A malandragem do jeitinho brasileiro

Irregularidades, desvios de conduta e pequenas corrupções são cometidas o tempo inteiro

Todo dia de manhã, André estende seus papelões e senta-se em frente à lotérica Loro da Sorte, localizada no centro do município de Canoas, região metropolitana de Porto Alegre. Com seus cabelos desgrenhados, barba por fazer, roupa aparentemente velha, ele contorce suas pernas de forma a simular existir alguma deficiência que o impeça de se levantar. Com a mão estendida formando uma concha, uma mochila ao lado e a face com a expressão de alguém que necessita muito de ajuda, André implora por dinheiro.

Sempre que passava por ali e via André, Gorete carregava um sentimento de pesar e remorso. Por muitas vezes, questionou-se do Deus e da fé que ela possui, reclamou da vida que tem; do serviço; da falta de dinheiro para auxiliar a filha na faculdade — e o menino ali tentando conseguir algo para comer. Sempre que lhe sobrava umas moedinhas e ela via o moço, prontamente as largava na palma de sua mão.

Este sentimento e suas contribuições tiveram fim no dia em que ela se dirigia correndo para a lotérica, onde precisava pagar sua conta de luz vencida. Naquele momento, avistou André em pé, arrumando seus papelões para ir embora. Todas as vezes que passava por ali e o via, seus olhos procuravam pelas muletas que ela imaginava existir. Nunca as viu e a dúvida de como ele fazia para chegar até a lotérica sempre existiu. Gorete só não imaginava que era da forma mais simples: caminhando com suas próprias pernas.

Talvez André ainda não tenha se dado conta, mas ele possui um grande talento como ator. André a enganou e, assim como ele, as pessoas enganam e são enganadas diariamente, cometendo pequenas corrupções. Vai dizer que você nunca furou uma fila? E o troco errado que não foi devolvido? E a roupa falsificada que você não poderia deixar de ter para manter as aparências? E quem nunca comprou o CD falsificado, daquele grupo maneiro, que na loja custa bem mais caro?

O Brasil está passando por um momento muito delicado no cenário politico, devido a um conjunto de grandes corrupções. Ao mesmo tempo em que milhares de pessoas saem às ruas pedindo por um país mais ético, muitos brasileiros não conseguem se desvencilhar de seus desvios de conduta e, pior, achamos normal esse tipo de atitude.

João Vicente, 23 anos é eletrotécnico em uma empresa de Porto Alegre. Em sua conta, todos os dias, a empresa deposita uma quantia no valor de R$ 28,00, à qual seu destino seria para o pagamento de seus almoços. Seria, se João obedecesse as normas e utilizasse da forma correta. Dos R$ 28,00, ele utiliza apenas R$ 5,00 para sua refeição, embolsando os outros R$23,00.

Quando João confessou seu desvio de conduta, estava em uma roda com quatro amigos em frente à Igreja que frequenta em Canoas. Ao terminar a confissão, sua expressão era de medo do julgamento que viria dos amigos — irmãos. Os olhos pareciam que iriam entrar para dentro da cabeça de tão apertados que estavam, os ombros levantados e as mãos juntas e fechadas; aguardava o esporro que certamente estava por vir. Para a surpresa de João, os amigos não expressaram nenhuma reação de espanto pela sua atitude, bem pelo contrário, os meninos reagiram de forma natural. Dando de ombros, Pedro, um de seus amigos, tratou logo de tirar o “peso” de culpa, que João carregava. “Cara, relaxa! Isso é uma das coisas mais normais de se fazer”.

Para o mestre em filosofia e professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Clóvis Vitor Gedrat, essas atitudes de irregularidades e corrupções não podem ser consideradas “normais”. “Se dissermos isso, estaremos afirmando que corrupção é o normal de nossa sociedade. Não posso concordar com isso, pois temos uma ótima Constituição Federal e leis muito bem redigidas. A dificuldade está na prática, pois a aplicação das leis exige que o Estado tenha condições de aplicá — las.”

André, nas suas poucas horas de “trabalho” como pedinte, fatura entre R$30,00 e R$40,00 por dia. Considerando cinco dias da semana, ele lucra em média R$ 800,00 por mês. Quando questionado, se achava certo ou errado beneficiar-se de uma deficiência inexistente para ganhar dinheiro, André sorriu e com sua tremenda “cara de pau”, afirmou que acha correto porque não possui outro emprego. “Não tenho mãe nem pai,sou sozinho.Tenho que me virar porque a crise está ai e arrumar um emprego está bem difícil”, desabafou. Nem mesmo a moça, que vende título de capitalização ao lado da lotérica e, certamente, ganha um salário bem inferior ao de André, conteve a gargalhada.

Segundo Clóvis, essas ilegalidades estão relacionadas à moral, que nada mais é que a prática na vida do que temos como teorias éticas. Indo um pouco mais além, o professor ressalta: “Assim, é verdade que em algum momento a pessoa praticou uma irregularidade ou corrupção, pois irregularidade e corrupção, aqui são sinônimos. Mas a palavra “corrupção” é definida como um afastamento das normas estabelecidas,assim, dar uma “gorjeta”, por exemplo, precisa ser reconhecido como uma atitude “corrupta””, diferenciou o especialista.

As atitudes de André estão mais associadas à moral e ética do que à ilegalidade, visto que a mendigagem deixou de ser considerado crime depois de ser revogado pela lei nº 11.983 em 2009. Para outras atitudes viciosas, como a de João, por espécime, aqui no Brasil, existe a lei nº 3.688 de outubro de 1941 — Lei das contravenções penais para crimes menores, no qual a pena varia de três meses à quatro anos de prisão, podendo ser revertida em trabalhos voluntários ou pagamento de multas.

