Anticoncepcionais femininos sob a mira

A anticoncepção envolve um conjunto de métodos que pretendem evitar temporariamente a fecundação de um óvulo. Assim como as artes, essa prática é milenar. Tendo seus relatos desde a Antiguidade, onde sementes de cenoura selvagem e tampões eram utilizados para a prevenção, a contracepção é uma questão que sempre gerou interesse, mesmo que o conhecimento científico não fosse tão desenvolvido. As informações sobre o assunto eram passadas pelas famílias, de geração a geração, fomentando crenças e lendas sobre o nascimento das crianças.

Com o passar dos anos e o desenvolvimento da ciência, criou-se uma grande quantidade de opções de métodos contraceptivos — comprimidos, injetáveis, implantes, adesivos, entre outros. Conforme o Manual de planilha da Federação Nacional de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), os prós e contras dos métodos anticoncepcionais são vários. Dentre os mais populares, estão:

A pílula anticoncepcional feminina

Apesar do enorme desenvolvimento da ciência, a desinformação ainda prevalece. Em 1960, um medicamento que advertia “causar suspensão temporária da fertilidade” foi lançado nos Estados Unidos. Em pouco tempo, o remédio começou a ser utilizado pelas mulheres que buscavam independência sobre sua capacidade de conceber. A pílula anticoncepcional foi fundamental na emancipação feminina e na revolução sexual. No entanto, seus riscos sempre foram questionados.

Em pesquisa realizada pela reportagem com 3.053 pessoas, foi constatado que a pílula anticoncepcional é o segundo método contraceptivo mais popular (43,6%), ficando atrás apenas do preservativo (63,1%). Os ovários são os principais produtores de hormônios femininos. Desta forma, o anticoncepcional age como uma bomba sintética de estrogênio e progestogênio que impedem a produção de hormônios naturais, já que inibe os ovários.

De acordo com o Manual Prático de Ginecologia e Obstetrícia da Federação Nacional de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), aumento de peso, pelos, dores mamárias e queda da libido são alguns efeitos colaterais da pílula anticoncepcional. Entretanto, a proliferação de cistos, o desenvolvimento de nódulos pelo corpo, acidente vascular cerebral (AVC) e trombose, são alguns dos riscos mais graves — informação que muitas pacientes não têm de seus médicos. Em uma pesquisa realizada pela Organização Pan-Americana de Saúde, 10% das reações adversas ao uso do anticoncepcional são notificadas às autoridades competentes, enquanto apenas 5% dos médicos notificam. Atualmente, a Febrasgo estima que mais de 100 milhões de mulheres tomem a pílula anticoncepcional diariamente em todo o mundo.

A pesquisa realizada pela reportagem constatou a popularidade de alguns anticoncepcionais, como Yazi, Diane 35, Iumi e Null. Lubianca indica que esses medicamentos são compostos principalmente por dois tipos de hormônios sintéticos: estrogênio e androgênio. O estrogênio é responsável pelas características femininas, como controle do ciclo menstrual, enquanto o androgênio (hormônio esteroide) regula características masculinas, como desenvolvimento de pêlos, oleosidade da pele e libido. A quantidade e os tipos dos hormônios variam entre as pílulas. “Os anticoncepcionais mais recentes têm efeitos anti-androgênicos (diminuição de características masculinas) mais importantes, mas isso não o torna mais seguro”, ressalta Lubianca.

Em agosto de 2016, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou em seu site oficial um informativo sobre o uso de pílulas anticoncepcionais. De acordo com a entidade, “mulheres que utilizam contraceptivos contendo drospirenona, gestodeno ou desogestrel têm um risco de 4 a 6 vezes maior de desenvolver tromboembolismo venoso, em 01 ano, do que as mulheres que não usam contraceptivos hormonais combinados”. Também destacam o fato do risco de se desenvolver trombose ser pequeno e que, mesmo assim, “os benefícios dos anticoncepcionais na prevenção da gravidez continuam a superar seus riscos”. No Brasil, a Anvisa é a responsável pelo monitoramento sobre os benefícios e os riscos do uso de anticoncepcionais, assim como sua relação ao risco de trombose venosa profunda.

Quais critérios são considerados na hora do médico indicar a pílula anticoncepcional?

A anamnese consiste em uma entrevista realizada pelo profissional de saúde ao seu paciente com o objetivo de diagnosticar uma doença ou indicar o uso de medicamentos que não precisam de receita médica. Identificação do paciente, queixas expressadas, histórico médico pregresso (HMP), histórico familiar (HF) e interrogatório sintomatológico são etapas da anamnese, indicadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Além disso, a Organização também recomenda aos profissionais a medição da pressão e atenção ao risco genético de desenvolvimento de trombofilia da paciente.

Jaqueline Neves Lubianca, professora responsável pelo estudo dos anticoncepcionais no Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explica que não há a necessidade de realização de exames para a indicação de um anticoncepcional. “É muito pequena a incidência dessa mutação, além do exame ser caro”, defende.

A Trombose Venosa Profunda (TVP) consiste na formação de um coágulo sanguíneo em uma ou mais veias. Esse coágulo bloqueia o fluxo de sangue e, quando se desprende e se movimenta na corrente sanguínea, transforma-se em um processo chamado de embolia. A embolia pode ficar presa nos pulmões, no coração ou, em casos mais graves, no cérebro.

