Pius PP. XII

A verdade sobre este grande Papa do século XX



Por Stefano Magni

Pio XII, um “Schindler no Vaticano”? O lançamento do novo filme-investigação “Sombras da Verdade”, todo construído em torno do papel do Papa Pacelli no resgate de 800 mil judeus do extermínio nazista, reacendeu uma velha controvérsia histórica que nunca diminui.

No filme, Pio XII é representado com uma estrela amarela no peito (a mesma dos judeus deportados). Entrevistado pela Corriere della Sera, Marcello Pezzetti, diretor científico da Fundação Museu do Holocausto, reagiu mal à tese do filme: “Como sustentar que Pio XII salvou 800 mil judeus? Nem sequer é uma interpretação, é outra coisa completamente diferente, é simplesmente uma tese de cunho ideológico. Em suma, não chega a ser escandaloso. Mas está fora do lugar”. Em suas palavras ecoaram o estereótipo do “Papa de Hitler”, que “não condenou o nazismo” e manteve-se em silêncio diante do Holocausto. A tese de Pezzetti e de muitos outros historiadores progressistas, no entanto, é contestada por um outro historiador e diplomata israelense, reportado no mesmo artigo do Corriere, Pinchas Lapide: ele foi o primeiro a estimar o número de judeus salvos pela Igreja durante a Segunda Guerra Mundial.

Pinchas Lapide

Nesta debate sem fim, La Nuova Bussola Quotidiana entrevistou o historiador Vittorio Messori, que se define de imediato “mais cansado, do que contrariado. É o caso mais de se bocejar, do que de se indignar. As coisas que agora vou dizer, já as disse e repeti há cerca de trinta anos. E já na década de 80 pareciam velhas e obsoletas. Porque agora tudo está claro, eu não sei quem e por que motivo continuam com certas acusações contra Pio XII, às quais, aliás, têm se somado outras mais recentes”.

Como nasceu o estereótipo de “Papa de Hitler”?


Até o surgimento da peça teatral Il Vicario (O Vigário), em 1963, era unânime a admiração e gratidão do mundo judaico por Pio XII. Por isso, foi criada uma campanha de difamação muito bem pensada. Inclusive, comprovou-se que “O Vigário” foi financiada pelos serviços secretos da União Soviética, como parte da sua luta anticlerical. Entre os documentos que conservo, está um manifesto publicado em maio de 1945, pelos judeus de Turim, recém saídos da clandestinidade. Assim era a mensagem da comunidade judaica: “Agradecemos de coração ardente o arcebispo Fossati e todo o mundo católico. Qualquer um de nós que tenha sido salvo, deve-o à intervenção caridosa da Igreja”. E em todos os lugares, não só em Turim, encontrava-se este sentimento de gratidão dos judeus pela Igreja.

Lápide no Mosteiro de Tre Fontane, onde se lê: Giuseppe Sonnino e Angelo, Settimo e Alberto Di Porto enquanto fugiam da cruel perseguição nazista aos judeus, foram salvos, mediante a intervenção da Mãe de Deus, neste lugar. Em memória desse benefício colocaram essa inscrição. Ano do Senhor de 1944.

No mosteiro de Tre Fontane em Roma, vê-se em um dos muros uma placa afixada por uma família de judeus romanos agradecendo os monges trapistas por os ter salvado do extermínio. Quando Pio XII morreu, todas as comunidades judaicas do mundo e as autoridades de Israel honraram a memória do grande pontífice. O Vaticano foi inundado com mensagens de condolências de todo o mundo judaico. Pio XII tornou-se uma “besta negra” de repente, como se tivessem descoberto algum segredo sobre ele. E é possível, inclusive, datar o momento em que ocorreu essa reversão. E uma mudança de opinião dessa forma não pode ser levada a sério.

Outra controvérsia diz respeito ao “silêncio” do Papa Pacelli sobre o regime nazista…


Tem sido repetidamente demonstrado que o alegado silêncio de Pio XII foi a única forma de não agravar o drama. Por mil vezes relembra-se o exemplo da Holanda: a Conferência Episcopal enviou uma carta aos católicos, condenando a deportação de judeus. No dia seguinte, foram presos e enviados para os campos de concentração até mesmo os judeus que haviam se convertido ao catolicismo, os quais, até então, tinham sido poupados. A atitude dos bispos holandeses, certamente corajosa, mas que sobreveio num mau momento, causou a morte de milhares de outros judeus, já batizados, cujas deportações poderiam ter sido evitadas.

De Berlim, o bispo Von Preysing enviou 10 cartas ao Papa Pacelli, em 6 meses de 1943, no auge das deportações, pedindo-lhe que interviesse contra as perseguições. O Papa não respondeu. Como explicar?


Konrad von Preysing foi o Cardeal Arcebispo de Berlim durante a Segunda Guerra Mundial.

