O Tempo | Suspensão de eventos, como casamentos, gera sofrimento e prejuízo

Joseani Aparecida Alito
Oct 6 · 5 min read

Pandemia interrompe realização dos mais variados eventos, angustia afetados e derruba faturamento de empresas e trabalhadores

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Luna e Rafael tiveram que inverter os planos e se mudaram para o apartamento deles antes do casamento, que precisou ficar para o ano que vem

Estava tudo certo: cada detalhe havia sido minuciosamente planejado, amigos que vivem no exterior já haviam comprado passagens, empresas estavam contratadas. No dia 2 de maio, Luna Stein, 31, e Rafael Vicopulos, 33, iriam trocar alianças e celebrar com suas famílias um enlace amoroso que completará dez anos em outubro. “A gente vinha cuidando de tudo com muita entrega, fazendo planilhas para tudo, pesquisando sobre e comparando fornecedores… Sou uma virginiana raiz, sabe?”, comenta ela em referência ao zelo e apego à organização atribuídos a esse signo na astrologia. Então, veio o imponderável: a pandemia da Covid-19 tornou impossível que celebração acontecesse.

É uma história comum a pelo menos 61% daqueles que planejavam seus casamentos desde março, conforme pesquisa do site especializado em matrimônios iCasei, feita em maio. O estudo também aponta que 41% dos noivos admitem incerteza em relação aos próximos meses, e 32% ainda estão esperando um pouco mais para decidir se vão ou não adiar a cerimônia.

Além das celebrações de enlaces amorosos, outras ocasiões dotadas de reverência também precisaram ser adiadas e até canceladas. Todavia, não há uma estatística que dê conta de como o novo coronavírus impactou outros eventos especialmente marcantes na vida das pessoas, como a diplomação depois da conclusão de um curso ou as festas de formatura.

Ainda que soe pequeno perante as dimensões da tragédia, que registra mais de 75 mil óbitos, de acordo com dados oficiais atualizados nessa quarta-feira (15), é certo que o adiamento e o cancelamento de ocasiões encaradas como marcos simbólicos são fonte de sofrimento. Foi o que sentiram Luna e Vicopulos. Em um primeiro momento, se perceberam abatidos pela frustração. “Quando chegou o 2 de maio, foi um chororô! Minha sogra brincou que nunca tinha me visto tão triste”, recorda.

O casal precisou respirar fundo e se recompor para, então, atravessar uma rotina de estresse até que conseguisse reagendar uma data para a cerimônia — diga-se, a novela foi longa até que se chegasse a um dia que funcionasse para eles e também para os 18 fornecedores contratados, sem prejuízos para ninguém. Em paralelo, decidiram manter os planos de dividir o mesmo teto — também um processo conturbado, pois tinham sido aconselhados a não comprar utensílios e eletrodomésticos antes de verem o que iriam ganhar dos convidados.

Ganhou contornos simbólicos e de alguma maneira foi capaz de reconfortar Luna e Vicopulos um acaso do destino: o casamento, agora, está marcado para 27 de março de 2021, data em que celebram um ano morando juntos.

Experiência é próxima à de um luto

“Ao furtar de nós experiências simbólicas, a pandemia causa uma sensação muito próxima à de luto”, explica a psicóloga clínica Leni de Oliveira.

“Normalmente, ao fechar e ao iniciar novos ciclos em nossas vidas recorremos a rituais. Sem essa dimensão ritualística, o processo de elaboração daquela mudança fica prejudicado”, situa. “Eventos como casamentos ou formaturas possuem um sentido simbólico, um significado. Sem eles, fica a sensação de que não algo não terminou e, portanto, não há o que começar”, pontua a psicoterapeuta.

Palavra-chave para a lida com o sofrimento desencadeado pelo cancelamento ou adiamento de marcos fundamentais é a ressignificação, defende a psicóloga.

“Para sair desse processo de sofrimento, de luto, é fundamental dar um novo sentido, colocar uma outra energia nas coisas”, aponta Leni. Lembrando que, neste momento, muitos podem precisar de ajuda para se repensarem, pois podem não ter repertório para fazer isso sozinhos. “A terapia se torna uma ferramenta para auxiliar nesse processo. Inclusive, tem havido um aumento da procura de pessoas buscando ajuda para lidar com as dificuldades apresentadas, como aquelas financeiras e simbólicas… Já tem gente sofrendo com o fato de não conseguir, por exemplo, reunir a família no Natal”, cita.

Trabalhadores e empreendedores do ramo de eventos perdem renda e precisam se reinventar

Especialmente preocupante é a situação de trabalhadores e empreendedores que trabalham no ramo de realização de eventos e que, desde março, viram seu faturamento ir a zero. Em Minas, mais de 200 empresários e 30 entidades se organizaram na iniciativa Movimenta-SE para formular novos protocolos de segurança e cobrar respostas do poder público. E, ainda sem vislumbrar um caminho possível, muitos buscam se reinventar e buscar outras fontes de renda enquanto nutrem a esperança de que o pior passe logo.

Caso da decoradora de arte com balões Claudimara Amaral, 44. Atendendo a cinco empresas especializadas em bufês de Belo Horizonte, já em janeiro ela estava com agenda lotada até o final do ano.

“As expectativas eram muito boas, e, por isso, decidi comprar um carro, algo que vinha adiando até que estivesse mais estável financeiramente”, conta. A pandemia, no entanto, frustrou seus planos.

Habituada a uma rotina atribulada, de muito trabalho, a empreendedora viu crescer em si uma sensação de angústia. Quando entendeu que a crise não passaria tão rapidamente como, a princípio, havia imaginado, tentou devolver o carro, mas mudou de ideia. Há quatro semanas Claudimara vem trabalhando como motorista de aplicativos.

“Com esse trabalho consigo recuperar apenas 20% do que ganharia, mas, só de estar fazendo alguma coisa, sinto-me aliviada”, garante.

O publicitário Diogo Kfoury, 33, também precisou se reinventar. Organizador de 15 eventos anuais em Belo Horizonte, entre eles o Festival Internacional de Cerveja e Cultura (Ficc), e à frente do LayBack Park, um espaço de lazer que reúne oito restaurantes, ele imaginou que a paralisação das atividades econômicas fosse durar até dois meses.

“Já estamos no quarto mês e ainda diante de um cenário de incerteza, não sabemos quando poderemos voltar”, relata.

Kfoury vem recorrendo a programas governamentais de apoio às empresas para evitar a demissão de funcionários. Por enquanto, não teve baixas, mas, diz, se a reabertura ainda estiver em um horizonte distante, não conseguirá manter a equipe.

Para atravessar o período de forma menos danosa, o publicitário valeu-se da experiência acumulada no ramo da gastronomia e adaptou negócios para o formato de delivery. “Até o escritório virou pizzaria”, conta ele, que, no momento de crise, criou a Confraria 269. No caso dos eventos, somente o Ficc será mantido neste ano, sendo reformulado para o ambiente virtual.

“Vamos seguir essa tendência, mas buscando trazer alguma inovação e, como nas últimas seis edições, com foco na produção local”, estabelece.

Matéria Original — www.otempo.com.br

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