Alma de cangaceiro atemoriza ancião que recorre à polícia amedrontado

Pela primeira vez no Recife, um homem comparece à polícia para solicitar providências contra um fantasma. Esse fato ocorreu ontem, na Delegacia de Boa Viagem, e o queixoso é José Bernardo da Silva, um ancião de 76 anos, natural de Juazeiro e que reside num casebre, no Mata Sete, Boa Viagem.

Exatamente às 10 e 15 horas de ontem, um preto velho chegando à Delegacia do 7o Distrito Policial pediu para falar com o delegado José Américo. O comissário Paulo Moça tentou resolver o caso, porém o velho afirmava que era um caso muito sério que só poderia ser solucionado pelo delegado. Com essa argumentação foi conduzido ao gabinete do titular no 7o DP.

MEDO

Logo que entrou, José Bernardo tirou chapéu, fazendo um cumprimento à guisa do interior, pedindo em seguida para que as janelas e as portas fossem trancadas. Seu aspecto denotava medo e o delegado atendeu sua solicitação, pedindo em seguida para que ele relatasse seu problema. Ao receber a resposta, ficou sem saber o que fazer, pois naquele linguajar arrastado o velho disse: “Doutor, eu estou sendo perseguido pelo fantasma do homem que matei”.

VINGANÇA

José Bernardo não se fez de rogado e começou a dizer: “Em 1934, num dia de domingo, na cidade de Juazeiro, onde nasci, estava tomando uns tragos com uns amigos e comentando as façanhas de Lampião, quando apareceu um cabra lá do Ceará e começou a falar mal do capitão, alegando que só era macho cercado de cangaceiros. Ao ouvir isso o sangue me subiu à cabeça e auxiliado por três companheiros agredimos o estranho que facilmente nos derrotou sem usar armas. Quando me recuperei, estava com o rosto ensanguentado e um braço quebrado. Não me conformei e fui em casa buscar um trabuco e no mesmo dia matei o homem de tocaia. Ele antes de morrer jurou que ia me perseguir. Depois desse dia não tive mais paz. Fugi para não ser preso e me juntei aos cangaceiros, mas mesmo assim todas as noites o cabra me aparece e quer me levar. Não aguento mais e por isso vim pedir sua ajuda”, concluiu a estória.

EMBARAÇADO

Meio embaraçado por nada poder fazer pelo ancião, o delegado José Américo prometeu levá-lo a um psiquiatra. José Bernardo concordou com a decisão do delegado, porém solicitou que ele arranjasse uma bala de prata, salientando que com uma bala de prata mataria o fantasma do cabra valente.

(Diário de Pernambuco, 24 de maio de 1970)