Belo Monte, o que fizeram de nós?

O barramento do Rio Xingu completa um ano e, durante a terceira Canoada Bye Bye Xingu, indígenas e ribeirinhos relatam os impactos da obra na região da Volta Grande

A cheia permaente no reservatório artificial mata gradativamente a flora das ilhas. Raimunda Gomes passa pelo sítio PImental. Crédito: Isabel Harari/ISA

O que está acontecendo na Volta Grande

Trecho de aproximadamente 100 km na margem esquerda do Xingu, essa curva de rio banha duas Terras Indígenas, Arara da Volta Grande e Paquiçamba. É ainda a casa de centenas de famílias ribeirinhas que dependem do rio para viver. Desde o início das obras da usina, a região e seus habitantes enfrentam intensas transformações, e a partir de novembro de 2015, com o barramento definitivo do rio, os impactos começaram a ser fortemente sentidos.

Ilhas queimadas e desmatadas foram parcialmente submersas pelo lago artificial, próximo ao Sítio Pimental. Crédito: Isabel Harari

Sem rio e sem peixe

A pesca é a principal atividade para a subsistência dos Juruna, conforme Atlas dos Impactos da UHE Belo Monte sobre a pesca. Segundo dados dos dois anos inciais do monitoramento independente dos Juruna, da produção total de 4.469 kg de pescado, 98% é para alimentação e 2% para comercialização. Em síntese, do recurso alimentar consumido, o peixe representa 55% das refeições.

Navegação fica difícil em trechos do rio por conta da diminuição da vazão da água. Crédito: Isabel Harari/ISA

Pesca comprometida

Desde a implementação da hidrelétrica, os indígenas da aldeia Miratu contam que importantes pontos de pesca foram extintos ou comprometidos com o início da construção de Belo Monte e que os peixes estão morrendo ou doentes. Em 2013, a Associação Indígena Yudjá Miratu da Volta Grande do Xingu (Aymix), em parceria com o ISA e a Universidade Federal do Pará (UFPA), passou a fazer um monitoramento independente na região. O estudo é realizado pelos pesquisadores indígenas e envolve um levantamento mensal sobre as dinâmicas da pesca e consumo alimentar das famílias da aldeia. Esses dados são importantes para desenhar a linha base para comparar a situação antes do barramento com as transformações que irão ocorrer.

Acari, peixe muito comum na região, cego e com parasitas. Crédito: Torkjell Leira
A segurança alimentar dos Juruna corre risco com a diminuição e adoecimento dos peixes, sua principal fonte de alimentação. Crédito: Marcelo Salazar/ISA

16 toneladas de peixes mortos

Depois de desviar definitivamente o Rio Xingu e realizar o primeiro teste de geração de energia da hidrelétrica de Belo Monte (PA), a empresa concessionária Norte Energia foi responsabilizada pela morte de 16 toneladas de peixes em um espaço de três meses — entre novembro de 2015 e fevereiro deste ano. O Ibama aplicou uma multa de R$ 35,3 milhões, a maior desde a implantação da usina, pois constatou que a morte dos peixes foi causada por problemas na operação dos vertedouros do Sítio Pimental e do Canal de Derivação, que provocaram “turbilhonamento excessivo da água”.

Pragas

Ribeirinhos e indígenas relatam que a quantidade de carapanãs, como eles chamam o mosquito, aumentou vertiginosamente desde a instalação da usina. Com isso, seus hábitos — pesca, coleta de produtos florestais, roça — ficam comprometidos pois os insetos impossibilitam que essas atividades sejam realizadas tranquilamente.

Bel Juruna, liderança da aldeia Myratu, Terra Indígena Paquiçamba, se preocupa em passar os conhecimentos de seu povo para os mais juvens. Buscando fortalecer sua cultura, os Juruna, ou Yudja, convidaram seus parentes que vivem no Parque Indígena do Xingu para um intecâmbio cultural. Na foto, Bel ao lado de Padi Yudja. Crédito: Marcelo Salazar
Mecanismo de transposição dos barcos. Funcionários da Norte Energia filmaram durante todo a passagem. Crédito: Roberta Simonetti e Isabel Harari/ISA.

