Nog, do Costa Gold, mostra que o rap não é só festa, em uma exclusiva pro Hypnotize

Na primeira entrevista do blog, o rapper fala de suas raízes, o convívio com haters e sobre o Rap Game na cena brasileira

Caio Nog, ou só Nog como é mais conhecido, participa do Costa Gold desde a sua formação inicial e é um dos MC´s mais falados do momento, tanto pelo seu flow diferenciado, como pelo conteúdo, às vezes, polêmicos de suas letras.

DJ Cidy, Nog e Predella, integrantes do grupo Costa Gold. Foto: Arquivo Pessoal/Instagram

Em alta no Rap Nacional e um dos principais grupos da cena atual, o Costa Gold faz parte do Coletivo Damassaclan e ajudou a espalhar o rap pelo Brasil. O grupo criado em 2012, lançou um EP online, o P.L.O.W. (Punch Lines on the World), no mesmo ano. No ano seguinte iniciou a criação de uma trilogia -“Ciclo Vicioso”-, que teve seu primeiro capítulo lançado no início de 2013, o EP online “Efeito Dominó”. No final do mesmo ano foi lançada a segunda parte, a mixtape “Epifania”, e em novembro de 2014 foi lançado o capítulo final, o disco “Posfácio”, que foi um sucesso estrondoso. Em novembro de 2015, o grupo lançou o disco “.155”, apresentando uma nova identidade musical. Além disso tudo, o Costa Gold possui mais de 600 mil curtidas no Facebook e 430 mil seguidores no Instagram, mostrando que, de fato, estão on fire.

Hypnotize: Como foi o início do Costa?
Nog: O Predella criou o nome e a identidade do grupo sozinho, depois convidou o Adonai, que apresentava a Batalha do Beco, na Vila Madalena, e foram adiante com o grupo. Em 2011, comecei a colar na Batalha e conheci o Adonai e, um tempo depois, ele me convidou pra ir pro estúdio. Fui ficando amigo do Predella e decidiram me convidar para o projeto.

Hypnotize: Por que o Adonai saiu do grupo?
Nog: A gente gostava muito dele, era um amigão mesmo, mas já não se encaixava mais profissionalmente falando. As ideias não estavam batendo mais.

Hypnotize: Como é sua relação com o Predella fora da vida profissional?
Nog: Somos irmãos mesmo! Só que convivência é muito difícil, é tipo ser um casal, ter um relacionamento e não poder transar. É muito chato. A maioria das vezes a gente discorda tratando de algumas ideias, há uma divergência, que é até normal. É uma relação de paciência.

Hypnotize: Qual a fase que você mais curtiu no Costa Gold?
Nog: Foi quando a gente começou a ter reconhecimento no nosso trampo. Eu não vou associar à saída do Adonai, mas, coincidentemente, foi nessa época que o público começou a curtir mais nosso som. No final de 2015, com o lançamento do “.155”. Agora estamos numa fase complicada onde geral fala mal de nosso trampo.

Hypnotize: Qual o lado ruim da fama?
Nog: Muita gente te olhando e imaginando muita coisa sobre você, menos o que você é. É uma fama bem chata. Muita gente não sabe trocar ideia de boa e muita gente transmitindo uma energia errada. Eu não me acho famoso, então eu lido bem com isso.

Hypnotize: O que falar sobre o tanto de haters?
Nog: Ou você da risada ou você fica careca de nervoso, fica encucado. Eu muitas vezes paro pra responder e até me arrependo disso, mas é a forma que encontro pra ficar bem.

Hypnotize: Os haters e a fama atrapalham no momento de criação? 
Nog: Atrapalha, porque sempre trocamos muita ideia com o público, sempre. Quando tomou uma proporção maior, com o nosso som chegando pra gente de 12, 15 anos, que não sabem nem o que é Rap, ficou muito ruim porque essa geração é desbocada. Acha que é invisível, fala qualquer merda na internet pra ganhar likes.

Hypnotize: Você evita escrever sobre alguma coisa por medo da rejeição?
Nog: Até ficou chato isso. Nas últimas do Costa, usamos os ”ataques” que sofremos de outros MCs gratuitamente para compor e quase fizemos um álbum inteiro com diss e, então, decidimos fazer “Sexy Lady”, pra dar um break nessa treta.

