You again

Ela dançava ao som de nenhuma música.

Suas pernas torneadas, com o leve brilho do suor, faziam passos leves para um lado e para o outro sobre o piso de cimento da quadra de basquete sem uso em que estavam. As risadas e os comentários grogues dos seus amigos à sua volta é que lhe embalavam. Claro que Gabe estava com o violão a alguns metros dali, mas ela não estava realmente prestando atenção.

Amy, sua melhor amiga desde que se lembrava, juntou-se à ela no centro da quadra e, tentando equilibrar o copo que seguravam, para que não derramasse nem uma gota de sua bebida, riam até a barriga doer. Inventavam passos, e pareciam tentar sincroniza-los em meio à confusão. Riam a cada vez que erravam, e riam mais ainda a cada coisa ridícula que a outra fazia.

Eventualmente um dos garotos que não se lembrava o nome veio até elas para encher seus copos com o líquido transparente e forte que esteve bebendo desde às seis horas da tarde daquele dia. Era feriado prolongado, e ela deixou-se levar, abandonando momentaneamente todas as preocupações com faculdade e trabalho. Queria só curtir o momento, sem se incomodar se estaria sofrendo de algum nível de ressaca no dia seguinte; queria também esquecer que sonhara com a última pessoa que esperava sonhar em sua vida.

O rosto do cara que lhe fora a salvação e o tormento anos atrás ficara gravado em suas pálpebras o dia todo. Ligara para Lucas, o festeiro em potencial, e dissera que queria beber. Em menos de uma hora ele estava com o carro ligado em frente à sua casa, esperando-a para leva-la de encontro aos outros. Ali, naquela praça que era mais usada como ponto de encontro do que para jogos de verdade, como sugeriam as marcas de tinta no chão. Ficavam bem localizada, por ser em um bairro afastado do centro da cidade, perto de uma distribuidora de bebidas, e a ceu aberto. Ceu, esse, que estava tão limpo quanto poderia estar às duas e pouco da manhã, estrelas brilhando como refletores de baixa potência ao longe.

Como se não bastasse ter visto-o toda a vez que fechava os olhos durante o dia, achou tê-lo visto quando foram até a distribuidora buscar mais algumas bebidas e pacotes de salgadinhos para mantê-los de pé. O homem com quem confundiu tinha os mesmo cabelos pretos e curtos, estilo militar, o mesmo porte magro e forte, a mesma mania de parar em qualquer lugar para mexer no celular. Quase abordou o rapaz, se não fosse por algum outro sujeito tê-lo chamado, fazendo-o se virar e ela perceber que não era a mesma pessoa.

Depois disso bebeu mais do que estava bebendo, o que a levou para o centro da quadra, onde estava agora, para tentar tirar aquilo da cabeça. A dança veio quase como consequência.

- Ei, gurias, que tal uma boate agora, em? Dá até mais emoção que essa falta de música boa! — Lucas, o pentelho, gritou na direção delas, jogando um copo vazio em Gabe em seguida, que estava tentando dedilhar algo que ninguém reconhecia. Amy riu sem se incomodar.

- Vai você, Lu! — ela rodopiou uma outra vez, antes de se jogar no chão, os joelhos dobrados para cima, fazendo a luz da lua brilhar contra suas coxas, deixando cada detalhe de sua tatuagem de lobo à mostra. As duas riram. — Eu e a Kate aqui não temos forças nem para andarmos até aí, imagina dançar com várias pessoas nos trombando.

Katarina riu, sentando-se calmamente ao lado da amiga. O que pensou ser calmamente na verdade foi um pouco bagunçado, empurrando a garota no processo, quase caindo por cima de seu corpo, provocando ainda mais risos nas duas. Lucas e o resto estavam sentados nos degraus do que seria a arquibancada, e alguns mal prestavam atenção nelas, fumando cigarros e baseados, passando a garrafa de bebida entre eles, rindo alto e ouvindo pouco.

Havia muito que a garota não fazia nada ilícito fora o álcool, e se irritou mais uma vez em lembrar que fora por causa da mesma pessoa que tentou evitar em pensamento o dia todo. Porque tinha que se lembrar dele tão frequentemente, assim, do nada? Porque tinha que se lembrar de quando ele a ajudou a superar a maioria de seus problemas familiares e consigo mesma? É claro que isso fora antes dele chutá-la para ficar com uma de suas amigas, alegando que ele gostava sim, dela, mas que se continuassem ambos iriam sofrer.

Ela só queria esquecer, mas por mais forte que aquela bebida que lhe serviram fosse, não parecia ser o suficiente.

Arthur. O nome dele era Arthur, pensou Katarina, com um estalo. Não esquecera o nome dele, nunca, mas com o tempo o incomodo da rejeição parou de lhe ser um peso. E por mais que ela ainda lembrasse das coisas que ele havia dito para ela, anos atrás, que lhe ajudaram a sair do buraco, pareciam sempre vir de outra pessoa, outra situação e circunstâncias. Fora apenas o maldito sonho, do qual mal se lembrava direito, que desencadeara todas as memórias dela com o garoto, como se estivessem vidas, como se tivessem sido vivenciadas poucas horas atrás, e não há mais de cinco anos.

