Lisa Marchiano fala sobre os problemas de transicionar crianças

Meghan Murphy entrevista Lisa Marchiano sobre a tendência das “crianças trans” e as consequências que talvez não estejamos considerando

HNEB
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Feb 9, 2018 · 17 min read
Imagem: Michał Parzuchowski

Há algumas décadas, os progressistas teriam celebrado uma criança que não “se encaixava” nos estereótipos sexistas impostos a meninos e meninas. Mas parece que os dias de “Livre para ser… eu e você” já se foram. Em vez de dizer às crianças: “Você está bem do jeito que você é”, cada vez mais, estamos dizendo: “Talvez você tenha nascido no corpo errado”.

O fenômeno recentemente popularizado das crianças “em transição” que afirmam que seus corpos estão “errados” ou que giram em torno da relação com os papéis de gênero tradicionalmente associados ao sexo oposto, tem sido amplamente celebrado e apoiado por liberais e progressistas. Mas será que não estamos avançando rápido demais? Quais são as consequências da transição de crianças?

Com muitas perguntas deixadas sem resposta (e outras ainda não feitas), a tendência das “crianças trans” certamente precisa de mais questionamentos.

Lisa Marchiano, LCSW, é assistente social clínica e analista junguiana. Ela está preocupada com o fato de estarmos nos movendo muito rápido e indiscriminadamente com respeito a crianças em transição. Seu artigo “Camadas de significado: uma analista junguiano questiona o modelo de identidade para jovens que se identificam como trans” pode ser encontrado no 4thWaveNow. Para mais informações sobre o trabalho, visite The Jung Soul.

Esta entrevista foi originalmente exibida no podcast Feminist Current, em 2016.


MEGHAN MURPHY: Primeiramente, você pode me contar um pouco sobre o seu histórico e o que te levou a olhar mais criticamente para o crescente número de crianças “trans” e esse ímpeto em validar as “identidades de gênero”?

LISA MARCHIANO: Eu sou uma assistente social clínica licenciada, uma analista junguiana e eu atendo emconsultório particular. Começou a chamar minha atenção que esses casos estivessem acontecendo cada vez mais. Comecei a ouvir sobre o assunto através de alguns dos meus clientes, que tinham membros da família que estavam em transição ou conheciam alguém que estava em transição. Assim que soube a respeito, pensei que era uma ótima coisa o que as crianças estavam fazendo — normas de gênero desafiadoras, transgredindo a maneira como as coisas sempre aconteceram. Eu pensei que isso poderia render algumas experiências de vida fascinantes, passando uma parte da sua vida adulta jovem como alguém do sexo oposto. Acabei pensando nisso como algo do tipo “Ai, as crianças hoje em dia”.

Mas então, quando percebi que as pessoas estavam mudando permanentemente seus corpos, esse pequeno romance que eu tive com esse conceito terminou imediatamente. Para mim, parece tão senso comum que um jovem mudar seu corpo permanentemente é uma má ideia que é difícil acreditar que esta possibilidade esteja sendo considerada. Tornou-se então óbvio para mim que agora isso se difundiu por toda a nossa cultura. Você não consegue ler as notícias sem ouvir uma história sobre uma criança transgênero. E comecei a ver isso ocorrer na minha comunidade, com crianças do ensino médio. Eu moro em uma região metropolitana no meio do Atlântico, e em muitas das escolas locais isso está acontecendo. E estão comemorando como maravilhosamente progressivo, entretanto, para mim, algo pareceu não estar certo.

Comecei a pesquisar e percebi que existem comunidades de pessoas que estão destransicionando e de pais que estão desorientados sobre o que está acontecendo com seus filhos e foram atraídos para dentro desse mundo.

M: Tenho a sensação de que as pessoas realmente querem “apoiar as crianças”. Portanto, famílias, professores, terapeutas, mídia, parecem ter aceitado muito rapidamente a ideia das “crianças trans”. Acho que eles enxergam essa abordagem como de “mente aberta” e de apoio, e dizem coisas como: “As crianças sabem o que são; devemos apenas confiar nelas”, o que se traduz em validar a chamada identidade de gênero das crianças imediatamente, sem perguntas. Qual é o problema com essa abordagem?

