Francisco: a versão 2.0 de Bento XVI

Por que a nova Encíclica comprova a sintonia entre os dois Papas


Por John L. Allen Jr.

Apesar das abordagens midiáticas contrárias e das mitologias que estão sendo criadas em torno do Papa Francisco, ele tem muito mais aspectos comuns com Bento XVI do que discrepantes. Na verdade, a melhor forma de apresentá-lo seria como “Bento 2.0”, uma vez que reapresenta as posições básicas de seu predecessor, mais cerebral, com um jeito mais acolhedor e popular.

O lançamento da tão anunciada Encíclica sobre o meio ambiente, Laudato si, pode muito bem ser a prova que faltava.

Antes de tudo, será que abraçar a luta contra a mudança climática ou pelo salvamento das florestas tropicais ou pela proteção do meio ambiente são posicionamentos contrários aos de Bento XVI? Pelo contrário, Bento XVI ficou famoso por promover a instalação de painéis solares sobre um salão de audiências do Vaticano e por ter feito do Estado do Vaticano o primeiro Estado europeu livre de produção de carbono, evidenciando, assim, suas fortes preocupações ecológicas.

Em um discurso ao parlamento alemão, em 2011 — um discurso, a propósito, que significava provavelmente mais para o pontífice alemão do que a maioria dos que pronunciou durante o pontificado de oito anos — Bento XVI afirmou que o surgimento do movimento Ecológico na Alemanha na década de 70 fora “um grito por ar fresco, um grito que não pode ser ignorado nem deixado de lado”.

É bem verdade que Bento XVI procurou abordar as questões ambientais de um modo católico, um tom verde diferente do usual, e o Papa Francisco tem dado sinais de que está pensando do mesmo jeito.

Na curta entrevista com os jornalistas que o acompanhavam no avião papal, de regresso da viagem à Bósnia, Francisco anunciou que sua próxima Encíclica sobre o meio ambiente tratará, entre outros aspectos, do relativismo, que descreveu como um “câncer da sociedade” (de modo análogo, Francisco também chamou o consumismo de “câncer”).

Relativismo é uma posição filosófica que sustenta que não há regras morais absolutas, porque tudo é relativo às circunstâncias particulares e individuais. No nível popular, refere-se a uma moral “vale tudo” em oposição ao ensinamento católico tradicional.

Pode parecer estranho Francisco utilizar um documento ambiental para levantar um debate sobre filosofia moral, mas é aí que ajuda compreender a mente de Bento XVI.

Para Bento, o ambientalismo secular é o caminho mais promissor para a recuperação de um forte sentido de “lei natural”, significando que a ideia de certo e errado, verdade e falsidade, são características reais que existem na natureza, as quais os seres humanos podem descobrir usando a razão e a consciência.

Muitos pensadores católicos, inclusive Bento XVI, temem que a lei natural tenha sido suplantada na mente popular tanto pelo relativismo como pelo positivismo, a ideia de que as leis morais são impostas pela autoridade humana, mais parecidas com “limite de velocidade” do que com “lei da gravidade”, algo inventado, ao invés de concebido pela natureza.

Bento acredita que o ambientalismo está levando as pessoas de volta à ideia de lei natural, porque prova que o limite sobre o que os seres humanos podem fazer não são arbitrários, mas absolutos, objetivamente reais.

“Todos podem ver hoje que… nós não podemos simplesmente fazer o que quisermos com essa terra que nos foi confiada, nós temos que respeitar as leis internas da natureza, dessa terra, se quisermos sobreviver”, Bento disse em 2007.

“A partir daí”, continua, “nós podemos aprender a escutar também a natureza humana, descobrindo leis morais que ficam acima do nosso próprio ego”. Bento chamou tudo isso de uma “passagem secular” para a formação da consciência.

Os comentários de Francisco sobre relativismo no sábado passado, indicam que é provável que ele faça um pronunciamento semelhante, tratando ambientalismo não só como uma causa social importante, mas também como um momento de ensinamento moral.

Alguém poderia continuar catalogando as ligações entre Francisco e Bento. Essa semana, por exemplo, Francisco devotou uma de suas homilias matinais a insistir que os cristãos não devem enfraquecer ou diluir sua identidade, alertando contra a influência de “Gnósticos modernos” e contra uma “religião insípida composta apenas de orações e idéias”.

Por meio da história da salvação, disse Francisco, Deus levou a Igreja progressivamente de “ambiguidades” a “certezas”. Se fechasse os olhos, você poderia facilmente acreditar que estava ouvindo Bento XVI.

Na maior parte dos assuntos de importância, o que mudou de Bento para Francisco não foi a letra, mas a música. Quando o Papa fala, ao invés de Wagner, as pessoas hoje parecem ouvir um ritmo latino picante, o que muitas vezes torna mais fácil digerir a mensagem.

Na semana passada, por exemplo, Francisco encontrou os bispos de Porto Rico no Vaticano, apresentando-lhes um discurso atacando de maneira contundente o casamento gay e a “teoria de gênero”, exatamente nos mesmos termos que poderiam ter sido usados por Bento XVI. Francisco fez isso, no entanto, enquanto convidava os bispos para se juntarem a ele no almoço, brincando que “um pouco de vinho vai soltar sua língua e você poderá me dizer a verdade”.

A verdadeira diferença entre os dois pontífices pode estar no alcance e na efetividade, não no conteúdo. Francisco conseguiu convencer uma ampla gama de pessoas, especialmente aquelas que estão fora da Igreja, de que ele valoriza as suas experiências e se preocupa com as suas perspectivas. Essa impressão torna-os mais propensos a ouvir suas opiniões com simpatia ao invés de ceticismo.

Cordialidade, em outras palavras, não apenas na forma e no tom. Ela também se traduz em poder, ou seja, na capacidade de moldar a opinião para conquistar os corações e as mentes onde outros falharam.

Laudato si parece destinada a ser o mais recente capítulo desta afinidade entre Bento e Francisco, cuja questão chave é se a apresentação mais encantadora de Francisco permitirá outra vez que a “versão 2.0” da mensagem tenha um impacto maior.

(Texto publicado em 14/06/2015 na revista Crux.)

(Veja também os demais artigos da Coleção Igreja Hoje.)

John L. Allen Jr. é editor associado da Crux, e é reconhecido como um dos maiores especialistas mundiais em Vaticano e Igreja Católica. Já escreveu nove livros sobre assuntos católicos.