Ele.

Cheguei cedo na família! Meus pais se casaram muito novos, minha mãe com 20 anos e meu pai com 19, e logo em seguida, depois de 2 anos, eu apareci! Primeira filha, primeira neta, primeira sobrinha, primeira tudo… Depois ganhei um irmão e alguns primos. Todos italianos, somos uma família unida, companheira, carinhosa, e almoço aos domingos é algo sagrado e obrigatório.

Sou muito apegada a cada um, principalmente quando se trata dos meus pais! Minha mãe — leonina, séria, pragmática, mas que também tem seus momentos divertidos — sabe de (quase) tudo que acontece na minha vida, estamos sempre conversando e trocando ideias, ela sempre tenta me ajudar quando pode e na maioria das vezes também está aberta a ouvir sobre quando está errada. Minha relação com meu pai é algo diferente, — também leonino, sério, pragmático, porém com poucos momentos divertidos, é difícil fazê-lo rir — ele não conversa muito, não sorri muito, não ri muito, mas tem um coração enorme. É mais mole que a minha mãe na verdade! Não temos o costume de sentar e conversar sobre a vida, ou contar uma piada, não. Temos uma ligação muito forte apesar de não sabermos quase nada um sobre o outro. Nosso tipo de programa é ficar sentado um ao lado do outro, em frente a TV, sem fazer nada. A companhia basta. Sem palavras e gestos.

Não me lembro a data certa, mas em 2011 recebemos a notícia de que meu pai estava com câncer no esôfago, estágio 3 (descobri a gravidade do tumor apenas no ano passado). Era algo urgente e medidas precisavam ser tomadas rapidamente, então todo o dinheiro, de todo mundo, foi investido nisso. No tratamento e cirurgia dele. Ele e minha mãe se mudaram para São Paulo por um ano para fazer o tratamento, enquanto eu e meu irmão — com apenas 14 e 11 anos — ficamos no interior aos cuidados dos parentes que tanto amamos.

Não tive o meu pai presente em momentos importantes da minha vida, como minha formatura, pois a resistência dele estava baixa e ele não podia arriscar entrar em contato com outras pessoas e pegar uma gripe, por exemplo. Tudo era mais grave. Dancei a valsa com meu irmão e isso me fez feliz naquele momento. Passamos por alguns problemas durante o tratamento, mas nada foi tão chocante pra mim quanto acompanhar a perda de cabelo, sobrancelha e peso do meu pai (ele estava BEM acima do peso, pesando mais de 110kg, e depois da cirurgia, passou a pesar cerca de 80kg).

Tivemos que esperar 5 anos (tempo que os médicos precisam para realmente dar alta para um paciente que passou por isso) para saber se ele estava curado. Era isso que queríamos ouvir. E ele está! Está bem e vivendo a vida dele normalmente, claro que agora com um olhar diferente.

Nunca achamos que esse tipo de coisa irá acontecer com a gente, mas acontece, e não é fácil. Nunca mais fui a mesma depois disso. Tive que amadurecer mais rápido do que todos os meus amigos, e me sentia na obrigação de segurar a barra para o meu irmão caçula. Hoje sinto que sou uma pessoa mais forte e ao mesmo tempo mais fria. Com tudo isso que vivi, aprendi literalmente a viver o presente. Pois em um segundo, tudo pode mudar.

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