L: Eu não sei se você tem filhos, mas há poucas coisas que uma criança poderia pedir aos pais e ouvir como resposta um mero: “Sim, tudo bem, querido.” Eu conheço garotos de 13 anos que insistiam que era literalmente uma questão de vida ou morte ter ou não um iPhone. Como adultos, sabemos que isso não é verdade. Nós sabemos que ninguém vai morrer se não tiver um iPhone. Conheço crianças que viveram como gatos por meses. Mas seria absurdo se deixar levar por suas palavras e dizer-lhes que sim, que eles são de fato um gato. Então, parte da parentalidade é empática, com sintonia, sabendo quando dizer não aos filhos, quando colocá-los em uma estrada diferente e quando ajudá-los a se adaptar a algo que pode ser desconfortável para eles naquele momento, mas faz parte do mundo ao qual eles precisam se adaptar.

De onde surgiu essa ideia de aceitar qualquer coisa que a criança nos diz? Nós não as deixamos comer o que bem entendem, nós as obrigamos a tomar banho, nós fazemos com que troquem de roupa… Há todo tipo de coisa que fazemos aos nossos filhos — se chama ser pais.

M: No seu artigo no 4thWaveNow, você escreveu sobre o que chamou de “modelo de identidade”. O que é isso e qual sua perspectiva sobre o modelo de identidade quando se trata de trabalhar com pessoas que se identificam como transgênero?

L: O modelo de identidade nos diz que quando alguém entra em nosso consultório dizendo que pensa ser transgênero ou um garoto preso no corpo de uma garota, ou outra frase que expresse isso, a regra é que essa pessoa está lá para reivindicar suas próprias convicções, sua identidade. Ninguém mais pode fazer isso por elas. A outra regra é que você não pode questioná-las. Se você questiona a identidade de alguém, você o está invalidando — você não está acreditando nele. Pode haver algumas esferas onde isso é aceito, mas eu diria que não faz parte do meu trabalho validar a identidade de ninguém. Se você me disser que é uma grande costureira, não faz parte do meu trabalho afirmar isso por você. Mas você pode se sentir assim, mesmo que nunca tenha costurado. Você pode se identificar como uma grande costureira — e você não estará machucando ninguém.

Eu diria que há uma espécie de tirania que acompanha o modelo de identidade. No caso do transgenerismo, ele tiraniza as pessoas porque não se pode questionar, explorar, ou sugerir que existam motivos alternativos para esses sentimentos. Você não pode sugerir que haja formas alternativas de lidar com eles, pois isso equivaleria a invalidar a identidade de alguém. E isso não é permitido. De alguma forma, essa agenda conquistou muito bem o movimento dos direitos de gays e lésbicas; eu acredito que através dos liberais.

Quando perguntamos a uma jovem com disforia que afirma ser transgênero o que a faz pensar que ela é um garoto, a resposta abrupta que recebemos de volta é: “Esta é uma terapia de conversão! Você está tentando fazer com que eu seja algo que eu não sou”. Mas, na verdade, a coisa é bem diferente. Eu diria: “Quem está tentando converter quem aqui?” Pacientes que vão até terapeutas procurando tratamento como hormônios e cirurgia estão procurando conversão. É um absurdo pensar que um terapeuta não deveria explorar melhor a questão e fazer algumas perguntas. Esse tipo de justiça social/abordagem identitária que privilegia o autodiagnóstico da pessoa que está sentada na nossa frente é completamente contrário à forma como o modelo de saúde mental sempre funcionou, onde nós obtemos informação sobre a experiência vivida pelas pessoas, e não necessariamente as conclusões que elas extraíram disso. Nós escutamos, avaliamos e consideramos diferentes possibilidades, e daí compartilhamos com elas o que pensamos estar acontecendo e discutimos sobre o que elas podem querer fazer a respeito.

M: Você mencionou anteriormente que trabalhou bastante com pessoas que destransicionaram — pessoas que fizeram a transição e depois mudaram de ideia. (Está correto descrevê-los dessa forma?)

L: Sim. Quero esclarecer que quando digo que “trabalhei” com elas, significa que tive o privilégio de conhecer essas pessoas e aprender com elas. Não foi um trabalho clínico que fiz com elas, elas me ensinaram muito enquanto compartilhavam sua experiência comigo, fora do contexto clínico.

M: Ótimo, obrigada. Então, você pode compartilhar o que você aprendeu sobre a nossa compreensão atual do transgenerismo, com base na experiência que você teve com essas pessoas que destransicionaram?