Algumas pessoas utilizam-se de direitos de terceiros para se beneficiar. É o caso da estudante Fernanda Magalhães, 25 anos. Ela relatou que usa, diariamente, o cartão de idosos de sua avó para pagar as passagens do transporte que utiliza até a universidade.

“Quando minha avó fez 60 anos, pedi que fizesse o cartão do idoso que isenta passagens para mulheres acima de 60 anos. Ela fez e hoje eu uso no metrô como se fosse ela”. Ao lhe questionar sobre sua atitude, a estudante mostrou-se despreocupada. “Gasto, diariamente, R$ 20,00 só em transporte, que por sinal é de péssima qualidade. Não acho justo pagar por um serviço público horrível”.

Fernanda parece já prever o fim da sua farsa. “Caso alguém descubra a minha ideia, interpretarei a cena mais convincente já vista em qualquer teatro do Brasil: Vovó esqueceu seu cartão comigo” .

Ironicamente, Fernanda é estudante do 5º semestre do curso de Direito.

A sociedade nos impõem esteriótipos a todo momento. Muitas vezes, essas práticas, fazem com que o indivíduo seja incluído neste mundo como “esperto”, caso contrário, ele será trapaceado e taxado como “trouxa”.

Para a Psicóloga e Técnica Superior Penitenciária, Rita Leonardi, esses atos estão enraizados na nova cultura. “Na nossa sociedade estamos sempre tentando ter uma vantagem e acabamos, muitas vezes, burlando muitas regras sociais. São coisas pequenas como furar uma fila, sentar no lugar destinado ao idoso, entre outros.”

Às vezes, por falta de informação, as pessoas cometem irregularidades e corrupções sem nem se dar conta. Essas ações são tão corriqueiras, que na maioria das vezes elas não param para pensar o tamanho da gravidade de certos atos.

“Certo dia, ganhei R$100,00 da minha mãe para comprar um ingresso de um festival de música, que acontece todos os anos na praia. No ato da compra, por um engano, a mulher do caixa devolveu-me R$50,00 a mais do que efetivamente deveria. Voltei para casa toda faceira e me sentindo a pessoa mais esperta do mundo com apenas 14 anos. Naquele dia, levei uma das piores broncas da minha vida e fui obrigada a voltar lá, para fazer a devolução do dinheiro.”

Em 2013, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o instituto Vox Populi, que realiza pesquisas de opiniões e mercado em todo o Brasil, revelaram que 23% dos brasileiros, não consideram um ato corrupto, por exemplo, subornar o fiscal de trânsito para não ser multado, ou até mesmo, um policial para evitar uma prisão.

Conforme Rita, esse padrão de comportamento está mais associado com pessoas que têm problemas com a lei, além de, na maioria das vezes, possuir um histórico ainda na infância. “No meio em que eu trabalho, na área criminal, ao investigar a história de vida das pessoas privadas de liberdade, torna-se bem evidente a falta de limites e pequenos atos de corrupção desde a infância, não que seja uma regra que as pessoas que boicotam as leis ou comentem irregularidades, afim de obter vantagens, serão futuras infratoras ou criminosas, mas uma boa parte”.

As pessoas que trabalham em torno do ponto onde André fica, estão tão acostumados com sua presença que até esquecem da atitude do “colega”. “Ratinho é gente boa, fica ali pedindo um dinheirinho, não atrapalha ninguém”, comentou a vendedora. Ratinho é o apelido carinhoso, o qual referem-se a ele.

Conhecido até mesmo pelos policiais, André diz não se importar com que os outros pensam “Se tu acha errado isso que eu faço, pode ficar brava comigo, eu preciso fazer”.

Como nem tudo é ruim, existem pessoas que lutam para reverter essa situação, ainda acreditando numa sociedade mais justa.

Pensando na conscientização da população, em 2013, a Controladoria Geral da União (CGU) criou a campanha “Pequenas Corrupções — diga não “ com o intuito de informar os cidadãos da importância de combater essas atitudes antiéticas e até ilegais.

As imagens que trazem pequenas reflexões sobre nossos atos no dia- dia, viralizou e passou da marca de 10 milhões de visualizações. Para quem quiser contribuir com a campanha, as imagens são de livre acesso e estão disponíveis no site da Controladoria.

Andrés, Joãos, Fernandas, Marias, e por aí vai. Quantas pessoas enganando e sendo enganadas com o intuito de sempre levar vantagem. A famosa “lei do Gérson” que se originou de uma propaganda de cigarro, nos anos 70, retratava o ex jogador de futebol Gérson, levando vantagens em tudo. A propaganda tomou proporções negativas e foi usada para expressar traços da sociedade associados a disseminação da corrupção e o desacatamento a ética.

Infelizmente, a cultura ao longos destes anos , reforçam a divisão da sociedade em dois papéis protagonistas: ser malandro ou ser mané. A malandragem é exaltada como uma virtude de inteligência; agir dentro dos princípios éticos é atestado de burrice, é ser mané. Já dizia o famoso cantor pernambucano, Bezerra da Silva. ”Malandro é o cara que tá com dinheiro e não se compara com um Zé mané, malandro de fato é um cara maneiro. Já o Mané tem sua meta, não pode ver nada que ele cagueta. Malandro é malandro e mané é mané, pode crer que é”.

Será que não está na hora de repensarmos nossos conceitos, ou seremos sempre os malandros e manés ?