Sobre as trilhas incertas da vida

Esses dias, vi meu nome impresso na dedicatória de um livro. Não aquela escrita à mão pelo autor, mas naquela dedicatória que os leitores finais veem e ficam imaginando quem seriam aquelas pessoas, e o que elas teriam feito de tão importante para merecer que um autor dedique seu trabalho.

Sem falsa modéstia, essa nem foi a primeira vez — a primeira, que também partiu da mesma pessoa, passou-me quase despercebida, muito provavelmente pela sensação pessoal de dever cumprido do que qualquer outra coisa. Mas foi dessa segunda vez, na dedicatória de um livro de fantasia infanto-juvenil, que o fato me colocou a pensar.

O livro é Anna e a trilha secreta, de Ana Lúcia Merege, e foi publicado pela Editora Draco no mês de agosto de 2015. Para quem não conhece, Anna é a protagonista da série Castelo das Águias, publicada pela mesma editora. A história se passa em Althergard, um universo habitado por seres fantásticos, onde a magia se manifesta, é aprendida e domada, e onde espíritos totêmicos coabitam com jovens aspirantes a bardas.

É um livro muito inspirado. O texto de Ana Lúcia é bem cuidado, fluido, assim como a sua narrativa. Os elementos se amarram, justificando sua presença, como em uma tapeçaria muito bem planejada. Ao seguir um de seus fios, você sabe que ele se entrelaça em vários outros, quase perdendo-se em outras cores, em outras histórias. Mas ele chega a um fim, e o leitor, ao terminar a jornada, sente que alcançou uma evolução, um propósito. A jornada da adolescente Anna é, também, uma jornada de auto descoberta, de aprendizado, de olhar para si mesma e reconhecer suas diferenças, suas qualidades e defeitos, abraçá-los e saber que, com todos esses traços que nos compõem — e às vezes apesar deles — ela tem propósito no mundo e precisa sair de sua zona de conforto para conhecê-lo.

Tudo parece dar errado na vida da jovem Anna, e tudo em um dia só. Ela se sente diferente dos outros, tão deslocada, tão incompreendida. Nem mesmo seus refúgios habituais estão disponíveis a abrigá-la — sua prima Maryan, professora do vilarejo onde vive, está ocupada; sua avó, por melhor intencionada que esteja, não parece capaz de entender todo o seu desconforto. Por uma conjunção de fatores, Anna se vê indo ter com seu primo Zendak, o elfo xamã da tribo e seu primo. A pedido de Maryan, ela leva uma bolsa de talismãs para entregar-lhe, bolsa que lhe é roubada pela Coruja, que desaparece nas copas das árvores da floresta. E aí começa a jornada de Anna.

Seguindo pela Trilha, a jovem se depara com vários desafios. Encontra espíritos, conversa com eles, ajuda-os em tarefas corriqueiras e, no processo, aprende muito sobre si mesma. Anna aprende o valor das histórias, a importância delas não apenas para seu povo, mas também o quão importante é manter e contar nossa própria história.

E por isso resolvi contar a história de como eu conheci Ana Lúcia, seguindo em uma dessas trilhas tortuosas da realidade. Fui incumbida de revisar o texto do primeiro romance de Anna e Kieran, O Castelo das Águias (também da Editora Draco). Deparei-me com o que considerei, à época, um romance de fantasia mediano. Contava com uma narrativa muito boa, uma escrita bem cuidada — o que me rendeu muito pouco trabalho — mas uma protagonista que não fazia o meu tipo de personagem, e um romance “girl meets boy”.

Por algum motivo que até hoje desconheço, trocamos contato. Passamos a conversar por programas de chat, conheci a pessoa de Ana Lúcia, descobri mais sobre seus universos ficcionais. Fiz uma viagem às paragens cariocas, hospedei-me uns dias em sua casa, testemunhei os efeitos que uma partida de War pode causar em uma família bem estabelecida, escrevi meu primeiro conto publicado em coletânea. Dei solidez a uma amizade que posso chamar de, no mínimo, inusitada. E deliciosamente duradoura.

Como pensar que aquele texto que recebi seria o ponto em que o fio da minha história se cruzaria com o dela, compondo uma parte cosmicamente insignificante da grande tapeçaria que nos cerca? Não há como, não haveria maneira de antever isso. Assim como a vida, afinal. Até tenta-se, mas não se controlam as consequências de alguns eventos. Pois tortuosas e imprevisíveis são as trilhas da vida, mas mais narrativas do que escapa ao nosso olhar.

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