L: Claro. Há muito pouca pesquisa sobre isso — é informal, mas é uma informação bastante interessante. Muita coisa é proveniente de histórias pessoais de pessoas que fizeram a transição. E, francamente, encontrei muito do que eu já esperava encontrar. Em alguns casos, eram mulheres jovens que estavam tendo dificuldade, talvez porque sofreram trauma. Muitas delas foram estupradas e apresentavam sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, incluindo desassociação. Algumas delas foram intimidadas, algumas eram socialmente isoladas, algumas tinham muita homofobia internalizada — muitas delas identificadas como lésbicas. Fica bastante óbvio que é muito mais legal ser um garoto heterossexual do que uma lésbica, para muitas das jovens lésbicas de hoje em dia. Elas chegaram a acreditar que eram transexuais e não tiveram ajuda de terapeutas para desvendar o que realmente estava acontecendo. Nenhum terapeuta perguntou se elas poderiam ou não ser lésbicas. Nenhum terapeuta contou que a maioria das mulheres jovens passa por um período em que odeiam seus corpos, e que isso é incrivelmente comum em nossa cultura e não apenas para mulheres jovens.

Parte do perigo do autodiagnóstico é que, se você passar algum tempo na internet pesquisando os sites para crianças que estão buscando informações sobre elas serem ou não trans, os sintomas são muito vagos: “Você odeia usar vestido? Bem, talvez você seja trans. Você odeia seu corpo? Talvez você seja trans”. Então, em muitos casos, essas jovens mulheres que eu conheci — apesar de também ter conversado com alguns homens que destransicionaram — estavam lutando contra coisas normais contra as quais muitas mulheres jovens lutam, especialmente mulheres lésbicas ou bissexuais. E ninguém as ajudou a interpretar isso dessa maneira. Elas obtiveram ajuda para interpretar o que estava acontecendo em sites e redes sociais. As pessoas nos sites garantiram que elas eram transgênero. Quando elas buscavam um terapeuta, em muitos casos, os terapeutas não as ajudavam a aprofundar o tema.

M: Eu quero falar sobre o aspecto médico da transição de crianças. Muitas pessoas estão preocupadas com o impacto dos hormônios e dos bloqueadores de puberdade em crianças. Que tratamentos hormonais estão sendo oferecidos às chamadas crianças trans, agora?

L: Só uma advertência: eu não sou uma médica, não sou especialista nestes medicamentos, então eu sou um tipo de pessoa leiga informada. Não tenho todos os dados em minhas mãos.

É cada vez mais comum a prescrição de hormônios bloqueadores de puberdade, como o Lupron, para crianças que fizeram a transição social. À medida que elas entram na puberdade, muitas vezes, pais e profissionais da saúde tomam a decisão de adiar seu desenvolvimento puberal, para supostamente dar ao jovem mais tempo para decidir o que quer fazer a respeito. O problema é que os hormônios endógenos liberados durante a puberdade têm um impacto significativo no desenvolvimento cerebral, e não passar por essa fase definitivamente tem consequências. Os bloqueadores hormonais estão sendo apresentados como uma intervenção sem efeitos colaterais, mas eu não acho que isso, de alguma forma, seja verdade. Essas crianças deixarão de seguir seus colegas que estão passando pelas mudanças puberais naturais, então há imediatamente um fator social, a criança se torna diferente das demais. Além disso, há uma espécie de reprogramação que ocorre na adolescência, como resultado dos hormônios; parte disso é o desenvolvimento da sexualidade e do desejo sexual. Então você tem crianças que passaram pela transição social na pré-puberdade e em seguida fizeram uso de bloqueadores, e, assim, nunca passaram por essa fase natural de experimentar o despertar da própria sexualidade como fruto da puberdade. E então elas deverão tomar uma decisão sobre seguir ou não com um tratamento que afeta diretamente a sexualidade.

Eu acho que há apenas um caso na literatura — um garoto conhecido que não continuou com o tratamento hormonal (uso de hormônios “do sexo oposto”) depois de passar pelo bloqueio da puberdade. Em outras palavras, o uso dos bloqueadores provavelmente consolida a identificação com sexo oposto. E, é claro, como eu disse no artigo, espero que as pessoas percebam isso: se você usou bloqueadores e depois continuou com os hormônios “do sexo oposto”, isso é garantia de esterilidade em 100% dos casos.

M: Para homens e mulheres?

L: Sim, porque os gametas nunca se desenvolverão.

M: E você não está apenas preocupada com a transição médica e com o uso de bloqueadores de puberdade, por causa da transição e de uma possível destransição caso a pessoa mude de ideia… Você também argumenta que a transição social pode ter impactos negativos. Você poderia falar sobre isso?

