Os obscuros “50 tons de cinza”

Uma boa oportunidade para conversar com seu filho


Por Sheila Liaugminas

Não importa como a série de livros “50 tons de cinza” veio a se tornar tão popular. Prefiro deixar os cientistas sociais desvendarem as causas e nos ajudarem a avaliar os danos em nossa cultura nas últimas cinco décadas. Mas pelo fato de ter se transformado em um filme com orçamento pesado, cuidadosamente rodado e produzido, astutamente propagandeado, a ser lançado no final de semana do dia dos namorados (uma ironia cruel) as pessoas precisam estar conscientes a respeito do que se trata. Muitos não estão. [Nota do tradutor: o dia dos namorados nos países do hemisfério norte, como os EUA e o Reino Unido, é comemorado em 14 de fevereiro].

Logo nas suas primeiras páginas, “50 tons de cinza” está seguramente situado no campo das ficções medíocres para o grande público. O leitor se depara com uma cena clichê e ao mesmo tempo bizarra na qual a protagonista descreve detalhadamente sua aparência no espelho. Continua com uma qualidade de prosa e caracterização dos personagens que não parece compatível com o grande sucesso do livro, se não fosse o fato de o gênero explorar as fantasias eróticas dos leitores — neste caso, as fantasias de centenas de milhares de leitores noturnos, ávidos por uma elaboração violenta do conto do amor proibido.

Um autor coloca a questão nestes termos: “Dois anos atrás, os vampiros estavam na moda. Agora a moda é a BDSM (sigla para designar uma classe de práticas eróticas baseadas na dominação, submissão, sadismo e masoquismo). Práticas eróticas não convencionais é o novo vampiro.”

Infelizmente, a BDSM de fato existe, ao passo que os vampiros não…

Esses pensamentos podem ser complementados pelas ideias de Miriam Grossman, com sua análise muito bem qualificada e fundamentada sobre os temas abordados no filme “50 tons de cinza”. Ela fala com autoridade de especialista a respeito de jovens leitores ávidos pelas lendas de amor proibido, mas desprovidos de um entendimento a respeito do amor verdadeiro. De fato, a doutora Grossman escreveu um série de quatro artigos para auxiliar os interessados a navegar neste campo minado. Trata-se de um guia de sobrevivência para os pais sobre como falar com adolescentes e jovens adultos a respeito do tema.

Há muitas questões a serem discutidas com esses leitores, pois eles estão completamente perdidos. O que eu quero e como eu consigo o que quero? Como eu lido com a pressão dos meus colegas e como sobreviver em uma cultura libertina? Existem consequências para o sexo, ou é apenas diversão? O que é normal? O que não é?

Esses leitores são jovens que se saem muito bem em outras áreas. Eles são bem sucedidos na escola e com os amigos; alguns deles são músicos e atletas talentosos. Mas e o romance? É aí que eles estão totalmente desorientados, e há muitas lágrimas, raiva e remorso.

Frequentemente, penso comigo: sei que estes jovens têm pais responsáveis, que os amam… mas onde eles estão? Mães e pais, avós, eu vos rogo: não importa o quão bizarro isso seja, vocês precisam falar com os seus filhos sobre a intimidade — ou seja, sobre o que é e o que não é. Não estou falando apenas de adolescentes, mas também de adolescentes que já são maduros, que saem com outros adolescentes.

Eis aqui a oportunidade perfeita. O presente de Hollywood para nós neste dia dos namorados é o filme “50 tons de cinza”. Com a propaganda milionária da Universal Pictures, e uma trilha sonora da Beyonce, seus filhos estão prestes a ser bombardeados com uma mensagem perigosa sobre o amor. Mas como isso pode ser considerado um presente?

“50 Tons de Cinza” ensina a sua filha que a dor e a humilhação são eróticos, e ao seu filho ensina que as meninas querem caras que controlam, intimidam e ameaçam. Em poucas palavras, o filme retrata o abuso físico e emocional como sexualmente estimulante para ambas as partes.

Você bem sabe que essas são mentiras atrozes, mas seus filhos podem não estar seguros disso. Se o mundo fosse um lugar melhor, eles não teriam que ouvir essas coisas brutalizantes. Mas este é o mundo em que vivemos.

A boa notícia é que você pode tirar proveito disso. Não se desespere, pois há aí uma chance de você se conectar com seu filho e ajudá-lo de um modo único. Toda referência da mídia ao filme é uma oportunidade preciosa, uma chance de avisar seu filho a respeito da manipulação em curso. É um prato cheio para uma discussão sobre relacionamentos doentios — como reconhecê-los e evitá-los.

Você pode se preparar para isso fazendo a seguinte lição de casa:

1. Informe-se sobre o enredo do filme e seus personagens principais, Christian e Anastasia — isso lhe dará credibilidade. Faça isso lendo uma sinopse, como a que está disponível no Wikipedia.

2. Identifique algumas oportunidades para um tempo privado e ininterrupto com seu filho. Talvez no carro, ou enquanto estão juntos na garagem ou na cozinha. Se você acha que não será possível, considere uma pequena recompensa, por exemplo “tem algo realmente importante que gostaria de lhe falar. Se você desligar o seu telefone por quinze minutos enquanto nós conversamos, te darei vinte reais”. Não há nada de errado nisso.

Meu objetivo é este: que no dia dos namorados você diga “Obrigado, Universal Pictures. Eu costumava adiar aquela conversa com meu filho sobre este tema difícil. Mas o filme “50 Tons” é tão extremo, tão absurdo, que tive que tomar uma atitude. E agora estou tão satisfeito por isso… pois nós tivemos uma das conversas mais importantes de nossas vidas.

Bom conselho. Pois esses jovens interagindo todo o tempo com as mídias e a cultura pop estão certamente confusos. Mas também seus pais. Eu recebi Patrick Trueman no meu programa esta semana. Ele é ex-diretor da seção de Exploração Sexual Infantil e Obscenidade do Departamento de Justiça, e atual presidente do Centro Nacional de prevenção à Exploração Sexual. Discutimos como sua organização está envolvida no combate ao uso frequente da pornografia violenta sob o disfarce da fantasia romântica. Ele disse que esse filme promove a tortura, o abuso e o sadomasoquismo, legitima a violência doméstica, e, particularmente, a violência contra a mulher.

No mesmo dia, uma amiga entusiasmada com o planejamento de seu casamento contou-me, ansiosa, sobre duas mulheres conhecidas suas que estavam planejando ver o filme no dia da estreia. Uma delas é a sua futura sogra. A outra uma colega que trabalha em um abrigo para mulheres que sofreram abuso. Esta é, declarou minha amiga, a extensão da total ignorância das pessoas a respeito da realidade atroz e perversa retratada neste filme. E isso reforça a necessidade que temos de informar o máximo de pessoas que pudermos.

(Texto publicado em 06/02/2015 na revista eletrônica Mercatornet)

(Veja também os demais artigos da Coleção Igreja Hoje.)

Sheila Gribben Liaugminas é uma jornalista norte-americana ganhadora do prêmio Emmy. Ela cobre assuntos de fé, cultura, política e mídia.