Eu estou 1578 dias atrasado para homenagear o Beastie Boys

Now here’s a little story I’ve got to tell. About three bad brothers you know so well (Foto: Wikimedia)

Eu me lembro mais ou menos quando fui introduzido ao rap, mas não há nada em especial naqueles momentos. Eu era só uma criança no ensino fundamental e descobri o rap nacional por meio dos meus amigos de classe. Não me identifiquei logo de cara mas comecei a curtir com o avanço do tempo. Passei (e fiquei) por Racionais, Eminem, Jay Z e para uma infinidade de MCs, dos quais eu ouço até hoje.

Assim como ouvia rap, ouvia muito rock e decidi um dia buscar pela junção desses dois ritmos. Na época, meu único referencial sobre essa mistura era o Collision Course, álbum conjunto do Jay Z com o Linkin Park. Aquilo tocava o dia inteiro no meu finado Winamp e eu precisava de mais sons naquela pegada.

Achei uma página no Wikipédia e acessei. Assim como fiz ao longo de anos e anos de internet, troquei o artigo para a versão gringa (ninguém jamais vai tirar da minha cabeça que a Wikipédia em inglês é muito mais confiável) e comecei a busca por mais misturas de rimas e guitarras.

Eu devia ter, sei lá, uns 11 ou 12 anos e meu inglês não me permitia entender muito mais do que algumas palavras soltas, então pouco consegui identificar de informação naquele texto. Um nome, porém, me chamou a atenção — Beastie Boys.

Não conhecia o som, mas já achei o nome foda e isso me cativou. Abri a página dos mesmos no Wikipédia e tive outro espanto: eram brancos. Além de Eminem, do qual eu já era um pequeno Stan (como todo branquelo que cresceu nos 2000) e do Kabal, que cantava a saudosa Hey Senhorita, eu não conhecia outros rappers caucasianos. Somando ainda mais no quesito surpresas, eu descobri que eles tocavam os próprios instrumentos enquanto rimavam em algumas apresentações e gravações no estúdio.

Em 2011, Sabotage foi eleita pela Halfords como “música mais perigosa a se ouvir dirigindo”

Quando comecei a ver os clipes no YouTube e a ouvir as músicas, não teve erro: ali estavam aqueles que seriam meus artistas favoritos pelos próximos meses. Eu fiquei vidrado. A mistura das guitarras, baterias e baixos com os scratchs e com as rimas de MCA, Ad-Rock e Mike D me convenceu do que ninguém jamais poderia fazer uma coisa mais legal que o rap misturado com o rock. Nas semanas seguintes a esse dia que o Wikipédia me apresentou o Beastie Boys, eu não ouvi outra coisa.

No Sleep Til Brooklyn, (You Gotta) Fight for Your Right (To Party!), Sabotage, Rhymin & Stealin, Brass Monkey, Girls, Check it Out, Shake Your Rump. Eram tantas músicas que eu me identificava (mesmo sem entender nada das letras na época) que não havia espaço nem para o Collision Course.

O tempo foi passando, aquela febre inicial foi sendo curada, mas o grupo nunca mais saiu dos meus favoritos. Eu segui ouvindo periodicamente algumas músicas, principalmente o álbum de estreia dos caras, o Licensed to Ill, lá de 1986. Eu não entendia como músicas criadas há pelo menos 10 anos antes do meu nascimento me divertiam tanto e como eles eram tão pouco reconhecidos.

Os anos passaram e eu fui crescendo, na vida e no rap, e apreciando cada vez mais o flow, as wordplays e principalmente os instrumentais. Na minha concepção não há um grupo que tenha um instrumental tão bom e original quanto o aquele trio de branquelos do Brooklyn. A sonoridade incrível do Beastie Boys, as experiências que fizeram ao longo da carreira e a presença absurda de palco (que eu só vi, infelizmente, no Youtube) me impedem de deixar de gostar deles. Ao longo dos anos eu aprendi muito sobre as suas origens, suas influências, ouvi todos os trabalhos e fiz outras coisas que todos os fãs fazem. Exceto usar aquelas faixas ridículas na cabeça ou escrever cartas quilométricas.