L: Claro. Há uma questão importante que ainda não é bem conhecida e outra grande questão que ainda não foi pesquisada. Eu quero falar disso como duas categorias diferentes.

Há as crianças pequenas, que começam, ainda em idade muito precoce, a dizer que são do sexo oposto ou que desejam ser do sexo oposto, que dizem coisas como “Mamãe, quando você vai me colocar de volta na sua barriga pra que possa sair como uma garota?”. Pesquisas mostram que 80 por cento dessas crianças vão desistir dessas ideias na fase adulta — provavelmente é a puberdade que os ajuda a desistir. Como você provavelmente deve saber, a maioria desses 80 por cento se identificará como gay ou lésbica quando adultos. Então, provavelmente estamos transicionando muitos gays e lésbicas quando fazemos isso com crianças jovens. No entanto, cerca de 20 por cento persistirão na identificação com o sexo oposto e vão querer fazer a transição na fase adulta.

Se pudéssemos saber com certeza quem faz parte dos 20 por cento, teria sentido transicioná-los? De certa forma, os resultados cosméticos obtidos ao se transicionar cedo são melhores. Não estou defendendo que deveríamos fazer isso, só estou dizendo que, se tivéssemos como saber com certeza, então poderíamos questionar se faz ou não algum sentido. Mas, atualmente, mesmo os melhores médicos de gênero em todo o mundo dirão que não há como saber quem vai persistir e quem vai desistir.

Então, eu acho que, ao permitir que uma criança pequena faça a transição social, elas podem nunca ter ideia do que é viver com seu “gênero inato”. E então, se elas começam a fazer uso dos bloqueadores, como elas terão noção do que está em jogo? Acho que esse é um alvo muito difícil de acertar. Não estou dizendo que tenho as respostas. Algumas dessas crianças são muito insistentes e persistentes. E mesmo algumas das insistentes, persistentes e consistentes vão desistir; nós sabemos isso com base em fatos. Mesmo assim, entendo que se trata de um dilema.

Há outro grupo, entretanto, para o qual eu penso que as coisas são ainda mais claras. São crianças, a maioria garotas, que estão se identificando como transexuais na adolescência ou pré-adolescência, sem terem tido disforia na infância. Esse tipo de caso é recente — não foi visto até pouco tempo atrás. E, de repente, houve uma explosão deles. Há cinco ou dez anos, era muito incomum que um jovem que não tivesse [passado por] nada fora do comum em termos de suas preferências ou expressão de gênero na primeira infância viesse de repente se apresentar como trans aos 13, 14 ou 15. E agora está acontecendo o tempo todo. Para mim, isso é claramente um caso de contágio social.

Há uma blogueira maravilhosa, Max, cujo blog se chama “Born Wrong” (nascida errada). Ela é uma jovem que destransicionou e toca num ponto importante que eu vou citar aqui. Não é como se a internet as fizesse trans. Mas algo que as jovens que atravessam a adolescência sempre estiveram lutando contra. Se você ler o artigo sobre histeria em massa no Wikipedia, entre algumas dúzias de casos, aproximadamente 95 por cento envolve predominantemente meninas adolescentes. Isso é apenas uma coisa que nós sabemos. Elas lutam, e lutam de maneira semelhante, mas são limitadas pelas determinações culturais. Cerca de cem anos atrás, os hospitais psiquiátricos estavam cheios de mulheres jovens que sofriam de “histeria”. E elas faziam coisas como se debater pela sala e esfregar fezes na parede. De verdade, quem faz isso?! As pessoas não fazem mais isso hoje em dia. Mas há cerca de uma geração ou mais, as crianças começaram a se cortar, e antes disso houve os transtornos alimentares. Em outras palavras, é difícil ser uma adolescente. Atualmente, as adolescentes estão lidando com uma cultura pornográfica, as rígidas expectativas de gênero, um ódio corporal intenso e são bombardeadas com todas essas imagens na mídia que dificultam a autoaceitação, especialmente se elas estão questionando se podem ser lésbicas ou bissexuais. Então, não é que a internet as torna trans, mas, vendo a maneira como o transgenerismo é representado nos principais meios de comunicação, ele torna-se uma maneira realmente atraente para lidar com esses sentimentos difíceis.

A outra coisa sobre os adolescentes é que todos querem ser especiais e pertencer a um grupo. E se assumir transgênero, em muitos ambientes escolares, significa fazer ambos: coloca automaticamente o jovem em um grupo e ainda o torna especial.

