Renata de Medeiros, repórter da Rádio Gaúcha, foi agredida fisicamente por torcedor no Estádio Beira-Rio

Como redações de Porto Alegre lidam com o assédio contra suas jornalistas mulheres

RBS tem grupo de apoio e debates sobre questões de gênero

Reportagem: Júlia Guarienti (2º semestre de Jornalismo) 
Ilustrações: Fernando Raupp (2º semestre de Design Visual)
Fotografia: Rafaela Knevitz (2º semestre de Jornalismo)

Imagine que você, mulher, está em seu ambiente de trabalho, cumprindo com seus deveres, eis que um colega seu te chama de “princesa”, ou dá uma cantada que, de acordo com ele, é inocente, mas que te constrange. Como você age?

Se você é jornalista, nem precisa imaginar, pois provavelmente já passou por situações semelhantes. Setenta por cento das mulheres jornalistas já receberam cantadas no ambiente de trabalho e 92% já ouviram piadas machistas. Os dados são da pesquisa Mulheres no Jornalismo Brasileiro, lançada pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Gênero e Número em 2017.

Fonte: pesquisa Mulheres no Jornalismo Brasileiro

Casos de assédio acontecem frequentemente nas redações ou em ambientes externos onde as repórteres realizam seu trabalho. Na Copa do Mundo deste ano, a jornalista esportiva do Grupo Globo Julia Guimarães quase foi beijada por um homem enquanto se preparava para entrar ao ar no programa Esporte Espetacular.a jornalista Giulia Pereira, que trabalhava no IG, foi assediada pelo cantor Biel em uma entrevista no ano de 2016. Esses são episódios que tiveram repercussão nacional. Porém, são poucos que ganham visibilidade e mais raros ainda são aqueles que acarretam consequências para o assediador, inclusive nas redações, de acordo com as jornalistas de Porto Alegre entrevistadas pela Hub ESPM para esta reportagem. Repórteres e gestores comentaram sobre como as redações lidam com casos de assédio contra suas funcionárias.

Em abril deste ano, a comentarista esportiva do Grupo RBS Eduarda Streb foi constrangida ao vivo na Rádio Gaúcha pelo colega Eduardo Bueno, o Peninha, que disse que Streb deveria “voltar para a cozinha”. Após a repercussão externa e interna, Peninha teve de desculpar-se à jornalista que, ao comentar o pedido de desculpas, chorou na rádio. Streb encontrou apoio nas colegas Renata de Medeiros e Kelly Mattos, que fazem parte do grupo Jura, iniciativa criada em 2017 para debater casos de assédio contra as mulheres do Grupo RBS e dar suporte às vítimas de machismo.

Medeiros conta que, ao longo dos anos, criou uma certa “casca”, um certo “escudo para ignorar os casos de assédio, que ocorrem todos os dias na redação”. Também jornalista esportiva da Rádio Gaúcha, ela relata que o Jura foi de grande ajuda para ela superar o caso de maior gravidade de que foi vítima. No primeiro Gre-Nal de 2018, clássico entre os times da capital gaúcha, Medeiros foi xingada de “puta” e “cadela” e, quando apontou a câmera do celular para gravar o agressor, ele a agrediu fisicamente. A repórter registrou o caso na polícia e processou o agressor judicialmente (ouça o áudio para saber mais). “[No Jura] A gente encontra apoio”, conta Medeiros, que ganhou da empresa “um tempo” para se recuperar psicologicamente do ocorrido. Contudo, ainda no estádio, logo após a agressão — informada ao vivo por ela na Rádio Gaúcha — , sentiu-se “muito desamparada e sozinha”. Segundo a jornalista, palestras e debates sobre assédio contra a mulher são promovidos pelo Jura, grupo cujo nome homenageia Juraci Antônia Rabello, telefonista de Zero Hora, morta pelo ex-namorado em 2014.

Jornalista das editorias de geral e esportes da Rádio Guaíba, Laura Gross destaca que a rádio ainda é uma redação com mais homens do que mulheres. A repórter está há nove meses na Guaíba e, assim como Medeiros, trabalha com reportagem de arquibancada, conversando com os torcedores sobre a partida.

Fonte: pesquisa Mulheres no Jornalismo Brasileiro

Acostumada a falar sobre o assunto, Laura Gross relembra um dos tantos casos de assédio que sofreu em estádios de futebol. No intervalo de um jogo do Grêmio, ela estava se encaminhando para as arquibancadas quando sentiu uma pessoa se aproximar por trás, “encoxando-a”. Porém, esse não foi o caso que mais a impactou. Em outra partida, dois torcedores falavam — em voz alta, como se quisessem que ela ouvisse — que mulheres não deveriam trabalhar em estádios. A repórter, então, foi ao encontro dos dois e pediu licença para falar ao vivo sobre o que estava acontecendo. Eles autorizaram. A intenção de Laura Gross era reportar os insultos dos torcedores a ela e a todas jornalistas esportivas. Porém, a tensão do episódio fez a repórter chorar assim que desligou o microfone. Na época, a jornalista sentiu-se desamparada, apesar de ter recebido a solidariedade de seus colegas no estádio.

