O Porto e a permanência do nostálgico

Jogando com blocos de memória na cidade Invicta

Entro no trem e logo noto que está lotado de crianças saindo pra excursão. Tento mudar de vagão uma, duas, três vezes. Em vão. O jeito é colocar os fones de ouvido e esperar chegar o destino. Ponho o som de um DJ set da Björk, que entre outras faixas malucas, tem um mix do Fado Minh’alma da Mariza e de um Dubstep — Quartz — do produtor Britânico Bloom. A fusão disso tudo chega quase a dar nó no cérebro, e quando vejo a primeira imagem do rio Douro pela janela, já começo a me ligar no ambiente de encanto no qual o Porto te envolve, principalmente se você tá caindo por aqui pela primeira vez.

Vias perpendiculares à Praça da Liberdade.

Depois de uma passada rápida pelo prédio da Casa da Música, um dos ícones da arquitetura pós-moderna da cidade, desço na estação da Trinidade e dou de cara com a Avenida dos Aliados, uma espécie de boulevard com um grande espaço de convivência no centro, voltado pra contemplação das clássicas fachadas européias que rodeiam o seu quarteirão. Aqui o atributo de encantamento se escancara: o simples fato de se estar no meio da Praça da Liberdade e, o prenúncio do que mais poderemos encontrar ao entrar em qualquer uma de suas vias, chega a paralisar os sentidos.

Vista da Praça da Liberdade, com a Avenida dos Aliados cortando seus dois lados e o monumento à Dom Pedro IV no centro (Pedro I no Brasil).
O Morro da Sé, visto de cima da Catedral.

Subo a rua íngreme da altíssima Torre dos Clérigos, seguindo a montagem de janelas, sacadas, azulejos e pichações que formam um tipo de mosaico urbano contra o céu limpo. Na descida, em uma das calçadas do centro, peço uma francesinha pro desjejum. As duas fatias de pão de forma com queijo, vários tipos de carne e com molho picante fazem parte da culinária tradicional da cidade. A caminhada continua até a Catedral da Sé e começo a ver de cima o morro formado pelas casas em volta. O seu aspecto é simples, com roupas estendidas nas sacadas, som de música e conversa alta, uns vagabundos dando rolê em volta dos bares. Quando finalmente cruzo a Ponte Dom Luís I e caio no Mosteiro da Serra do Pilar, já do lado de Gaia, fico paralisado pela dimensão da beleza daqui. Olhando pra baixo, pro Rio Douro, chega a dar a impressão de se poder pegar a cidade com as mãos: puxar cada trem, empurrar cada navio, mover cada ponto de multidão. A vontade é de permanecer ali, vendo a composição constante da cena, observando a movimentação incessante de cada ponto, cada bloco dela. Por um momento parece que é possível ficar ali parado durante uma vida toda sem se aborrecer.


“A Mona Lisa de Leonardo é apenas milhares de manchas de tinta. O David de Michelangelo é apenas milhões de batidas com um martelo. Somos todos milhões de pontos colocados juntos do jeito certo.”
-Chuck Palahniuk, Diário

A permanência é um atributo marcante do Porto. Tem a ver com o jeito que ele preserva não só a sua história e arquitetura, mas principalmente o seu estado de espírito. Tem a ver com a vontade de querer ficar por aqui mesmo; talvez um pouco pela óbvia identidade que temos com o povo português, talvez por um impulso de voltar à terra de onde partiram nossos antepassados. Mas o fato é que até a luz do fim da tarde parece querer permanecer aqui. É uma cidade que abriga a alma do mesmo modo que abriga as suas construções, monumentos e habitantes.

Vista do Rio Douro na margem do Cais da Ribeira.

Desço o caminho de volta, passo pela Rua das Flores, a histórica via de expansão comercial daqui, até chegar enfim às construções portuárias da beira do Douro, onde ficam estocados e são servidos os melhores vinhos de Portugal. Agora o pôr do sol está em seu auge, e a retina quase chega a vitrificar o movimento do rio contra as docas, o reflexo da luz amarelada nos lustres. Começo a me lembrar de uma época em que nem mesmo vivi, a trazer imagens na memória de coisas que até então não conhecia. Começo a me ligar de que a nostalgia só pode ser o principal atributo da Cidade Invicta.


"Memórias nostálgicas podem dar às pessoas um senso de pertencimento, significado e segurança que as abre para experiências futuras, e essa abertura encoraja a criatividade."
-Annie Sneed

Cais da Ribeira visto de cima da Ponte D. Luís I.

Essa mesma nostalgia me leva de volta pra uma das partes mais marcantes da minha infância: a construção de grandes cidades de Lego. Se eu tivesse que criar um retrato para a cidade do Porto, ele seria cubista, inteiro montado por peças de memória visual. Sua imagem se formaria por blocos e sua voz se manifestaria por legendas de foto, aquelas feitas de uma forma bem aleatória em algum lugar do passado por alguém da família. Depois de me aprofundar pela região e olhando agora pra marca oficial da cidade, vencedora de alguns dos maiores prêmios de design mundiais, fica ainda mais clara pra mim a minuciosidade do processo do branding.

Apresentação da marca oficial da cidade do Porto.

O entendimento do contexto histórico, a empatia pela cultura local, e as experiências que vivi ao longo de um único dia — encanto, permanência e nostalgia — me levaram a alguns passos anteriores ao conceito de marca já implementado pelo White Studio; pequenos blocos de memória icônica da cidade, que formam mosaicos inspirados pelas tradicionais telas portuguesas pintadas de azul sobre azulejos. Um trabalho que só pode ser criado por quem entende e ama este lugar. Uma marca que, a fim de se apresentar, não precisa dizer mais nada além do seu nome: Porto.