Hypnotize: Há um jeito certo de fazer rap?
Nog: Claro que não. O jeito certo é aquele que da o retorno que você quer. Tem muito MC que da ideia pra gente de 12 anos, tem MC que acha que é padre e só da ideia certa, etc. Se eu quiser fazer um rap sobre sífilis, eu faço.

Hypnotize: Você tem projetos solos? Ou vai ficar só no Costa Gold mesmo?
Nog: Jamais. Na real eu nunca quis fazer rap. Meu sonho era ser jogador de basquete. Comecei a fazer freestyle com um mano que conheci jogando basquete no Clube Hebraica que fazia umas rimas todo fim de treino. Fui levando na esportiva, até que um dia esqueci isso. Quando comecei a faculdade, conheci um outro mano que também curtia isso e comecei a rimar com ele. Fiquei vendo vídeo de batalha e pá e decidi colar na Batalha do Beco e fui humilhado na primeira vez (risos).

Hypnotize: Como se deu a entrada do Costa Gold no Damassaclan?
Nog: O Predella tinha o grupo dele, o Astúcia Crew, e já tinha sido convidado pelo Spinardi. Depois de um tempo, com o Costa Gold, reforçaram o convite e aceitamos. O Spi explicou que a gente ia fazer parte da linha de frente e que teríamos que representar de verdade.

Hypnotize: Como funciona o processo de seleção de novos integrantes pro DMC?
Nog: Fazemos uma reunião mensal, onde todos os integrantes colam e discutimos assuntos diversos do clan. Um dos maiores exemplos é Funkero, que já era pra fazer parte do Damassaclan, só que somos democráticos e alguns membros não queriam que ele entrasse por algumas desavenças particulares. Depois de um tempo, esses membros saíram e decidimos refazer o convite.

Hypnotize: Como e quanto que o Damassaclan evolui para que outras bancas se aproximem/distanciem de vocês?
Nog: A gente é uma banca pioneira. Nós que começamos a representar como um time e não temos nenhum objetivo de brecar a caminhada dessas outras bancas, mesmo sabendo que eles estão tentando fazer isso com nós. A gente nem olha pro lado pra fazer nosso corre.

Hypnotize: O que acha do rap game no Brasil? Alguma coisa mudou pro Damassaclan depois de Sulícidio?
Nog: Mudou. Levamos muito na emoção, fomos pegos de surpresa. Estávamos em ascensão e precisava aparecer uma espécie de oposição. Ninguém deixa o time que está ganhando ganhar. Eu, particularmente, tomei as dores dos meus amigos, de gente que nem faz parte do Damassa mais, tipo o Doncesão e, principalmente, do Felp. Esses cara quiseram “pular os degraus da escada”, enquanto nós subimos não sei quantos lances de escada. Foi uma estratégia muito inteligente que, de fato, afetou muito a gente. Apesar de tudo, se eu voltasse no tempo e tivesse a oportunidade de mudar algo, não mudaria nada, teria, apenas, me afetado menos.

Hypnotize: Como vocês lidaram com o vídeo do Bk´ xingando o Predella?
Nog: Aprendemos com os erros dos “ataques” anteriores e decidimos não fazer mais letras respondendo esse tipo de coisa. Não vale muito a pena, principalmente, por esses caras não terem feito o mesmo corre que fizemos.

Hypnotize: Há uma crítica sobre o Costa Gold fazer um “rap branco”, sem mensagem. Concorda que isso existe? O que você pode falar sobre isso?
Nog: Eu concordo em partes. Vivemos numa sociedade preconceituosa classicamente falando. Há um preconceito sim e ele é velado, mas esse bagulho é uma das maiores palhaçadas que já ouvi, porque, sim o rap é de origem negra, e se a história do mundo fosse ao contrário eu não teria tanto orgulho de ter feito uma união como a que fiz. Música não tem cor, tem o áudio. Se as pessoas sabem quem eu sou, não é porque sou branco e sim porque meu som é bom e isso é fazer rap. Essa “segregação” é um preconceito inverso. Você não pode querer julgar uma pessoa porque seus antepassados sofreram, eu não tenho nada a ver com isso. Isso é tosco. Sempre soubemos que temos que representar muito mais por ter origens diferentes que a maioria do rap.

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