A polêmica do anticoncepcional masculino

Recentemente, o periódico científico Endocrine Society’s Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism publicou uma pesquisa na qual uma injeção hormonal foi aplicada em mais de 300 homens. O estudo foi financiado pela Organização Mundial de Saúde e pela CONRAD (em Inglês “Pesquisa e Desenvolvimento de Contraceptivos”). Conforme o resultado divulgado no periódico, esse método contraceptivo foi efetivo para 96% dos participantes que mantiveram-se até o final do estudo e fizeram uso contínuo. Os dados mostram que o medicamento reduziu em 24 semanas de uso o número de espermatozoides de 274 dos voluntários. No entanto, o teste foi interrompido devido aos efeitos colaterais que o medicamento causou aos homens — os mesmos efeitos que as mulheres sofrem há quase 60 anos. Cerca de 75% dos participantes da pesquisa publicada no periódico científico afirmaram que usariam a injeção hormonal. Em pesquisa feita pela reportagem, apenas 55% dos homens entrevistados fariam uso desse método contraceptivo.

Lubianca avalia que o anticoncepcional masculino não prosperou por diversos fatores, mas, principalmente, segundo ela, “por serem caros, pouco eficazes e não terem aceitação do público masculino”. “O anticoncepcional feminino inibe a ovulação na mulher, que ocorre mensalmente, enquanto o masculino inibe a produção diária de milhões de espermatozóides”, complementa. Lubianca também aponta que a revolução sexual que aconteceu em 1960 foi o começo de tudo: “é a partir daí que a indústria farmacêutica investe massivamente em pesquisas voltadas aos anticoncepcionais femininos”.

A produção hormonal em homens e métodos contraceptivos

A testosterona é o hormônio sexual masculino, responsável pelo fenótipo masculino e a libido, além de auxiliar na ereção e manutenção da massa corpórea. A “bomba hormonal” sintética masculina — também conhecido como anabolizante — ajuda no desenvolvimento da massa óssea e muscular. Também aumenta a libido e pode melhorar um pouco a ereção em alguns casos. “Entretanto, para pacientes que já apresentavam níveis hormonais normais, estas substâncias levam a um excesso de hormônios que produzem alterações como hipertensão arterial, aumento do risco de doenças cardiovasculares, morte súbita, acne, alopécia, dentre outras”, aponta Alexandre Fornari, vice presidente da Sociedade Brasileira de Urologia — Seccional RS. Além disso, a longo prazo, Fornari destaca que o uso de anabolizantes leva a outros riscos, sendo estes irreversíveis: testículos atrofiados, infertilidade e deficiência hormonal.

Os preservativos, tanto feminino quanto masculino, são os únicos métodos contraceptivos que protegem contra doenças sexualmente transmissíveis. Já em 2000, um relatório publicado concluiu que, quando utilizado de maneira correta, o preservativo de látex reduz o risco de transmissão de HIV/AIDS cerca de 85% e apresenta uma eficácia de 98% contra a gravidez. “A camisinha é um método contraceptivo temporário, reversível e de barreira. Como toda a barreira, pode ser transposta, portanto sua eficácia não é 100%”, destaca Fornari.

Para Fornari, os hormônios injetáveis masculino como método de contracepção apresenta uma série de problemas. Ele indica que pacientes que tinham níveis hormonais normais, ficaram com o nível acima do normal depois do uso contínuo do anticoncepcional. “Além do risco de ocorrer um certo grau de atrofia testicular pelo uso de hormônios, que pode ser irreversível. Portanto, isso é extremamente perigoso, visto que quando o homem quiser vir a ter filhos, pode ser que não consiga”, conclui.

Questão social?

O debate envolvendo o anticoncepcional masculino trouxe à tona uma questão que, até então, passava despercebida para algumas pessoas (galeria de depoimentos): seria o reflexo de uma sociedade machista o fato de os incentivos às pesquisas de métodos contraceptivos serem destinado principalmente às mulheres?

Em entrevista à CNN, canal de notícias norte-americano, Elisabeth Lloyd, professora da Universidade de Indiana, apontou que entre 20% e 30% das mulheres que tomam pílulas anticoncepcionais sofrem de depressão e têm que tomar medicação para isso. “Esse estudo foi interrompido após apenas 3% dos homens relatarem sintomas do problema. É chocante. […] Os riscos de dano à fertilidade não são fatais como os que as mulheres encaram com seus métodos de controle de natalidade”. Lloyd não tinha envolvimento com as pesquisas do estudo. Os efeitos colaterais relatados pelos participantes foram: dor no local da injeção, dor muscular, aumento da libido, depressão, alterações de humor e acne. Conquanto, segundo os pesquisadores, quase 39% destes sintomas não tinham relação com o uso do medicamento.

Para 78,8% das pessoas, a explicação para essa situação é a sociedade machista, conforme pesquisa realizada pela reportagem. Já para 41,8%, a indústria farmacêutica não vê nos homens um mercado em potencial — sendo também um reflexo do machismo. Para 27,5%, os métodos contraceptivos são destinados às mulheres em grande escala, pois são elas que geram a criança. E, por fim, 2,9% acreditam que o corpo feminino é mais suscetível ao uso de medicamentos.

Para ilustrar esses dados, foram coletados depoimentos anônimos dos participantes da pesquisa realizada pela reportagem. Abaixo, você confere opiniões e pontos de vistas sobre o assunto: