Por que me tornei empreendedor

A trajetória entre superação de medos e realização de sonhos


Somente agora com 44 anos realmente parei para refletir sobre o que me levou a me tornar empreendedor. Hoje, com mais clareza, entendo que é um misto de espírito aventureiro e de coragem para superar os próprios medos, o que em muitos momentos tende a ser o principal desafio.

Vou contextualizar meus aprendizados e os motivos que me trouxeram até aqui, contando minha trajetória nesse texto.

Nasci numa família simples, morando numa fazenda perto de Milão. Isso me fez experimentar as coisas simples de uma vida no contato com a natureza, mas também o brilho e o enorme leque de possibilidades da vida que se leva em “cidade grande”.

Desde pequeno, sempre vi a necessidade de superar preconceitos. Lembro que, ainda na fase do primário, ia para uma escola da cidade. Eles tinham uma vivência maior que a minha, tinham acesso a biblioteca pública e já tinham a TV com cores (sim, na época isso era um diferencial enorme).

E eu?

Vivia uma vida muito mais simples, como disse, com contato mais forte com a natureza, e sem a “malandragem” e o jogo de cintura que a maior proximidade com pessoas de diversos “tipos”, culturas e princípios nos ensinam. TV à cores? De jeito nenhum.

A natureza, no meu caso, me permitiu entender que tudo nunca está realmente sob total controle. Às vezes, o máximo que podemos fazer é esperar que o mal tempo passe, para depois reconstruir e continuar o caminho com o céu limpo.

Mas tive sorte: sempre ao meu lado estavam minhas duas irmãs com 8 anos a mais que me ensinavam com amor e paciência o que estavam aprendendo na escola. Isso me dava uma vantagem muito grande comparado com os meus colegas. Eu podia contar para eles coisas que eles nem conheciam. Isso foi importante para mim.

Histórias de superação tem grande poder sobre empreendedores

Um outro ponto que me influenciou muito ainda quando pequeno foi a história da minha família:

Meu pai trabalhava para sua pequena fazenda e, ao mesmo tempo, para uma fazenda de um grande industrial têxtil do norte da Itália. Percebia que meu pai admirava muito esta pessoa e que de alguma maneira era inspiração para ele.

Nunca conheci o fundador deste grande grupo têxtil. Ele faleceu alguns anos antes do meu nascimento, mas as histórias das pessoas que o conheceram criaram em mim uma fantasia do empreendedor de sucesso que supera todas as adversidades na vida.

Vou contar a historia dele, da forma que me foi contada:

Nasceu no final de 1800. Sem grandes estudos, como era comum na época, conseguiu trabalhar para um grande grupo têxtil e cresceu dentro da empresa rapidamente. Com 25 anos já era diretor de uma das maiores tecelagens da época. Depois de um tempo, antes dos 30 anos, decidiu sair da empresa e iniciar a própria indústria. Inicialmente era pequena, mas o seu conhecimento profundo das lãs (na época não existiam instrumentos técnicos de avaliação) permitiu ganhar maior competitividade perante seus maiores concorrentes. Teve que reconstruir duas vezes a indústria porque sofreu com as duas guerras mundiais e, somente nos anos 60, conseguiu consolidar seu próprio patrimônio diversificando no campo têxtil, imobiliário, de madeira e nas fazendas.

A história é verdadeira? Mais fantasiosa que real? Não vem ao caso. Que foi importante para mim não há dúvida. A história de superação nas adversidades, de uma vida aventureira, é o que sempre me norteou.

Expandir a bolha cultural é importante para moldar o caráter

Durante a faculdade, tive a oportunidade de estudar em diversos países. Lembro que era o início do Erasmus, projeto que hoje é muito comum na Europa mas que na época eram disponibilizadas apenas 4 a 5 vagas por universidade. Quanto esforço para estar entre os primeiros, aulas particulares de inglês à noite, notas ótimas… mas valeu muito a pena!

Isso me permitiu expandir ainda mais o conhecimento de outras culturas: vivi na Escócia, Alemanha, Espanha, Polônia, dentre outros países. Somente depois mais velho conheci o Brasil, onde vivo hoje.

Mesmo que vivendo por poucos meses na maioria desses países, todos contribuíram em entender culturas diferentes e desafiar preconceitos.

