Mais uma janela para o jornalismo

Quando começamos a projetar o que seria o BRIO, havia algo em torno do qual todos nós envolvidos concordávamos sem pestanejar: precisávamos ser independentes, termos a nossa própria plataforma. Com isso, tornar o projeto algo sustentável seria um pulo.

Nos baseamos em um modelo nascente que, de maneira otimista (depois percebemos que mais otimistas até que os próprios), enxergávamos como exemplo a ser seguido no mundo do jornalismo digital: o The Atavist.

Para quem não sabe, trata-se de um site americano focado na publicação de histórias multimídias em longo formato. Em paralelo, eles desenvolveram um sistema publicador próprio, o Creatavist, que poderia ser disponibilizado para qualquer pessoa ou publicação, mediante pagamento.

Era a potencial viabilização do jornalismo independente em sua plenitude: uma estação virtual de alta qualidade técnica onde qualquer um poderia publicar suas histórias, ajudando a financiar a produção de jornalismo de qualidade por meio de um braço tecnológico.

Isso ocorria nos Estados Unidos. As histórias, no entanto, eram frias. Interessantes, com apetrechos tecnológicos que chamavam a atenção, mas sem alma, sem contato com o mundo real. Era mais “histórias de não ficção”, menos reportagem.

O BRIO queria ser, grosso modo, o The Atavist brasileiro e, na sequência, ultrapassá-los em escala global, unindo as histórias em longo formato ao conceito de relevância — além de formar uma rede poderosa de jornalistas, fotógrafos, videomakers e ilustradores.

Muito bom, ousado e tudo o mais. Mas já temos de admitir que não conseguimos.


Com quatro meses de vida, depois de dois anos de gestação mais do que atrasada, angustiante ao extremo para todos nós envolvidos, percebemos, antes tarde do que nunca, o óbvio ululante: iniciativas jornalísticas devem focar no processo de contar histórias, da melhor forma possível, alcançando o máximo da potencialidade de seu público. A partir disso, o resto é consequência.

Tecnologia deve ser algo a parte. O BRIO, porém, ficou refém de códigos, testes, especificações, buffers de segurança, assets e outros termos que nada têm a ver com o jornalismo.

Em termos de tecnologia, a montanha que pretendia criar uma rede para colocar em contato direto produtores de conteúdo de todo o mundo, disponibilizar de maneira livre um sistema de autopublicação, integrado com um protocolo de curadoria jornalística avançado, bom… a montanha pariu um rato.

Para que fôssemos o que gostaríamos de ter sido, precisaríamos de muito mais desenvolvedores, a um custo muito maior e, portanto, talvez inimaginável para um grupo de cinco idealistas que um dia vislumbrou criar algo que não existe.

Um outro motivo: não conseguimos validar, nesses primeiros meses de operação, o modelo de negócios de venda de reportagens. Não chegamos sequer a testá-lo efetivamente, mas os números iniciais de acesso não indicavam horizontes brilhantes nesse sentido.

Seguimos agora na busca por construir uma audiência relevante. Uma das estratégias para isso é não cobrar nada por acesso. Nossas histórias são totalmente gratuitas, sem pegadinhas, necessidade de cadastro obrigatório ou inserção de códigos alfanuméricos. Clicou, leu. Os autores receberão valores fechados pelas produções. Um dia, quem sabe, se nos sentirmos seguros para isso em termos técnicos e de público, poderemos voltar a um modelo pago.

Por ora, seguiremos no mesmo modelo de financiamento que já havíamos explicado anteriormente. Mas estamos abertos a outras possibilidades que eventualmente surjam.


Você deve estar com pena da gente e lamentando pelas inovações do jornalismo neste momento. Não faça isso. Sem nada de hipocrisia, foi a melhor coisa que poderia ter acontecido conosco. E o fato de você estar lendo este texto no Medium não é por acaso.

O Medium é, elevado a uma potência muito, mas muito mais alta, aquilo que o Brio gostaria de ter sido (com a diferença de que nós focamos no jornalismo). E é de graça.

Decidimos, pelos motivos expostos, abandonar todos os nossos esforços de tecnologia. Nosso site lançado há quatro meses acaba de ser derrubado por nós mesmos.

Ficará numa gaveta, esperando um momento, que pode talvez nunca chegar, onde faça sentido termos um site próprio, com diversas funcionalidades. Viveremos com uma home page bacana, mas como mera porta de entrada personalizada, como reforço da marca, para o conteúdo que estará abrigado aqui, no nosso novo canal (pedimos desde já um follow camarada…).

Uma das ilustrações criadas por Pedro Matallo para a nova reportagem do BRIO, “Sobre a Sede”: mudanças formais, com jornalismo sempre mirando para cima.

Neste momento, optamos por apostar nessa parceria, mirando sempre para cima a qualidade de forma e de conteúdo das reportagens exclusivas que seguiremos produzindo. O que podemos dizer para quem conseguiu ler alguma reportagem pelo site do BRIO é que estamos iniciando uma fase muito melhor agora, com um sistema confiável, testado e com as mesmas funcionalidades (e outras tantas) que usávamos no nosso sistema para construirmos nossas histórias.

Nessa nova fase do BRIO, o orçamento do jornalismo segue intocado, com o caminho aberto para crescer ainda mais. Mais que isso, o foco da empresa será apenas este: entregar ao leitor histórias de alta qualidade, com relevância e bem editadas, valorizando o trabalho do autor, e que possam, eventualmente, se desdobrar em outros produtos, como séries de TV, podcasts e até mesmo filmes.

Nossa primeira história nessa nova fase já mostra essa potencialidade. Sobre a Sede é uma reportagem magistral, publicada em sete atos. Os dois primeiros foram publicados ontem (27/09) como destaque de capa do caderno Aliás, do Estadão. Ao mesmo tempo, o BRIO já trazia, além dos dois, o terceiro ato. Pode conferir aqui. Hoje, à meia-noite, divulgaremos o quarto capítulo.

Foi a primeira parceria do BRIO com um grande jornal. Queremos buscar mais parcerias como essa, seja com outros jornais, seja com sites de mídia independente, seja com produtoras.


Agradecemos desde já a sua companhia nessa nova etapa de nossa caminhada por um jornalismo livre, de qualidade e relevante. Se puder, compartilhe este texto com quem você sabe que gosta de ler.

Um abraço e até a próxima baita história,

Breno Costa, editor-executivo do BRIO.