em 1883, longe dos holofotes e reconhecimento, ele se encontrava moribundo no leito de um quarto solitário, na distante Suíça, acometido de tuberculose. Após uma exaustiva, mas brilhante vida de serviço à igreja, pressentindo que logo seria chamado ao descanso, resolveu enviar uma carta ao seu cunhado Uriah Smith — na época editor da Review and Herald nos Estados Unidos:

No presente momento, em razão da minha enfermidade, sou levado a encarar a face da morte. Há uma coisa que me incomoda, a qual apresento-lhe através de um pedido. Caberá a você mencionar a minha morte na Review. Eu lhe imploro que faça a declaração mais simples e curta possível, e eu solenemente lhe conjuro a excluir qualquer palavra de elogio. Um terço de uma coluna será o suficiente para tudo o que precisa ser dito.
Faço esse pedido pois temo que a gentil consideração que você tem por mim o compelirá a dizer aquilo eu não mereço e o que não deveria ser dito. Minhas melhores ações tiveram em si traços de egoísmo ou então faltaram no amor a Deus e aos homens. Rogo-lhe, portanto, por todo o carinho que você ter por mim, que considere este meu sincero pedido'

Uma demonstração de modéstia e humildade assim causa estranhamento em muitos, hoje ambientados aos autógrafos e fanpages. Quando a regra é promover-se, multiplicar as curtidas, ter o nome em evidência, um pedido por anonimato chega a soar incompreensível. Mas, seria um engano pensar que seu desejo final foi respeitado.

Edição da Review and Herald de 30/out/1883, em que a morte de Andrews é mencionada logo abaixo do cabeçalho.

Logo após o recebimento do telegrama da Suíça informando seu falecimento, Uriah Smith escreveu que, de fato, sua estima por ele era grande, mas que seria "menos difícil" atender seu pedido em vista de que a ampla obra realizada por Andrews já era um testemunho de sua importância. Por fim, Smith dedicou uma coluna e meia da revista em memória ao amado pioneiro.