Sempre vejo nisso uma quebra de paradigmas, de preconceitos e sucessivamente uma aventura que na maioria das vezes (é, nem sempre) termina bem.


Um bom empreendedor precisa, além da intuição, conhecer finanças muito bem.


Me formei em engenharia elétrica e então comecei a trabalhar.

Tive algumas oportunidades de trabalho e fui aceito em três empresas, duas multinacionais e uma de médio porte onde o dono tinha me feito a entrevista diretamente. Escolhi a terceira! Hoje sei porque, e você provavelmente vai entender também, mas na época achava que fosse por causa do salário.

Comecei a trabalhar como engenheiro de produção e em dois anos administrava os processos produtivos de 500 pessoas, lembrando: tinha somente 25 anos. Foi fácil? Não. Houve dias em que eu voltava para casa chorando sozinho no carro porque acreditava não estar à altura. Trabalhei lá por 3 anos. Havia provado para mim mesmo que tinha superado esta prova da vida e, então, quis mais.

No trabalho, havia um consultor que sempre me perguntava sobre KPI (Key Performance Indicator) e performance. Ele também tinha conhecimentos profundos de finanças. Sempre, em todas as reuniões, ele conseguia me perguntar algo que eu não sabia. Isso me deixava frustado, mas ao mesmo tempo com vontade de conhecer finanças. “Se ele pode, eu posso também”, era o que eu pensava.

Decidi parar de trabalhar por um ano e meio e fazer um MBA em tempo integral em Turin. Foi um período muito legal, onde conheci grandes amigos que levo comigo até hoje. Conviver junto com essas pessoas por tanto tempo e compartilhar das mesmas dificuldades (longas horas noturnas de estudo) fortaleceu muito os laços, além de aumentar consideravelmente minha bagagem intelectual.

No final, além da rica experiência, permaneceram os conhecimentos de finanças que são muito importantes até hoje. Um bom empreendedor precisa, além da intuição, conhecer finanças muito bem.

Quando a imposição de limites é extremamente prejudicial

Após este período, fui trabalhar numa grande montadora italiana no departamento de Merger and Aquisition, onde, em um ano e meio, trabalhei com seis chefes diferentes, todos alto executivos em fim de carreira. Eu, aquele jovem cheio de vontade de fazer um monte de coisas, inovar e otimizar os processos, não me adaptei por conta dos limites que me foram impostos. Mas hoje vejo que foi um grande aprendizado também.

Meu modo de gestão envolve falar mais sim que não. É preciso aproveitar a capacidade produtiva e criativa que os jovens tem. Impor muitos limites sobre os high potentials pode limar a produtividade e eficiência de uma empresa, além de jogar no lixo oportunidades enormes.


O início da aventura verde e amarela e a abertura dos primeiros negócios


Recebi um convite para mudar para o Brasil em 2001. Brasil? Havia visto somente na televisão. Imagens do carnaval e matérias sobre Jorge Amado eram as únicas coisas que tinha na minha mente sobre o país. Mas o espírito aventureiro e a vontade de superar o medo do desconhecido me fizeram aceitar. Superei meu próprio pré-conceito e estou aqui até hoje, sem a mínima vontade de voltar para a Itália.

Voltando um pouco no tempo, lembro que, quando trabalhei na multinacional italiana no Brasil, Espanha, Alemanha e Itália, tinha muitos compromissos “políticos” e pouco espaço para inovar. Vida de executivo tem muitos lados bons também, mas definitivamente não é para mim.

Eu falava para mim mesmo que me sentia como um frango de padaria. Estava em um lugar cheio de comida, luz, calor e sem grandes perigos, mas por dentro lembrava que um dia fui um frango de granja. Com o tempo, o anseio por aventura e por viver o inexplorado começou a crescer novamente.

Inicie o meu primeiro empreendimento em 2007, fundando o primeiro clube de compras do Brasil. Vendíamos roupas de marca com descontos de até 70%. Esse negócio não exigia manter estoque e grandes logísticas, então junto de apenas mais duas pessoas iniciei essa aventura. A operação cresceu, deu grandes frutos e, então, vendemos a empresa em 2010 com mais de 2 milhões de usuários.

