

Urbano
- adjetivo - dotado de urbanidade; afável, civilizado, cortês.“modos u.”
2. relativo ou pertencente à cidade, ou que lhe é próprio. “política u.”
O CONTEXTO
Todos nós viemos ao mundo dentro de um conceito pré concebido: nascemos com dívidas que não fizemos, dentro de histórias familiares que desconhecemos, regrados por leis nas quais não tivemos voto.
Notóriamente, a grande maioria das pessoas que conhecemos crescerá e morrerá sem se perguntar o porquê dessas coisas. A vida passa rápido e nem todos têm tempo de observar e de fazer indagações.
No entanto é importante lembrar, parafraseando Steve Jobs, que tudo o que está a nossa volta e chamamos de história foi construído por pessoas que não eram mais espertas que você.


“Quem controla o passado, dirige o futuro. Quem dirige o futuro, conquista o passado”
A celebre frase de Orson Welles, no filme 1984, dá uma lição muito simples: entender o passado é conquistar o futuro.
Tente, por exemplo, conhecer mais a fundo a história daquela música que você gosta. Procure interpretar não só a letra, mas o próprio contexto em que ela foi escrita. Perceba como a sua experiência ao ouvir a música vai mudar. Você vai notar que uma certa intimidade é criada.
E se você procurar conhecer melhor a história da cidade em que vive? O que poderia fazer com essa nova intimidade que surgiria?
A HISTÓRIA
Acredita-se que as primeiras cidades surgiram do desenvolvimento da agricultura. Chamadas de “civilizações hidráulicas”, a concentração de assentamentos nas beiras de rios deu origem a pequenos povoados, onde se evoluiu no cultivo de hortas, na pecuária e na pesca. Posteriormente pequenos mercados começaram a se desenvolver.
Ur e Babilônia, localizadas nos vales dos rios Tigres e Eufrates, chegaram a ter 50 e 80 mil habitantes respectivamente e datam de 2.500 A.C.. No entanto, dependendo da sua interpretação sobre o que difere um assentamento de uma cidade, algumas linhas de pensamento sugerem uma “revolução neolítica” que ocorreu aproximadamente entre 13 e 10 mil anos atrás, e teve suas primeiras vilas surgidas a 12 mil anos.
Com o crescimento desses gigantescos aglomerados de pessoas, cresce também a violência, e rapidamente se percebe a necessidade de se estabelecerem regras e fiscais para garantir que elas fossem seguidas.
São 12 mil anos de história e uma conclusão básica:
O exercício de se viver em sociedade sempre foi um desafio.
O DESAFIO
Todas as sociedades, nas diferentes camadas da natureza, têm seus próprios desafios. É assim no formigueiro, no cupinzeiro, ou numa pequena comunidade de gorilas: o desafio sempre manteve essas sociedades vivas e em movimento.
Hoje, as cidades humanas são muito diferente das antigas Ur e Babilônia. Temos carros, metrôs, prédios, estádios, shopping centers, chuveiros de água quente, Wi Fi.
Já a sociedade humana atual, apesar de seus avanços tecnológicos e científicos, ainda guarda uma triste semelhança com aquela de milhares de anos atrás: ainda existe um comportamento primitivo e individualista, opressor e muito pouco empático. Ainda nos falta um pensamento e uma consciência coletivos. Como há 12 mil anos atrás, ainda andamos pelas ruas com medo e muitas vezes, com dificuldade.
Evoluímos tanto no “como”, com ferramentas e processos cade vez mais sofisticadas, que esquecemos do “porquê”.


Por que estamos nas cidades? Por que nos aglomeramos dessa forma? Por que a vivência urbana, para alguns, tem que ser tão tortuosa? Olhamos tanto pra nós mesmos que esquecemos de considerar a experiência urbana como um todo.Tomando como base uma cidade média brasileira, isso se reflete fortemente nas mais diferentes formas: na falta de segurança, na falta de respeito, na falta de cuidado, na incompetência e na corrupção do poder público.
Na grande maioria dessas cidades há pouco investimento em manutenção e desenvolvimento de novos espaços públicos, abandono de bibliotecas, praças e parques. Museus, conchas acústicas e arenas teatrais com investimentos tímidos ou nenhum.
A cidade se torna um grande amontoado de muros.