M: Você mencionou a automutilação. Eu não quero chamá-lo de “moda”, porque é obviamente uma coisa séria e prejudicial. Mas notei que uma grande parte da agenda pró-transição, especialmente em torno da juventude, está conectada a estatísticas que dizem que as crianças trans são mais propensas a se autoferir ou estão em perigo de suicídio, principalmente quando suas identidades não são validadas e eles não são apoiados em sua transição. O que você sabe sobre essa informação?

L: As estatísticas de suicídio são definitivamente assustadoras. O estudo que é citado mais frequentemente é aquele que diz que 41 por cento das pessoas transgênero tentarão suicídio em algum momento. Se você ler o estudo, seus autores são claros quanto a esse número ser provavelmente um pouco alto. Muito provavelmente, isto se deu pela forma como o estudo foi realizado. Vale ressaltar que jovens gays, lésbicas e bissexuais têm estatísticas de tentativas de suicídio em torno de 38 por cento, acho. Ou seja, como você pode ver, é difícil ser uma pessoa em não conformidade com o gênero. Sobre as estatísticas de suicídio, o que é realmente importante e que sim, é verdade, é que essas crianças estão sofrendo. Mas não temos nenhuma informação, a meu ver, que demonstre que a transição alivia esse sofrimento. A estatística do Instituto Williams, de 41 por cento, não especifica se a tentativa ocorreu antes ou depois da transição. Existem alguns estudos muito bons que indicam que o suicídio pode ser maior após a transição. Não estou dizendo que a transição causa suicídio; penso que a questão é muito mais complicada que isso, provavelmente algumas pessoas que fazem a transição se sentem pior, e, portanto, ficam mais propensas a tentar o suicídio. De qualquer forma, é claramente verdade que a transição não é uma panaceia e, por si só, não previne o suicídio. Então eu tenho medo de que os ativistas tenham manipulado a estatística para assustar os pais.

Há fortes evidências de que as crianças que se identificam como transgênero têm algum outro tipo sério de problemas de saúde mental, na maioria dos casos. E isso é o que estamos vendo, repetidas vezes — que essas crianças são socialmente isoladas, ansiosas e deprimidas. Acho que tenho visto uma porcentagem elevada de crianças excepcionalmente inteligentes que se identificam como transexuais. E, muitas vezes, essas crianças não se encaixam — têm dificuldade em encontrar colegas e se encaixar em algum grupo. Algumas dessas crianças têm problemas mais sérios — muitas se encontram no espectro de Asperger. Eu conversei com pais cujos filhos têm diagnósticos de transtorno bipolar e cujos filhos tiveram episódios psicóticos e então se assumiram como transgêneros. Então, há essa coisa complicada que estamos tentando desvendar aqui. O suicídio e a automutilação vêm antes de eles se identificarem como transgêneros e desejarem transicionar, ou surgem depois, por eles não conseguirem a permissão para transicionar? Não está muito claro. No entanto, há muitas evidências de que a psicopatologia se apresenta antes que essas crianças se apresentem como transgêneras, em muitos desses casos.

M: Estou preocupada com a forma como as pessoas que questionam a ideia de identidade de gênero — ou que simplesmente não pensam que a nossa primeira reação deve ser apoiar inequivocamente a transição de uma criança que afirma ser do sexo oposto — são perseguidas ou perdem seus empregos. Foi o que aconteceu com o Dr. Kenneth Zucker (você soube disso?); ele foi demitido do cargo de chefia da clínica de identidade de gênero do Centro de Vícios e Saúde Mental de Toronto, porque sentiu que a primeira abordagem deveria ser tentar fazer com que as crianças se sintam confortáveis ​​com seus corpos, em vez de imediatamente realizar a transição. Essa situação é realmente assustadora para mim. Então, eu me pergunto, como foi a sua experiência ao falar sobre essas questões? E como você viu isso afetar seu campo e seus colegas?

L: Bem, eu recebi muitos contatos discretos de terapeutas, muitos deles querendo permanecer anônimos, dizendo-me que não podem falar por medo de perder seus empregos ou ter suas carreiras afetadas negativamente. Alguns deles trabalharam em clínicas de identidade de gênero e estão muito preocupados. Penso que a preocupação é mais generalizada entre as pessoas agora. Mas é como a situação das novas roupas do rei — ninguém quer falar nada, porque ninguém quer perder a cabeça. Eu decidi falar porque sinto que o que está acontecendo está errado. Penso que é importante dizer algo, e na verdade não estou em uma posição em que eu tenho um emprego a perder, porque eu trabalho num consultório particular. Se você vê alguma coisa e sabe que está errado e você fica calado… Para mim, nós temos fazer algo a respeito.

