You, for life

Eu me apaixonei.

Nem acreditava mais sobre esse tipo de coisa, sendo eu quem eu sou.

Além de grossa com a maioria das pessoas, e estúpida na maior parte do tempo, eu era capricorniana.

Grossa, fria, e chata, além de capricorniana. Como diria meu melhor amigo, eu era o caos na terra, assim como qualquer mulher nascida entre dezembro e janeiro, mas eu não ligava. Porque a fria e grossa aqui tinha se apaixonado.

Era incrível, e absurdamente apavorante.

Mas é claro que eu não deixei de ser eu: o mandei se foder depois de algumas horas de tê-lo conhecido. Nunca deixei de ser quem eu realmente sou por ter me apaixonado por ele, que era o meu segundo maior medo na infância. O primeiro era me apaixonar, como um todo. Óbvio.

Isso só aconteceu porque eu deixei de acreditar, da mesma forma que o início da música The Only Exception, mas sem a maldita exceção, até então. Eu vi meus pais se separarem cedo, e vi minha avó largar meu avô por causa das bebidas. Vi os pais das minhas amigas se separando também, e vi meu irmão mais velho trocar de namorada mais rápido que eu de opinião. Na minha mente infantil eu vi que na verdade o amor era um jogo, feito apenas para os corajosos, talvez. Quando cresci eu deixei de vê-lo assim, mas nunca o vi de forma real, como se houvesse uma possibilidade de existir.

Isso não quer dizer que eu fosse santa, ou puritana. Eu tenho vinte anos, afinal de contas, e já fui iniciada em todos os rituais adolescentes e jovens, durante minha vida, desde a brincadeira do copo e os cinco minutos no ceu, até as fileiras de doses com 19 copos cheios de vodca pura ou uma rapidinha no banheiro da boate. A maioria foi inicialmente forçada por algum dos meus amigos, mas depois eu sabia que me levaria a fazê-los sozinha. Eu sabia curtir a vida, achava. Sabia viver intensamente.

Nos conhecemos em fevereiro. Era fim do mês, e eu estava no autódromo da cidade, acompanhando a primeira etapa de uma corrida, tirando fotos de uma das equipes. Ele estava como amigo da equipe, e patrocinador dela. Confesso que não prestei muita atenção nele, especificamente. Eu estava à trabalho, e gostava do clima de adrenalina que pairava pelo lugar, o barulho dos motores, as conversas altas e a correria para deixar todos os carros prontos para o dia. Era sábado, dia de treinamento, e a primeira lembrança de contato direto com ele foi o fato que ele quase me atropelou.

Tá, não foi bem um quase atropelamento. Ele e outro rapaz foram buscar almoço pra nós, os mecânicos, eu, os pilotos e os agregados. Eu estava na beirada no box de número 24, quando ele avançou com o carro para cima de mim, fazendo o carro balançar no tranco leve. Eu pulei para o lado, quase escorregando no piso molhado pela chuva. Depois que eu descobri que era o outro cara que dirigia seu carro, e ele estava no banco do passageiro, sem reação aparente. Não nos falamos, mas ele ficou me olhando depois disso. Achei que fosse por causa do que poderia ter acontecido ali, mas descobri depois que não tinha nada a ver com aquilo.

Mais tarde ele pediu meu número. Eu lembro claramente da cena porque foi onde eu cai.

Não de amores por ele, não. No chão mesmo, no meio da pista de acesso aos boxes. Na chuva.

Foi lindo.

- O que houve? — perguntaram lá dos boxes, aos gritos, chamando a atenção de quem estava nos boxes vizinhos e não tinham ouvido a gargalhada dele ainda.