Já fazia tanto tempo que eles não se viam?

Eles foram convidados para o mesmo almoço, uma vez. É claro que ela viu isso depois, pelas fotos que os amigos em comum postaram. Ela não se lembrara bem do que havia inventado para não a tal comemoração, e se sentiu quase livrada de um constrangimento. Não tinha vergonha dele, e nem do que tiveram, só imaginava que seria estranho reencontrar a pessoa que lhe fizera bem e mal em praticamente iguais proporções numa ocasião informal e despreocupada.

- Você parece muito pensativa para alguém que bebeu tanto. — Amy murmurou ao seu lado. Percebeu que esteve olhando para cima por muito tempo, seu pescoço levemente dolorido. Baixou os olhos em direção à garota de cabelos ruivos e um sorriso enorme, observando a luz lunar bater contra o piercing em seu septo e smile.

- Também acho.

- Tá pensando em quê? — quis saber a garota, forçando até estar sentada quase de frente para a outra. Desse ângulo Katarina podia enxergar todas as nuances de pele clara que Amy tinha, todas as marcas de expressão que lhe deixavam ainda mais característica. Levantou a mão e sacudiu seus cachos para longe de seu pescoço, sentindo um pouco de calor subitamente, desconfortável.

- Por incrível que pareça, no Arthur.

Emily lhe encarou por um momento, os olhos cor de avelã curiosos e cautelosos contra os de cor verde folha da garota. Katarina sorriu pela expressão da amiga e mordeu o lábio inferior levemente. Era uma das únicas que conhecia todos os detalhes de sua história, todas as nuances, todos os altos e baixos. Sempre achou Arthur um cara ok, e ficou até mesmo confusa quando eles simplesmente terminaram.

- E? — quis saber.

- E nada. Só surgiu na minha cabeça, como se fosse um filme, durante o dia. — comentou, preferindo deixar de fora a parte do sonho, que já parecia bizarro demais até para ela mesma. — Eu não o vejo há muito tempo, mesmo. Deve ter sido só algo que eu vi ou fiz ontem ou hoje. Nada demais.

- Nem vem com essa de “nada demais”. — Amy fez aspas com os dedos ao lado da cabeça, provocando um sorriso em Kate. — Esse tipo de coisa não desencadeia porque você viu o filme que assistiu com ele na primeira semana de namoro, dá um tempo. E esse tipo de lembrança de qualquer outra pessoa não te traria aqui para beber vodca pura e falar sobre a teoria das cordas com um bando de pessoas com as quais você quase não sai mais.

Kate levantou as sobrancelhas para a amiga, e não conseguiu se impedir de rir. O álcool ainda devia estar em suas veias para levar o mini discurso da amiga tão na boa.

- Relaxa, Amy. Não é como se…

- Aquele cara está olhando pra cá.

A voz preocupada — o máximo que o estado de embriaguez permitia — de uma garota sentada entre Lucas e outro rapaz na arquibancada fez Emily e Kate se virarem na direção em que ela olhava. Do outro lado da quadra havia um portão grande, que se abria no meio, e por conta das grades não bloquearem a visão como o baixo muro de cimento fazia, elas puderam ver uma moto estacionada no meio fio, com o motorista sobre ela ainda, o capacete escondendo sua identidade, a roupa preta fazendo um leve efeito na luz da lua.

Katarina enrijeceu levemente, quando Amy forçava a visão para tentar identificar quem estava em cima da moto. Mas Kate não precisava disso. Conhecia aquele porte bem demais. A moto podia ser nova, assim como o capacete e as roupas, mas ela duvidava que as pessoas mudassem tanto em seus trejeitos para ela estar errada.

Era Arthur, ela tinha certeza.

Ficou de pé, perdendo um pouco o equilíbrio ao tentar fazer isso rápido, quando ainda tinha álcool em suas veias. Emily foi mais demorada, mas Kate estava tão parada, os olhos fixos no homem há alguns metros dela, que não se preocupou em se apressar.

- É ele, não é? — quis saber, baixinho.

- Quem é ele? — Lucas quis saber, indo para perto das duas.

- É. — Kate respondeu silenciosamente. Lucas franziu o cenho pra ela, voltando seus olhos rapidamente para Amy. Sem tirar os olhos da melhor amiga, ela fez um sinal para o garoto, pedindo que ele se afastasse. Lucas bufou mas saiu, voltando ao seu lugar, sabendo que Amy lhe responderia o que quisesse mais tarde.

- E o que você vai fazer? — a ruiva perguntou para a garota, que alisou os braços nus como se de repente sentisse frio, sendo que o vento era nada além de morno, e a sensação térmica beirava perto dos 28 graus.