Você escreveu aquele ótimo texto recentemente sobre como precisamos ser mais corajosas, e eu compartilho desse pensamento também. Eu entendo pessoas que não podem falar por qualquer motivo. Mas se você puder falar, acho que deveria.

M: Eu concordo. Estou em uma posição em que eu me senti capaz de falar porque sou escritora e jornalista independente. Eu tenho uma plataforma. É óbvio que há muitas repercussões para mim de inúmeras maneiras, incluindo em minha carreira, mas acabei me sentindo como você — que as coisas estavam ficando fora de controle e que o que estava acontecendo estava errado, e então senti que precisava falar a respeito. E eu sinto que mais pessoas estão começando a falar.

L: Eu penso o mesmo. Quanto mais nós falamos, mais encorajamos os outros a falarem também.

M: Exatamente. Essa mudança no discurso público e essa abordagem sobre o transgenerismo aconteceu muito rapidamente e, em minha opinião, sem muito pensamento crítico quanto ao impacto social, impacto nos direitos das mulheres, nos indivíduos, no discurso e nos direitos humanos. Por que você acha que é o caso — o que podemos fazer para pisar nos freios?

L: Essa é uma grande questão. Eu não sei. Eu pergunto a mim mesma — é bastante desconcertante. Por um lado, tem sido enquadrado no âmbito dos direitos civis, e isso se refere a se encaramos a questão como uma identidade ou um problema de saúde mental. Se é um problema de saúde mental, podemos explorá-lo e tratá-lo de várias maneiras, incluindo, possivelmente, a transição. Mas, se é uma identidade, repentinamente a transformamos em uma questão de direitos humanos, e tudo o que podemos fazer é afirmar e validar.

O progressismo está colapsando em si mesmo e agora não há espaço para a liberdade de expressão. E acho que isso está ocorrendo em muitos lugares diferentes em nossa cultura. Ken Wilber disse uma coisa importante, que o liberalismo acabará por alimentar-se de si mesmo, porque não há um lugar seguro para parar e dizer: “Bem, não, na verdade, acho que isso está errado”. Supõe-se que nós só deveríamos aceitar tudo e dizer que tudo está bem. E eu sou uma liberal de toda a vida — eu entendo! Meu primeiro instinto foi dizer: “Sim, se isso funciona para eles, está bem.” Em outras palavras, nós não evocamos o nosso pensamento crítico sobre o assunto, porque isso equivaleria a um julgamento, e nós não queremos fazer isso — queremos apoiar as diferenças das pessoas. Mas em algum momento — digo com toda certeza, eu cheguei nesse ponto onde pude me dar conta, “Bem, espere um segundo. Esterilizando crianças?! Porque elas (não) querem usar vestido? Isso não está bem”.

M: Por que você acha que tudo isso aconteceu tão rapidamente?

L: Eu acho que há muitos adultos que fazem a transição — em particular, homens maduros, e é importante para eles serem vistos e validados como mulheres. Eu, pessoalmente, não penso que sejam mulheres, mas esse é o grito do movimento ativista transgênero: “as mulheres trans são mulheres e sempre foram”. Então, temos que aceitar que Caitlyn Jenner é uma mulher e sempre foi… O que é um absurdo, se você pensar bem. Eu acho que muitos desses homens maduros que transicionam depois de anos vivendo como homens, são ricos e investiram dinheiro nisso — eles são fontes importantes de financiamento para organizações de ativistas transgêneros. E acho que é importante para eles que crianças transicionem, talvez porque alguns deles sofreram muito quando eram crianças, e estão projetando sua própria experiência nas crianças de hoje. E também porque se essas crianças forem trans ou transicionarem, isso valida a narrativa de que [esses homens], na verdade, sempre foram mulheres e nasceram no corpo errado. O que não é de forma alguma uma boa razão para justificar a transição de crianças — validar a narrativa de outra pessoa.

M: Muito obrigada pela sua coragem, por falar e compartilhar sua perspectiva, seu trabalho e sua análise comigo. Foi muito interessante e informativo.

L: Muito obrigada.

Texto original: http://www.feministcurrent.com/2017/06/22/lisa-marchiano-trouble-transing-kids/

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Hormônio não é brinquedo

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Movimento crítico à transição infantojuvenil

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