- Ela ficou emocionada com o meu charme! E eu só pedi o telefone dela! — ele ria alto, me fazendo revirar os olhos, ainda no chão úmido, mas não conseguindo segurar o sorriso em meus lábios também. Esse era o primeiro vestígio do que aconteceria comigo: tinha chovido, a pista estava úmida, eu estava carregando minha câmera, que podia ter estragado no tombo, e ele ainda estava curtindo com a minha cara. Mas eu não fiz nada, apenas sorri, levantei por conta própria, mesmo que ele tivesse oferecido ajuda em meio ao riso, e voltei para dentro dos boxes, sendo prontamente atendida por Junior, um dos pilotos.

Eu estava legal, nada demais em escorregar e cair, mas o fato dele ter insinuado aquilo já tinha começado a me deixar encucada, mas ainda não tinha me dado conta de nada.

Sinceramente, ele não era feio. Eu sabia que não. Tinha o rosto anguloso, uma barba rala mas atraente pra mim, cabelo levemente encaracolado, curto e escuro. Era um palmo mais alto que eu, talvez um pouco mais. Tinha porte de quem não ia regularmente à academia, ou fazia exercícios físicos, mas não era algo que me incomodava, já que eu mesma não faço exercícios físicos regulares. Tinha um sorriso bonito, e olhos curiosos, examinadores. Quando pediu meu número foi incisivo, sem rodeios. Sabia o que queria, e conseguiu.

De sábado para domingo conversamos muito. Nós dois tínhamos que acordar cedo para a corrida, mas conversamos até tarde da madrugada. De manhã, ao vê-lo, eu evitei seus olhos. Já não era mais o segundo vestígio, mas era um claro, e me fez começar a perceber o que estava acontecendo comigo. Durante toda a corrida eu me esquivei dele. Fugia para o outro lado quando ele se aproximava sem intenção de falar comigo, mas perto o suficiente para sentir o perfume que ele usava. Por algumas vezes subi à área VIP, naquele dia cheia, para que pudesse respirar um pouco. Me sentia nervosa, pilhada, quase angustiada com ele por perto, como se ele conseguisse me tirar de mim com um toque. Fingi que não sabia o que era aquilo, que não conhecia o sentimento, talvez ele sumisse. Era como se nomeá-lo pudesse torna-lo real. Eu tinha ouvido sobre as borboletas no estômago pelas minhas amigas, mas achei que fosse pura bobagem.

Ah, se eu tivesse acreditado.

Naquela noite ele insistiu em levar algumas pessoas pra casa, eu dentre elas. Não tinha como eu voltar sozinha, não tinha carona, então aceitei. Ele me levou por último. Meu coração palpitava em meus ouvidos, e eu tinha certeza que minha pressão sanguínea estava baixíssima, porque eu me sentia tonta, mole. Era ridículo, patético, mas eu não podia controlar. Ele não tentou nada, mas disse que queria me ver ainda naquela semana. Sem que eu pudesse contradizê-lo, ele disse que me buscaria na faculdade na terça-feira, me avisaria por mensagem quando estivesse chegando.

Não preciso dizer que tive uma crise de ansiedade como nunca antes.

Pedi conselhos à uma amiga que trabalhava comigo, e ela me disse para ter calma, mas foi tudo o que eu não consegui ter. Na terça-feira eu estava apavorada, nervosa demais pra acreditar que aquilo estava realmente acontecendo. Eu estava apaixonada, e era real. O sentimento que eu achei ser uma falsa, um produto publicitário de alto padrão usado para o marketing de lojas de perfumes era real, e estava me consumindo de dentro pra fora. Seu sorriso quando entrei no carro naquela noite não me ajudou a melhorar. Hiperventilei por metade do tempo, e a outra metade estive presa em seus olhos. Ele conversou comigo com o mesmo tom com o qual pediu meu número de celular. Conciso, mas leve. Insistente, persuasivo, mas doce. Ele sorria e tocava meu rosto, ria e segurava minha mão. Estacionou perto de uma praça, num bairro calmo, e virou-se para mim no banco.

- Eu gosto de você. — ele disse, como se fosse simples pra ele admitir seus sentimentos daquela forma, sem hesitação. — Eu sei que parece loucura, porque nos conhecemos há quatro dias, mas eu realmente gostei de você.

