Recentemente uma pessoa que conheço prestou vestibular e foi aprovada nas três universidades estaduais paulistas e em uma universidade privada ‘de ponta’ no Rio de Janeiro. Em dúvida sobre o que escolher, me fez algumas perguntas sobre a Unicamp, onde estudei na graduação e no mestrado. Me perguntava, a ‘xóvem’: Como é o bairro? Quanto custa o aluguel aí perto? Como encontro vagas em república? Como é a estrutura da universidade? E assim por diante.

Fomos conversando, até que ela chegou numa pergunta que já ouvi muitas, muitas vezes (e que provavelmente, antes de entrar na universidade, também fiz pra várias pessoas): o curso não é muito “teórico”, pouco voltado “ao mercado de trabalho”?

Meu cérebro de socióloga e mestre em educação só me dizia que a pergunta era muito interessante. Me lembrei de quando eu mesma pensava assim, opondo essas duas coisas que, na prática, descobri não serem nada opostas.

Em resposta a ela, eu poderia discorrer sobre todo um mercado de trabalho voltado a pesquisadores e cientistas, que também é “mercado de trabalho”, fato para o qual ela parecia não se atentar. Eu entendi, porém, que ela queria saber do mercado de trabalho corporativo. Ela queria saber se a formação que ela receberia na Unicamp seria adequada ao trabalho técnico ou administrativo que ela pretende exercer em empresas. [e voluntariamente, por enquanto, vou deixar de lado a discussão de que as universidades privadas também são empresas]

De onde vem essa ideia - que ela, assim como eu, reproduzia - de que a formação com uma base teórica forte não seria adequada ao mercado de trabalho corporativo? Para entender que essa relação é um mito, basta observar as seleções de quadros profissionais em grandes empresas, como os processos para trainees. Em geral as pessoas com diplomas de universidades que se concentram sobre teoria e pesquisa é que são selecionadas.

Isso é resultado de uma forma de pensar muito simples, muito lógica e cada vez mais atual dos grandes empregadores: a técnica pode ser aprendida em treinamento; a teoria é muito mais custosa e difícil. Além disso, muitas vezes sem a base teórica sólida, o profissional sequer consegue executar a parte técnica e administrativa. Quando a tarefa é possível de ser executada sem uma construção e percepção teóricas elaboradas, em geral se trata de tarefas manuais, de “apertadores de botões” - mas não imagino que seja essa a ambição dessa colega (e não desmereço, também, a atuação de apertadores de botões, que fique claro).

Quer dizer, essa falsa contradição entre “curso teórico” e “mercado de trabalho”, especialmente em cargos mais altos nas empresas, é desmentida pelos próprios processos seletivos. Uma tendência geral no mercado de trabalho hoje é que um mesmo funcionário, ao longo de sua carreira, desempenhe diferentes funções. Essa tendência está baseada justamente na ideia de que os funcionários são capazes de aprender diferentes técnicas e desenvolver habilidades, ora bolas.

Que melhor momento do que a graduação em uma universidade, então, para ficar craque naquilo que nenhuma empresa vai te ensinar mais tarde? A teoria em geral só se aprende ali. A técnica teremos o resto de nossas vidas para aperfeiçoar.