Falta de diálogo

A condicionante 2.22 da Licença de Instalação da obra, obrigava a Norte Energia a discutir, um ano antes de fechar o rio, as propostas de monitoramento, mitigação e compensação dos impactos durante a fase de testes junto às comunidades afetadas, tanto indígenas como ribeirinhas. Até o momento, entretanto, o empreendedor apresentou essas informações apenas ao Ibama, órgão licenciador, e as comunidades indígenas e ribeirinhas seguem alijadas do processo de monitoramento e da definição de medidas de mitigação e compensação.

Canoada

Uma das cinco canoas que percorreram a Volta Grande do Xingu. Crédito: Marcelo Salazar/ISA
Participantes se preparam para iniciar o percurso. Jardiel, da aldeia Muratu, foi um dos guias da atividade. Crédito: Roberta Simonetti, Isabel Harari/ISA e Márcio Selligman

Consenso pra quem? A briga pela água

O Rio Xingu, em época de chuvas, chegava a ter médias históricas de mais de 20 mil m3 por segundo de água passando em seu leito. Após Belo Monte, a Volta Grande não contará com mais do que 8000 m3/s Como o pulso de enchente e vazante será profundamente alterado, o nível da água não será suficiente para manter a nutrição das ilhas, nem para que a fauna aquática tenha acesso às áreas inundáveis, prejudicando sua reprodução e, por consequência, os modos de vida das populações que dependem do rio para viver.

A luta continua

Crianças Juruna da aldeias Miratu dependem do rio para viver. Crédito: Márcio Selligman.

A gente precisa lutar pra minimizar esses impactos e pra que eles [Norte Energia] nos digam o que vai ser da gente”, alerta Gilliard. Natanael faz coro: “Pra nós essa luta não vai acabar tão cedo. A luta pode ter acabado pras construtoras, mas pra nós não”.

Raimunda Gomes da Silva foi uma das pessoas removidas compulsoriamente de suas casas, nas ilhas da Volta Grande do Xingu. Ela e seu marido, seu João, tiravam sua subsistência da pesca e dos produtos da roça em suas comunidades. Em agosto de 2015 sua casa foi queimada e a ilha, assim como outras na região, foi parcialmente alagada pelo reservatório artificial construído para a geração de energia de Belo Monte.

Moradores das ilhas foram removidos para dar lugar ao reservatório artificial. Crédito: Roberta Simonetti.

Mineradora é nova ameaça para a Volta Grande

A maior mina de exploração de ouro a céu aberto no Brasil pode ser instalada ao lado de Belo Monte, agravando ainda mais a situação no Xingu. Belo Sun, empresa canadense responsável pelo projeto “Volta Grande”, vem realizando pesquisas na região desde 2008 com a intenção de explorar recursos minerários. Ainda não há previsão para o início da instalação da mina, embora o projeto já possua uma Licença Prévia emitida pela Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará.

As corredeiras que caracterizam o rio Xingu estão ameaçadas com a diminuição da vazão da água. Crédito: Isabel Harari/ISA
Cachoeira na região do Jericoá em 2016 e 2015. Crédito: Roberta Simonetti e Andriana Mattoso.
A navegação fica cada vez mais difícil. Crédito: Isabel Harari/ISA e Roberta Simonetti.
Árvores das ilhas não conseguem sobreviver com a cheia permanente. Crédito: Roberta Simonetti.
Canoada passou pelo Sítio Pimental. Crédito: Roberta Simonetti
A 3a canoada Bye Bye Xingu contou com cerca de 30 pessoas que remaram 112 km da Volta Grande do Xingu. Crédito: Aldo Oviedo.
Os participantes acompanharam de perto as mudanças no rio e nos modos de vida das populações que dele vivem. Crédito: Aldo Oviedo.

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