A trajetória intelectual de Marc Bloch

Por Robson Bertasso.

Escrever sobre a trajetória de uma pessoa não é tarefa fácil, ainda mais quando se trata de um cânone da historiografia francesa. Mais do que apenas o autor de Apologie pour l’histoire, Marc Bloch é o símbolo de uma renovação historiográfica, que teve seu alvorecer na década de 1920, e da luta contra o nazismo na segunda guerra mundial. Mas, para além do mito, quem foi Marc Bloch?

Nascido no dia 06 de julho de 1886, na cidade de Lyon, na França, Marc Bloch foi, desde cedo, incentivado a seguir uma vida de estudos, por influência de seu pai, Gustave Bloch, um historiador especialista em epigrafia, que tinha forte apego por questões relacionadas à história romana e uma grande admiração pelo trabalho de Fustel de Coulanges[1]. Realizou seus estudos secundários no liceu Louis-le-Grand, um dos mais prestigiados de Paris. No ano de 1904, ingressou na École Normale Supérieure, uma das principais instituições de pesquisa científica na França, que, além de Marc Bloch, tem em seu histórico a passagem de outros grandes intelectuais, como Émile Durkheim, François Simiand, Lucien Febvre, Michel Foucault e Pierre Bourdieu. Em 1907 Marc Bloch recebeu o diploma de História e Geografia, e, no ano seguinte, em 1908, foi aprovado no concurso d’Agregation d’Histoire et de Geographie,

“o concurso mais alto do ensino francês ao qual os professores do segundo grau podem tornar-se professores do ensino superior”[2].

Bloch teve uma formação de primeira qualidade, o que pode explicar o sucesso de sua carreira acadêmica.

Durante a década de 1910, ele atuou como professor em dois liceus: no Lycée de Montpellier e no Lycée de d’Amien, onde pronunciou a famosa aula Critique Historique et Critique du Témoignage (Crítica Histórica e Crítica do Testemunho), na qual mostrou que a interpretação de um documento histórico pode variar de historiador para historiador, de época para época. Em 1919, ficou encarregado do curso de História da Idade Média na Faculdade de Letras da Universidade de Estrasburgo.

Antes de lutar na primeira guerra mundial, Marc Bloch escreveu um esboço de sua tese de doutorado, que seria publicada no ano de 1920, com o título Rois et serfs: un chapitre d’histoire capétienne. Conforme Caroline Fink,

“em sua tese de doutorado, Bloch procurou estudar o desaparecimento do servo nas regiões rurais da Ilha de França, nos séculos XII e XIII. Seu método consistiu em investigar todos os arquivos senhoriais e eclesiásticos disponíveis; o seu objetivo era produzir a primeira análise sistemática dos aspectos sociais, econômicos e legais da libertação de servos em uma zona delimitada”[3].

Em 1924, Bloch publicou uma de suas principais obras: Os Reis Taumaturgos. Sua carreira acadêmica estava em ascensão, e foi neste ritmo que ele foi nomeado titular da cadeira de História da Idade Média da Universidade de Estrasburgo, em 1927, e fundou, juntamente com Lucien Febvre, a Revue Annales d’Histoire Économique e Sociale, sendo diretor até 1940, quando teve que sair por causa da expansão nazista.

Na década seguinte, Marc Bloch se tornou mestre de conferências de História Econômica na Universidade de Sorbonne, e também titular da cadeira de História Econômica da mesma universidade. Publicou, em 1931, a obra Les Caractères originaux de l’histoire rurale française, e, em 1939, o primeiro tomo de A Sociedade Feudal. Cada vez mais consolidado no cenário acadêmico, Bloch entrou na década de 1940 no auge de sua carreira. Entre os anos de 1941 e 1943 começou a redigir aquela que viria se tornar a sua obra mais conhecida, Apologia da História ou o Ofício do Historiador, entretanto, por conta da perseguição nazista, Bloch, que era judeu, não conseguiu terminá-la , e entrou na clandestinidade, aderindo ao movimento Franc-Tireur. Infelizmente, no dia 8 de março de 1944 Marc Bloch foi preso e torturado pela Gestapo, sendo assassinado em 16 de junho de 1944, na cidade Saint-Didier-de-Formans.

Marc Bloch morreu como um mártir. Embora seja passível de crítica, como qualquer obra, seu trabalho influenciou gerações de historiadores e, sem dúvida, continua influenciando até os dias atuais. Para terminar este breve texto, compartilho um trecho de sua obra Apologia da História:

“O passado é, por definição, um dado que nada mais modificará. Mas o conhecimento do passado é uma coisa em progresso, que incessantemente se transforma e aperfeiçoa”.

REFERÊNCIAS

BLOCH, Marc. Apologia da história ou O ofício de historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002.

DELACROIX, Christian; DOSSE, François; GARCIA, Patrick. Correntes históricas na França: séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Ed. da FGV, 2012.

DUBY, George. BLOCH, Marc (1886–1944). Encyclopædia Universalis. Disponível em: https://goo.gl/sz0btN

DURKHEIM, Émile. Evolução Pedagógica. Trad. Bruno Charles Mange. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

ÉCOLE NORMALE SUPERIEUR. Disponível em: https://goo.gl/7TBBUo

FINK, Caroline. Marc Bloch: une vie au service de l’histoire. Lyon: Pul, 1997.

MARC Bloch et L’Étrange Défaite - Repères chronologiques. Disponível em: https://goo.gl/OhHrW4

NOTAS

[1] Fustel de Coulanges foi um dos grandes nomes da historiografia francesa do século XIX. Sua principal obra, A Cidade Antiga, é editada até os dias atuais. Para conhecer mais sobre a sua trajetória, leia: HARTOG, François. O Século XIX e a História: o Caso Fustel de Coulanges. Rio de Janeiro: Ed UFRJ, 2002.

[2] DURKHEIM, Emile. Evolução Pedagógica. Trad. Bruno Charles Mange. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995, p. 3.

[3] Tradução livre do trecho: “Dans sa thèse de doctorat, Bloch cherche à étudier la disparition du servage dans les régions rurales de l’Île-de-France, aux XII° et XIII° siècles. Sa méthode est d’enquêter dans toutes les archives seigneuriales et ecclésiastiques disponibles; il espère produir la première analyse systématique des aspects sociaux, économiques et légaux de l’affranchissement dans une zone délimitée”. FINK, Caroline. Marc Bloch: une vie au service de l’histoire. Lyon: Pul, 1997. p. 42.

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