Repórter da Rádio Guaíba, Laura Gross já ouviu muitas piadas de mau gosto e falas machistas enquanto fazia reportagem de arquibancada

Questionado pela reportagem, Nando Gross, diretor de Jornalismo da Rádio Guaíba, diz que uma das orientações da casa é procurar identificar o autor do insulto e “manter a tranquilidade pois a equipe estará apoiando-a”. “Ir a uma delegacia, fazer a denúncia é essencial para evitar que esse tipo de conduta se repita nos estádios e na vida desse sujeito”, afirma o diretor.

Lição das novas gerações

A ideia de criar o grupo Jura veio da jornalista Brunna Radaelli, 29 anos, que procurou Marta Gleich, diretora de Jornalismo de Rádio e Jornal no Grupo RBS. Gleich, aos 56 anos de idade e com 33 de profissão, conta que jornalistas da sua geração estão aprendendo com as colegas mais novas a identificar o que não é mais aceitável nos dias atuais, como cantadas ou piadinhas que mascaram assédio. “Esse aprendizado, misturando as gerações, está sendo muito rico e interessante. Acredito que a sociedade tem que avançar, não pode retroceder.”

Mônica Kanitz, editora de cultura no Metro Jornal, do Grupo Bandeirantes, concorda que há uma nova forma de encarar a violência contra a mulher. Para ela, há 20 anos, piadas machistas eram interpretadas como inofensivas. “Tu ouvia uma bobagem, dava uma risadinha e seguia a vida. Claro, tinha coisas que incomodavam mais. Mas hoje [o assédio] é um assunto que está em pauta e acho interessante porque nos leva a repensar algumas questões. Nunca tinha encarado uma cantada no ambiente de trabalho como assédio, mas hoje já poderia pensar diferente”, diz Kanitz.

O editor-executivo do jornal Metro, Maicon Bock, declara que “no Grupo Bandeirantes de Comunicação no Rio Grande do Sul, onde o Metro está inserido, esse tema é abordado dentro do Manual de Conduta” e que “não são toleradas perseguições, ameaças ou assédios de qualquer tipo”. Além disso, informa que, “sempre que possível”, o tema assédio e outras pautas relacionadas às mulheres são tratadas nos veículos do grupo.

Fonte: pesquisa Mulheres no Jornalismo Brasileiro

O futuro

Publicar pautas que promovam o direito das mulheres e combatam a cultura machista é um compromisso de quem faz parte do Movimento ElesPorElas, criado pelas Nações Unidas e adotado pela Assembleia do Rio Grande do Sul, que convidou instituições gaúchas para promover a igualdade de gênero no Estado, entre elas a redação do Correio do Povo. Diretor de redação do jornal, Telmo Flor percebeu o crescimento da presença feminina nas redações e, com ele, um aumento do pensamento crítico e um fortalecimento da discussão sobre as formas de assédio tanto na empresa quanto na sociedade. “É uma temática universal. Participamos ativamente do ElesPorElas no caso de disseminação de práticas [contra o assédio], mas também na divulgação [do movimento].” Criada em 2014, a iniciativa da ONU deseja envolver o gênero masculino na luta contra barreiras sociais e culturais que impedem o avanço das mulheres. Vários artistas, celebridades e milhares de pessoas do mundo todo aderiram à causa.

Gleich acredita no poder transformador dessas campanhas. “Acho que a gente tem que ajudá-los [os homens] porque, muitas vezes, eles ficam perdidos. Se, para mim, uma situação sempre foi normal, eu tenho que aprender que não é mais normal, não é uma brincadeira. Com esses movimentos, a gente pode ajudá-los a entender que isso não tem mais graça, que isso não se faz, não é mais aceitável”, comenta.

Outra campanha a favor do trabalho de jornalistas mulheres que ganhou repercussão no Brasil é o Deixa Ela Trabalhar. O movimento reúne jornalistas esportivas com o objetivo de discutir seus episódios de assédio e posiciona-se “contra o machismo, desrespeito e assédio nos estádios, ambiente de trabalho, redações, rede social e onde quer que aconteçam”.

Medeiros faz parte do grupo Deixa Ela Trabalhar

Embora campanhas de conscientização e a favor da igualdade de gênero e respeito às mulheres em seu ambiente de trabalho obtenham um grande alcance e gerem discussões positivas, há muito o que ser mudado no que diz respeito à mentalidade da sociedade como um todo. Jornalistas e mulheres não são “princesinhas”, “docinhos”, e muito menos “queridinhas”. E sim trabalhadoras e cidadãs e, como tais, exigem respeito, independentemente do local que estiverem.

Laura Gross e Renata de Medeiros acreditam que a sociedade está longe de uma igualdade de gênero, apesar de grandes avanços já terem sido conquistados. E, para isso acontecer, os preconceitos contra a mulher jornalista devem ser combatidos, assim como deve haver abertura para novas oportunidades para que elas possam demonstrar suas potencialidades. “Vai ser uma mudança lenta e gradual, mas que um dia vai acontecer. Só que não estamos nesse tempo, infelizmente”, diz Medeiros.


Este conteúdo foi produzido por estudantes da Hub ESPM, agência experimental de jornalismo e comunicação da ESPM de Porto Alegre, sob orientação da professora e jornalista Marcela Donini. O material está sob licença Creative Commons- Atribuição-SemDerivações CC BY-ND, ou seja, você pode compartilhar o material com os devidos créditos e desde que o conteúdo não seja alterado.