Me lembro que em 2012, em uma das raras vezes que a HBO liberava o sinal para não assinantes (deveria ser um fim de semana de estreia de GoT ou algo do tipo, eu não lembro), eu assisti a cerimônia de introdução daqueles três caras que marcaram minha vida no Rock n’ Roll Hall of Fame.

Mas o sentimento era de um vazio. Um vazio, pois, a saúde de Adam Yauch, o MCA, impediu que o grupo se apresentasse naquela noite e impediu também que o trio estivesse completo para receber a introdução. A voz mais peculiar do Beastie Boys sofria de um câncer na glândula salivar e não tinha condições de estar ali, nem de terminar a gravação do Hot Sauce Committee Pt 1, um dos dois únicos álbuns do grupo que eu teria o prazer de ver estrear (e que acabou não estreando, ao contrário do Pt 2 que saiu e foi um sucesso).

Os Beastie Boys lutaram e conquistar o seu direito de festejar (Foto: Paul Natkin/WireImage)

Enquanto eu me esquivava das tentativas do meu pai de mudar de canal — que monopoliza, até hoje, a TV aos domingos — eu assisti LL Cool J e Chuck D, duas lendas do rap, contarem a história que eu já conhecia bem. Mas aquela cerimônia serviu para eu dimensionar a influência do Beastie Boys na arte. Quando Chucky falou que o seu grupo, o fucking Public Enemy, foi influenciado pelo trio, eu fiquei feliz em saber que eles tinham o reconhecimento que eu achava que eles mereciam.

Mike D e Ad-Rock lerem uma carta cheia de emoção, escrita pelo MCA. Nela, ele foi genial como sempre, não esqueceu de suas raízes e agradeceu a todos, inclusive aqueles vizinhos que o Beastie Boys irritavam ao ensaiarem depois da escola na casa dos Yauch no Brooklyn.

Quis o destino que algumas semanas depois da introdução, MCA finalmente desse adeus a um mundo que ele ajudou a tornar melhor. Budista, o rapper sempre foi um dos maiores ativistas de toda a cena e lutou pelas minorias até o dia de sua morte.

Desatento, eu deixei o dia 5 de maio de 2012 passar em branco e não fiquei sabendo de primeira mão que um dos meus maiores ídolos havia morrido. Quando a notícia veio, naquela mesma semana, foi um grande choque para mim. A tristeza foi inegável pela morte de um cara que impactou milhões de vidas com sua música e seus atos.

O genial clipe de “Don’t Play No Game That I Can’t Win” foi gravado com actions figures do grupo e da Santigold, que participa na música

O que me deixou mais triste era uma situação que já era previsível. Naquele dia não morreu só MCA, morreram os Beastie Boys, como havia de ser, Mike D e Ad-Rock anunciaram que não fariam mais músicas do grupo sem o amigo. O trio que começou nas tardes quentes de verão no Brooklyn acabou em um quarto de hospital.

Já se fazem quatro anos e eu segui um ouvinte assíduo. Nos últimos dias me bateu uma nostalgia e eu tenho ouvido ininterruptamente, assim como aconteceu há vários anos atrás, depois de ler o curioso nome do grupo na confiável Wikipédia da língua inglesa.

Talvez o Hypnotize tenha nascido na hora certa, na hora que minha consciência me cobra por não ter dado um devido adeus a um dos grupos mais importantes da minha formação musical. Não que minha homenagem seja necessária ou que seja grande coisa, mesmo assim, eu quis faze-la. Ela veio nesse singelo texto, ao melhor estilo “meu querido diário”, que vocês acabaram de ler. Pena que eu estou 1578 dias atrasado.

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