Um empreendedor nunca deseja que o primeiro negócio seja o último

Depois da venda, desejei ser investidor anjo. Tinha lido muitos livros sobre o conceito de investimentos de alto risco de startups. Dividir o risco entre várias empresas é a melhor opção, diziam os gurus de internet. Mas depois de um início motivador percebi que não era o que eu queria. Não é a mesma coisa. Onde está a aventura? Onde esta o frio na barriga?

Em 2012, decidi sair definitivamente da multinacional italiana e ser um “frango de granja”.

Eu e outros sócios montamos um outro empreendimento: uma empresa de fulfillment para marcas de moda. Este modelo foi copiado de um italiano que já fazia isso para várias marcas de moda (Armani, Dolce Gabbana…). Deu muito certo financeiramente, mas não para a sociedade. Dessa experiência levei um grande aprendizado e deixo como dica: nunca se associe com alguém com muito mais poder financeiro ou de influência. Não é regra geral, mas um dia essa pessoa pode se aproveitar disso em seu detrimento. Acontece muito. É importante se precaver.

Saí com pouco dinheiro no bolso, mas muito aprendizado e fé no que posso fazer e onde consigo chegar. Criei uma empresa de 70 pessoas em 6 meses que começou a faturar 2 milhões de reais ao mês. Wow, estou orgulhoso de mim! Isso ninguém tira!

Hoje o tempo passou e somente os sentimentos bons permaneceram. Os sentimentos ruins foram diminuindo a intensidade.


A motivação de um empreendedor não é racional


Frio na barriga, vontade de superar os próprios limites… É isso o que motivou os grandes exploradores e esportistas, mas a troco de que? Com certeza, as explicações que nos damos racionalmente não são as verdadeiras. Acho que é algo mais profundo, tem a ver com a nossa história. Por exemplo, no meu caso, não será a vontade de manter vivo em mim a lembrança de um pai que perdi ainda jovem? A vontade de ser empreendedor não é, na verdade, uma forma de expressar o sentimento de amor por ele? Ele admirava tanto este industrial têxtil. Será que hoje ele estaria orgulhoso de mim?

Hoje estou tão longe (fisicamente e mentalmente) do lugar de onde vim e estou trabalhando com tecnologia e inovação, algo tão diferente da vida de fazenda, tranquila e determinada pelos ciclos das estações.

Lembro ainda do meu pai, quando me acordava cedo para visitar junto dele os campos de grão e ver se estava tudo certo, se as plantas precisavam de mais água etc. Achava isso um tédio e me perguntava: tínhamos mesmo que fazer aquilo todo dia?

Hoje eu entendo a importância disso e faço o mesmo com a minha empresa. Entendi que sucesso ou fracasso depende dos detalhes. Depende de verificar “se a planta está precisando de água”. Aplico essa analogia nos produtos e serviços que criamos. Precisamos dar água na justa proporção e nem tarde demais, nem cedo demais.

Falei de Água? Água para mim tem significados muito profundos.

Um dos grandes medos que tenho é o de água. Nado, mas com dificuldades. Todas as vezes que mergulho, tenho uma sensação desconfortável. Ironicamente, ao mesmo tempo, os meus melhores sonhos incluem o mar. Sempre sonhei em ter uma casa no alto de um penhasco onde possa apreciar o mar.

Mar e rio, no meu subconsciente, representam a vida. O mar representa a aventura, mas ao mesmo tempo o medo do desconhecido (a morte?). O rio representa o passar do tempo. Ainda quando criança, jogava pequenas folhas no rio e imaginava onde estas folhas iam parar e onde um dia elas iriam se encontrar. Por exemplo, imaginava se elas iam parar numa enseada ou se elas iam ver muitas coisas: peixes, novos cenários… Quando percebia que elas paravam numa enseada, ia correndo pegar e jogava na correnteza de novo. Uma nova aventura, e a vida continua.

Superar o medo? Superar a morte? Será que de, alguma forma, quero exorcizar esses medos criando novas empresas e produtos? Será que isso, para mim, significa ajudar a folha do meu pai a sair de uma enseada?

Hoje tenho clareza que o percurso é mais interessante que o fim. As aventuras são importantes porque fazem superar o medo do desconhecido e exorcizam a morte.


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