Incerteza viva e a arte da gestão

Mauricio Bueno

A 32ª Bienal de São Paulo, inspirada pelos desafios da nossa era, se propõe a observar as faces da incerteza e as estratégias oferecidas pela arte contemporânea. Com o título “Incerteza Viva” (Live Uncertainty), a exposição tem como tema uma reflexão sobre as atuais condições da vida em tempos de mudança contínua. Com o conceito provocativo e paradoxal — o desafio de “medir incertezas”.

Do lado da gestão, qualquer semelhança não é mera coincidência. Frutos dos mesmos dilemas e paradoxos, e em tempos de VUCA — Volatility, Uncertainty, Complexity e Ambiguity (Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade), os desafios das organizações também geram uma reflexão na forma de trabalhar e conduzir negócios.

Sócrates, pai do humanismo, ensinou sob a tríade grega (arte, técnica e fé) na qual a arte e a técnica eram uma só. Mas, exatamente para evitar a incerteza, a humanidade foi perdendo seu humanismo e passou a separá-las. O pensamento mecanicista e burocrático, descasou a arte e a técnica e conseguiu ter sucesso durante muito tempo. Hoje, com desafios extremamente complexos e um ambiente muito mais incerto, é preciso esquecer a visão dicotômica e juntá-las novamente.

Nesse mundo em que não é mais possível ter verdades absolutas, e que está mais aberto a novas abordagens, arranjos criativos e inovadores, a arte pode ser uma grande fonte de inspiração. Viver a “Incerteza Viva” como propõe a Bienal tem a ver com trazer o estranho para o familiar. Na gestão, assim como propõe a arte, é só assumindo, abarcando e admirando o diferente, e o inusitado, que seremos capazes de responder as adversidades do ambiente e gerar inovação.

Ágora: OcaTaperaTerreiro (2016) — Bené Fonteles — O título e a obra carregam o desejo de interligar vários tempos e conhecimentos, tendo o terreiro como referência a um espaço de celebrações e oferendas. Elementos civilizatórios diferentes juntos, sem perder a identidade, constroem uma unidade de sentido e atuam no reencatamento do mundo.

A arte dá espaço ao erro, se alimenta do acaso, da improvisação e da especulação. Somente com imaginação seremos capazes de escrever e enxergar outras narrativas e novos caminhos para o futuro, seja na arte ou na gestão. E porque não na arte de fazer gestão.

Algumas obras e instalações:

Ebony G. Patterson — Composição de cenas e retratos popular que apesar do belo, retratam o contexto de violência característicos de diversas comunidades em Kingston, Jamaica. Mostrando o reflexo do consumismo e dos excessos na busca do bonito, do ideal.
Dois pesos, duas medidas (2016) — Lais Myrrha — A arte vista como uma possibilidade de se lançar em zonas de instabilidade, em situações nas quais o familiar se torna estranho e a lógica convencional parece falhar. Dois corpos idênticos, diferentes no seu material e no contexto histórico de um modo construtivo. Será que as coisas mudaram tanto?
Restos materiales, obstáculos y herramientas (2016) — Xavier Salaberria — O objeto trata da materialidade abstrata dos objetos, que condicionam e alteram a circulação das pessoas no espaço, provocando conexões inesperadas entre os visitantes, os objetos e o lugar. Ao confrontar a expectativa e o caminho das pessoas, o artista propõe uma provocação também de nossa tentativa de organizar, e mostrar o belo e esconder o estranho.
True to size (2015–2016) — Heather Phillipson — Imagens de publicidade online, brinquedos de pelúcia e emojis. Uma instalação que tem como tema a devastação — clima extremo, higiene extrema, comunicação excessiva, sobrevida, consumo e desejo. A escala dos objetos e imagens representados faz com que eles momentaneamente percam a banalidade com que são consumidos no cotidiano.

Agradecimento especial para o professor Ricardo Carvalho, professor e pesquisador da Fundação Dom Cabral, pioneiro no ensino da Art for Management na América Latina. Doutor em Sociologie des Mutations, pela Paris VII, Pós-Doutor em Art for Management, pela RMS/Reims Management Schooll, e professor convidado da ESCParis e da HEC Montréal.

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