300 picaretas ou o feitiço contra o feiticeiro?
Novo sentido dado por um manifestante a uma música datada
Políticos sempre precisam de caixa de ressonância junto à população para ficarem em sua memória afim de perpetuarem seus mandatos. Se o político conseguir ganhar a confiança de intelectuais ou artistas, tais personalidades tornam-se “avalistas” de seus discursos. Tal relação é vista no Partido dos Trabalhadores (PT) até sua chegada ao poder, tendo intelectuais e artistas reproduzindo seu discurso. A banda pop/rock Paralamas do Sucesso compôs “Luiz Inácio”[1], baseada numa fala do ex-presidente Lula. Pode uma música datada ganhar novo sentido no tempo?
Após a deposição de Collor, rompeu um caso de corrupção no orçamento no Governo Itamar, gerando uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito[2]. Popularmente ela ficou conhecida como “CPI dos Anões”. Em campanha para o pleito de 1994, Lula criticou os políticos:
“Há no congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses.”[3]
Suas palavras, além de mexer com o brio dos congressistas, inspirou uma composição da banda pop/rock Paralamas do Sucesso. Herbert Viana traça em sua letra uma crítica a maneira de agir dos políticos, defendendo sempre seus interesses e desfazendo-se do povo:
“[…] é lobby, é conchavo, é propina e jeton/ Variações do mesmo tema sem sair do tom. […] Parabéns, coronéis, vocês venceram outra vez/ O congresso continua a serviço de vocês/ Papai, quando eu crescer, eu quero ser anão/ Pra roubar, renunciar, voltar na próxima eleição. […]”.
Esses versos mostram a mentalidade estrutural do sistema político brasileiro. Lula visava explorar o imaginário dos brasileiros, quando os políticos agiam em causa própria e não a da população. Lula e o PT se apresentavam como antítese desta lógica política que sempre vigorou no Brasil, baseado em um discurso pautado na ética e na justiça social. Ficavam de fora deste grupo os políticos do PT e poucos aliados. Após lançar a música, a banda foi censurada pelo Congresso, impedida legalmente de cantá-la em alguns eventos.
O PT foi a última corrente testada na redemocratização, recebendo do povo brasileiro três mandatos. Todavia, suas práticas foram contrárias ao discurso da ética. Sucessivos casos de corrupção — sendo o Mensalão o mais expressivo — ; o aparelhamento das instituições republicanas; a implantação de uma lógica de poder própria ligada ao bolivarianismo inaugurado pelo venezuelano Hugo Chávez; a continuidade dos altos impostos e sem retornos visíveis; caos em serviços públicos básicos — saúde, educação, transporte, segurança -; o recente caso de corrupção e má gestão da Petrobrás e as incoerências relacionadas aos investimentos feitos para a Copa e Olimpíadas; fizeram os brasileiros repensar e se manifestarem.
Nesse contexto, encontra-se a releitura dada a música dos Paralamas. Com a facilidade dos meios de comunicação, indivíduos têm expressado a favor ou contra a política por meio das diversas ferramentas disponíveis na internet. Na compilação amadora, postada no You Tube no canal Baborges90[4], o vídeo mostra a contradição do discurso do PT: Se a letra dos Paralamas expressa o discurso da ética defendido pelo partido antes de chegar ao governo, as imagens que ilustram o vídeo mostram que a prática do partido é contrária ao seu discurso. Nela estão contidas os diversos casos de corrupção que o PT está ou esteve envolvido em 12 anos de exercício do poder[5]. Assim, o final da canção soou como nos contos de fada, quando o feitiço age contra o feiticeiro:
“[…] De exemplo em exemplo aprendemos a lição/ Ladrão que ajuda ladrão ainda recebe concessão/ De rádio FM e de televisão […]”.
O PT monstrou-se mais do mesmo. Assim, a música, que ficou datada e presa no seu tempo, ganhou novos sentidos com a releitura de um cidadão comum, desta vez contra a própria matriz inspiradora. Da mesma maneira que o tempo mostrou a contradição do partido pela música que apoiava seu discurso, precisaremos deste mesmo tempo para ver quais mudanças surtirão no comportamento da população em manifestar-se contra os políticos e como eles reagirão, perpetuando o descaso ou moralizando a política.
Este texto foi produzido originalmente para a revista eletrônica "Ordem e Protesto", trabalho acadêmico dos alunos de jornalismo da UNIBH e adaptado nesta página.
[1] Lançada no álbum “Vamo Batê Lata”, de 1995.
[2] CONGRESSO NACIONAL. Secretaria Legislativa do Senado do Brasil (Senado). Relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito. Brasília: SLSB, jan. 1994. Disponível em: <http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/84896>. Acesso em: 14 mai. 2014.
[3] LULA já chamou congressistas de “300 picaretas”. UOL. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0205200904.htm>. Acesso em: 14 mai. 2014.
[4] LUIZ Inácio e os 300 Picaretas — Paralamas do Sucesso. You Tube. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=LXk6B5O-0-A>. Acesso em 14. Mai. 2014.
[5] LUIZ Inácio (300 Picaretas). A verdade sufocada. Disponível em: http://www.averdadesufocada.com/index.php/poltica-interna-notcias-103/4519-1301-qlula-incio-300-picaretasq. Acesso em: 14 mai. 2014.