Conectando continentes às ilhas

Está meio que na moda. Diversas startups quererem ser o Uber do seu segmento, revolucionar o relacionamento com seus clientes como fez a Zappos — o famoso “wow” — ou então romper modelos tradicionais como fez o Airbnb. Isso é fantástico! Eu não só admiro essas empresas e o que elas fizeram como também acho louvável outros empreendedores quererem seguir o mesmo caminho e aplicar esses conceitos em mercados diferentes. Não fossem iniciativas como essas, talvez nós clientes estaríamos ainda mais distantes de sermos protagonistas das nossas experiências e pagando por ineficiências sistêmicas, geográficas, regulatórias e políticas que fazem cada vez menos sentido na época em que vivemos. No entanto, antes de criar o próximo Uber, acredito que exista uma reflexão fundamental por trás do tipo de inovação que esse modelo trás. Será que inovações disruptivas fazem sentido para todos os mercados e estágios?

Visitei recentemente a sede do ClassDojo — uma plataforma de gestão de sala de aula — onde tive o prazer de conversar com o Sam Chaudhary, CEO e co-fundador da empresa. Sam é uma pessoa brilhante e a conversa com ele foi na verdade uma aula sobre diversos temas. Um dos pontos que mais me marcou foi a discussão dos tipos de empresa que existem no mundo (na verdade, a classificação é do Adam Pisoni, CEO da Abl Schools). Esse papo foi fundamental para ampliar meus horizontes em relação ao posicionamento de empresas inovadoras e entender o caminho que quero percorrer com o QEdu para levá-lo aonde acredito que ele pode chegar. A ideia é bastante simples e classifica as empresas em três tipos: continentes, ilhas e pontes.


Continentes

As empresas continentes são aquelas que oferecem produtos ou serviços para melhorar as atividades que nós normalmente fazemos. Tipicamente, empresas bem-sucedidas dessa categoria são aquelas que conseguem trazer mais eficiência para as atividades corriqueiras, oferecendo produtos ou serviços que as agilizem, barateiem e/ou melhorem. Da mesma maneira que os continentes são grandes porções de terra que acomodam inúmeras pessoas, a maioria das empresas atuais também podem ser consideradas continentes. Não é difícil pensar em corporações que se enquadrem nessa categoria: sistemas de ensino tradicionais, editoras de livros didáticos e softwares de gestão escolar são apenas alguns poucos exemplos do setor educacional que classifico como continentes.

Ilhas

Ao contrário dos continentes, as ilhas são pequenas e, consequentemente, não têm capacidade de acomodar a todos. Apenas um grupo reduzido de pessoas habitam as ilhas e, da mesma maneira, o número de empresas nas ilhas é muito menor do que as que estão nos continentes. Isso por que esse tipo de empresa é aquele verdadeiramente inovador, disruptivo, que começa as coisas do zero e está a frente do seu tempo. Por isso, não resolve problemas atuais de grande parte da população.

A AltSchool (uma mistura de startup e escola fundada e gerida pelo Max Ventilla) é um exemplo de ilha. A empresa defende a tese de que crianças precisam cada vez mais de bússolas — e não de mapas — para alcançarem todo o seu potencial e serem bem sucedidas. Para fazer isso, a startup está desenvolvendo um sistema operacional que conecta professores, pais e estudantes e entrega uma educação personalizada e integral. A partir desse sistema, os estudantes têm a auto consciência, competências inatas e habilidades colaborativas desenvolvidas. Sem dúvida uma proposta inovadora e que, se provada verdadeira, tem potencial de provocar grandes mudanças no modelo educacional como o conhecemos. Mas até lá, apenas um grupo pequeno de pessoas terá acesso e estará disposto a provar o conceito.

Pontes

Por último, as empresas pontes são aquelas que têm seus produtos e serviços adotados hoje ao oferecer melhorias nas atividades cotidianas. A diferença no entanto é que, enquanto as empresas continentes se concentram em agilizar e baratear a forma como essas atividades são feitas, as pontes levam os consumidores para o futuro ao conectá-los às ilhas. Ao oferecerem produtos e serviços que os clientes já estão familiarizados, as pontes aumentam sua adoção e passam a ter uma base cada vez maior e mais engajada. Com esses clientes à bordo, esse tipo de empresa leva seus usuários a um nível completamente novo, afastando-os cada vez mais do continente e trazendo-os mais perto das inovações disruptivas que se encontram nas ilhas (e não necessariamente barateando ou agilizando atividades atuais).

Um exemplo clássico de quem realizou esse processo com maestria foi a Apple com o iPhone. Ao anunciar o primeiro aparelho no início de 2007, os consumidores o perceberam muito mais como um telefone com funções adicionais (iPod e navegador) do que como um computador portátil. Com o passar do tempo, a Apple foi incorporando melhorias — como o aumento do poder de processamento, da velocidade de conexão à internet, do espaço para armazenamento de dados, etc. — que levaram o produto de um telefone (continente) para um computador de bolso (ilha). Hoje, a função telefônica é cada vez menos usada em detrimento de outros aplicativos que fazem com que os iPhones estejam tomando o lugar até mesmo dos computadores tradicionais, especialmente em meio aos millennials.


Os três tipos de empresa — continentes, ilhas e pontes — são legítimos e necessários em toda sociedade. A grande questão é qual deles é mais apropriado para cada mercado e estágio. Especialmente em relação à educação, vejo que as ilhas têm um papel fundamental no desenvolvimento de inovações. No entanto, poucos poderão se beneficiar dos benefícios trazidos por elas, restringindo o impacto para um grupo pequeno de usuários. Por outro lado, os continentes são espetaculares para aumentarem o acesso e melhorarem a eficiência. Todavia, será difícil ver a educação mudando de patamar apenas com produtos e serviços oferecidos por essa categoria.

"Se o que importa não é necessariamente chegar primeiro ou mais rápido, mas garantir que caminhos são criados para que mais gente chegue lá, as pontes são as empresas que podem oferecer o maior impacto e com a maior probabilidade de terem suas inovações irreversíveis"

Por esse motivo eu acredito muito nas pontes para ajudarem a transformar a educação. Ao começarem resolvendo problemas atuais dos seus clientes e oferecendo produtos e serviços que eles já estão habituados, as pontes garantem a adoção de suas soluções. Com seus usuários engajados, fica possível começar a trazer inovações e mudanças cada vez maiores e mais estruturais para o ecossistema, que dificilmente seriam adotadas se fossem oferecidas para uma base de usuários não habituada a elas. Acredito que essa não necessariamente é a maneira mais rápida de trazer disrupção para um mercado. Mas se o que importa não é necessariamente chegar primeiro ou mais rápido, mas garantir que caminhos são criados para que mais gente chegue lá, as pontes são as empresas que podem oferecer o maior impacto e com a maior probabilidade de terem suas inovações irreversíveis. Esse é o tipo de empresa que o Sam quer construir com o ClassDojo. E é esse o tipo de organização que quero construir com o QEdu: uma startup que leve estudantes, professores, escolas e todo o sistema educacional de continentes para ilhas. E de preferência oferecendo uma viagem agradável e com uma linda vista!

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