- Foi meu charme — comentei, displicente — E olha que eu só mandei você se foder.

Sua risada foi contagiante, e eu não soube não rir de volta. Ainda era eu, afinal de contas. Ainda era a pessoa ácida, controversa e grossa. Nós dois sentimos que então a conversa se tornou mais leve, menos densa. Eu tinha conseguido romper a barreira do medo que me cercava, e ele se aproveitou disso. Não demorou para que ele se inclinasse até mim e me roubasse um beijo.

Eu esperava que aquilo fosse acontecer uma hora ou outra. Mas eu estava falando sobre como aquilo era loucura. Loucura porque tínhamos acabado de nos conhecer, eu nem sabia quem ele era direito. Ele me beijou, e eu esqueci do que estava falando. Esqueci onde estávamos. Esqueci quem eu era. Ele me beijou e eu senti meu coração irregular no meu peito, minha respiração acelerada, suas mãos em minha nuca, me puxando contra ele. Minhas mãos foram para o seu peito, e eu senti meu comportamento emocional replicado nele, as mesmas disfunções cardíacas, a mesma respiração trabalhosa. Aquilo era loucura, mas eu estava adorando.

Adorei matar outra aula aquela semana, enquanto sentávamos dentro do carro, com nossos lanches gordurosos enquanto ele me falava sobre ele, e eu respondia a cada pergunta que ele fizesse. Adorei quando ele decidiu que era exatamente aquilo que ele queria, então ele devia fazer direito, indo conversar com a minha mãe. Adorei cada momento quando chegava em casa da faculdade e ele estava me esperando assistindo tevê, ou terminando a janta. Adorei quando ele comprou um par de alianças, algumas semanas depois, e amei de paixão cada comemoração de aniversário de namoro.

Eu não acreditava que estava apaixonada, mas me fazia o favor de relembrar cada momento com ele, ao acordar, para me assegurar de que sim, estava apaixonada, e sim, eu o amava com todas as minhas forças.

+ + +

- Foi uma loucura insana viver tudo isso, todo nosso relacionamento relâmpago. Nos conhecemos no dia 27 de fevereiro, no dia 7 de março você me pediu em namoro, e hoje nós estamos aqui, no nosso ensaio de casamento.

Todos os rostos sorriam pra mim, nossos amigos íntimos preenchendo todo o espaço pequeno e aconchegante do café e restaurante. Ele tinha um sorriso ainda maior, um destaque todo especial e brilhante que não me faria confundir. Foquei meu olhos nele, como se não houvesse mais ninguém ao nosso redor, e eu estivesse realmente frente à frente com ele, e não do outro lado do salão, com um microfone em uma mão e uma taça de champanhe em outra. Sorri, como andara fazendo muito nos últimos tempos, quando estava com ele, e levantei minha taça levemente, em um brinde silencioso.

- Hoje eu reafirmo à você o que você já sabe, mas que ainda vai ouvir muito: eu amo você. Você é a coisa mais insana e maluca que eu já fiz na vida, mesmo que eu achasse que vivia intensamente. Então quero te agradecer, por ter isso àquele autódromo, por ter rido do meu tombo, e por ter sido persistente.

Quebrando o protocolo, ele se levantou e se juntou à mim no palco improvisado, me abraçando pela cintura.

- Eu que agradeço por tu ter se tornado essa mulher maravilhosa, e me permitido ver isso. Agradeço por te ter comigo, e por ter aceitado toda minha loucura e insanidade.

Nós sorrimos, como sorriríamos no dia seguinte em frente ao altar, eu de branco e ele de smoking. Sorrimos como sorriríamos quando nossos filhos nascessem, sorrimos como sorriríamos sempre que nos lembrássemos de momentos como aquele.

Eu, que nunca achei que me apaixonaria, casei e vivi a vida que nunca achei que iria viver.

Justo eu, que tinha deixado de acreditar.