No entanto, a capacidade de transformar, tanto a si mesmo, quanto ao ambiente em que está inserido sempre foi o maior diferencial da raça humana. E essa força de mudança depende de um combustível disponível gratuitamente pra qualquer um de nós: a atitude.
A INTERVENÇÃO URBANA
ELA SEMPRE ESTEVE LÁ
A intervenção urbana surge com a consciência de que algo precisa ser mudado. A evolução tem que andar por vários caminhos ao mesmo tempo. A cidade não pode simplesmente “acomodar as pessoas em volta do rio”, é necessário rever essa significância para algo maior, criar uma experiência que extrapole a simples funcionalidade e crie interações mais relevantes e humanas entre as pessoas. Experiências completas com começo meio e fim e uma finalidade que faça sentido, mesmo que esse “sentido” seja interpretado de forma diferente por cada um.
Também a violência não pode ser combatida apenas com opressão e controle.
A comunicação eficiente — que é aquela que faz você ver pelos meus olhos e ter a mesma experiência que me fez criá-la — ainda é a forma mais efetiva de se integrar pessoas em torno de uma ideia, de uma causa ou de um conceito. Essa comunicação efetiva pode ser feita das mais diversas formas quando se olha a cidade inteira como uma ferramenta comunicativa. Ela também pode ser utilizada para os mais diferentes propósitos: vender, conscientizar, alegrar, facilitar, entre outras infinitas possibilidades.


Poesias coladas em postes podem convidar para uma visita à biblioteca municipal. Uma pintura num muro de prédio pode embelezar a paisagem, fazer pessoas refletirem ou se acalmarem. Uma fábrica de bicicletas pode construir uma pista de treino num espaço público. Essas ideias não são novas. E de certa forma, as intervenções urbanas sempre estiveram presentes na história das cidades e dos seus moradores. No entanto, elas nunca estiveram difundidas o suficiente para transformar efetivamente a experiência urbana.


Vamos pensar em todos os recursos utilizados para uma comunicação convencional: um anúncio, um outdoor, uma inserção na TV. Uma reflexão sofre a funcionalidade desses pontos de contato precisa ser feita com cuidado. Será que eles efetivamente melhoram a vida das pessoas e instigam a interação entre elas? É necessário repensar a significância da comunicação em si: revertê-la para algo mais tátil, que crie uma interação mais profunda com seu público. Dessa forma, as marcas se fazem mais relevantes e certamente, mais próximas dos seus potenciais consumidores.
Em qualquer uma de suas variadas formas, a intervenção urbana é extremamente democrática. Uma pessoa, um grupo, uma corporação, não há regras de tamanhos, todos podem criar uma experiência a sua própria maneira e com seus próprios objetivos. As cidades se beneficiam, as pessoas se beneficiam, o mercado se beneficia.


O indivíduo se torna mais participativo e a cidade mais acolhedora. As marcas se aproximam de seus consumidores e compreendem melhor seus mercados. Os benefícios se multiplicam a caminho de uma mudança a longo prazo: a aproximação das pessoas, a consciência do coletivo e uma sociedade REALMENTE empática e sinérgica.
A cidade deve ser vista como uma grande área de exposição a céu aberto, amplamente utilizada e mantida por seus cidadãos e instituições.
PARA SABER MAIS
A HIK Ontwerpers é um estúdio de design holandês conhecido por seus trabalhos em intervenções urbanas. Um dos cases de destaque da HIK, que alcançou conhecimento mundial, foi um escorregador instalado numa estação de metrô alemã. Além de agilizar o acesso dos mais apressados à plataforma de embarque, ele ainda transforma a cidade em um ambiente muito mais interativo e divertido.