- Não sei. — ela suspira, soltando o ar calmamente. Estava agindo como uma louca, era só seu ex namorado parado lá. Um ex namorado que lhe causou as emoções mais extremas que já sentira do prazer à dor, mas ainda era apenas ele. E sua inseparável moto.

Emily abriu um sorriso de canto e se inclinou em direção à amiga, jogando os cabelos da mesma para o outro ombro.

- Eu sei o que eu não faria: ficar parada feito idiota lhe encarando. Eu sei o que você quer, e você também sabe. — Kate, pela primeira vez desde que percebera a presença do rapaz voltou seus olhos para sua ruiva — Não pensa em nada, Kat. Nada te prende, de forma alguma. Vá, vá se divertir o que não consegue fazer aqui.

Sorriu, sentindo as palavras da amiga penetrarem fundo em seu corpo, lhe dando energia. Abraçou levemente a garota e, confiante em seus shorts curtos e desfiados, sua regata meio transparente e seus tênis coloridos, caminhou em direção à moto.

+ + +

- Me surpreende te encontrar justo hoje. — comenta ele antes que ela se aproxime totalmente de sua moto. A voz límpida e clara como ela lembrava. Ele ergue os braços, forçando levemente os músculos contra a camiseta preta justa, e retira o capacete, deixando seu rosto totalmente à mostra. O sorriso ainda é o mesmo, constata Katarina, e ela sabe que os olhos ainda enrugam quando ele ri, o queixo ainda tem o furo, e ele ainda fica vermelho facilmente.

Ela sorriu, levando os braços às costas, impendido seu corpo de agir como sempre quando estava nervosa: parecendo com braços demais e nada para fazer com eles.

- Essa fala deveria ser minha, acredito.

- E porque você acha isso? — ele apoiou o capacete no motor da moto, apoiando seus braços sobre o material duro. Parecia relaxado, tranquilo.

- Porque você não costumava vir à esse tipo de lugar.

Ele sorriu, mostrando uma covinha na bochecha esquerda, abaixando a cabeça, enquanto passa a mão por seus cabelos espetados.

- As coisas aparentemente mudam, não é mesmo? — ele pergunta de forma retórica, e a garota apenas lhe encara. Os olhos verdes dela observam o caramelo claro dos olhos dele, enquanto ele observa o pessoal na quadra. Ela quase pode sentir o olhar de Emily sobre si, quase pode ouvir ela gritando para que ela suba naquela moto com ele e vá ser feliz. Segura um sorriso, quando ele volta os olhos pra ela. — Tá a fim de dar uma volta?

- Pra onde você vai me levar? — ela levanta as sobrancelhas pra ele, enquanto ele desce da moto e levanta o banco. O sorriso dele é quase brincalhão, uma mistura entre provocativo e alegre.

- Para uma volta nos nossos velhos tempos. O que você acha? — ele tira de dentro do banco um capacete extra, que estende para ela. Seus olhos cintilam, e ela percebe a duplicidade em suas palavras. Ela percebeu claramente a intenção dele. Talvez ele tivesse pensado nela durante aquele dia também. Quem sabe ele tivesse revivido tudo os que eles viveram anos atrás. O sorriso se espalhou de forma curta no rosto da garota. Ele percebeu a hesitação, mas seu sorriso não diminuiu.

- Eu era um idiota. Ok? Você sempre soube, e eu só percebi isso tarde demais. — ele voltou a estender o capacete na direção dela. — Quero fazer certo dessa vez.

- Dessa vez? — ela pergunta, mas há um sorriso em sua voz, leve e zombeteiro. Ele sorri abertamente de volta.

- Quer dar uma volta comigo? — ele repetiu a pergunta, e dessa vez a garota aceita o capacete, prendendo-o logo abaixo do seu queixo.

Arthur subiu na moto outra vez, ajeitando-se rapidamente e com desenvoltura. Katarina levantou a perna, passando-a para o outro lado da máquina, acomodando-se atrás do rapaz. Por um momento não soube o que fazer com suas mãos, mas Arthur se inclinou de lado, olhando-a através da viseira do capacete, um sorriso brilhante também em seus olhos, a mão estendida aberta na direção dela. Quando ela a segurou, ele a fez abraçá-lo, os dois braços ao redor de sua cintura. Ela percebeu quando ele soltou uma grande quantidade de ar, como se estivesse aliviado, ou algo assim. Sorriu, involuntariamente.

- Quero que saiba que senti sua falta. Muito. E hoje foi um dia absolutamente atípico; você parecia estar em cada momento dele.

Ela observou o movimento de seus ombros enquanto ele respirava. Não conseguiu encontrar palavras para responde-lo, então, quando ele deu vida ao motor sob suas pernas, ela o apertou gentilmente, segurando-se firme contra o corpo forte do rapaz, e beijou suas costas. Sentiu sob suas mãos em seu peito e barriga, mais do que ouviu quando ele sorriu outra vez, o coração levemente acelerado.

A próxima coisa que sentiu foi o vento contra seu rosto e corpo, a sensação de liberdade e paz que buscara o dia todo.

Sentira falta dele, também.