A atitude de Pio XII foi semelhante à de João XXIII e a do Papa atual, Francisco. João XXIII, porque queria que o Concílio Vaticano II, convocado por ele havia pouco tempo, se mantivesse ecumênico, chegou a um acordo com os soviéticos. O que restava da Igreja Ortodoxa Russa, então, era só um fantasma. Basta dizer que, em uma noite, tinham sido afogados 20.000 padres: aqueles que sobreviveram eram oficiais da KGB disfarçados de arquimandritas e bispos locais. O Papa Roncalli, apesar de tudo, só chegou a um acordo com os serviços secretos soviéticos, em nome do ecumenismo. Não é uma tese do tipo “teoria da conspiração”, mas um fato constatável, comprovado por documentos que emergiram dos arquivos após o fim da União Soviética. Os termos do acordo eram claros: os bispos soviéticos participariam do Concílio, mas este último não faria uma só condenação, nem sequer uma menção, ao comunismo. O resultado foi o seguinte: em todos os documentos do Concílio Vaticano II, o comunismo nunca foi mencionado, nem uma vez. E por que? Pela mesma razão que Pio XII manteve uma atitude reservada sobre o nazismo. Se o condenasse, a tragédia poderia ter sido ainda pior para os crentes, sob o domínio tirânico do regime. O atual Papa, Francisco, é acusado por muitos de ser excessivamente brando em suas declarações sobre as atrocidades do islamismo. O Papa Bergoglio segue o mesmo raciocínio de Roncalli e Pacelli: qualquer condenação explícita à barbárie islamista, resultaria em muito sofrimento para os cristãos locais. Pio XII fez a escolha certa e o caso holandês está aí para provar isso: uma condenação explícita teria agravado ainda mais a situação dos crentes. O que havia de se fazer? Fingir não fazer nada no nível teórico, mas estar bem ocupado no nível prático. E, de fato, todas as sedes religiosas em Roma (e não só em Roma) estavam cheias de judeus. É a estratégia de quem é realista, de quem não quer ser herói colocando em risco a vida dos outros.

O historiador e embaixador israelense Sergio Minerbi, apesar de não negar o resgate de muitos judeus pelos católicos, acredita que não há nenhuma evidência de que a ordem para salvá-los partiu de Pio XII. O Papa interveio pessoalmente?


Sergio Minerbi

Na monolítica Igreja dos anos 40 (e, hoje, nem temos ideia do quanto ela era), onde os bispos não faziam nada sem que houvesse um aceno, um assentimento ou pelo menos um consentimento tácito do Papa, é impensável que uma gigantesca operação de salvamento, em toda a Europa, tenha ocorrido sem o conhecimento do Vaticano. Um bispo nunca pensaria em esconder milhares de judeus em sua própria diocese, sem primeiro avisar Roma, ou pelo menos sem saber, com certeza, da aprovação tácita do Papa. Seria absurdo. Só mesmo os que não conhecem a Igreja de Pacelli poderiam imaginar que o Papa não teria nada a ver com o resgate de quase um milhão de judeus em todo o continente. Em relação à falta de provas: em tempos de crise, a Igreja se volta à tradição oral, nada escrito, tudo é comunicado verbalmente. E depois, por razões cronológicas, a maioria dos documentos do período da Segunda Guerra Mundial ainda não podem ser consultados. Não é de se descartar que possamos encontrar até mesmo uma ordem escrita de Pio XII. No entanto, quase certamente, nunca foi posta no papel, mas transmitida oralmente. Exatamente por esse motivo que eu não creio que, nos últimos meses, o Papa Bergoglio tenha enviado uma circular aos bispos pedindo-lhes para não serem indulgentes com o islamismo.

Marcello Pezzetti, no Corriere della Sera, voltou a falar em “Papa pré-conciliar”, e que, portanto, “viveu na época das acusações contra os pérfidos judeus”. Ainda há preconceito quanto ao catolicismo ser um “precursor” do extermínio nazista?


Marcello Pezzetti

Também aqui, muitas vezes, no último meio século, foi atestado de forma precisa, que o antijudaísmo cristão (não só o católico mas o de Lutero e Calvino, também duríssimos) não tem nada a ver com o antissemitismo moderno. A palavra “antissemitismo” tem suas origens no final do século XIX. E foi inventada por Lombroso e pela ciência positivista: se você fosse um judeu marcado na carne, qualquer coisa o faria imaginar um sistema de pensamento no qual a humanidade se divide em raças superiores e inferiores. (Nota do tradutor: Cesare Lombroso foi um cientista italiano positivista, corrente filosófica que em linhas gerais, propõe à existência do homem valores completamente humanos, rechaçando a teologia e a metafísica).

O antijudaísmo cristão é apenas religioso. O judeu que se converteu, não só foi recebido de braços abertos, mas foi tratado como um favorito, como aquele que tinha reconhecido que o Messias havia chegado. Mesmo as perseguições antissemitas sempre foram feitas por motivos religiosos, não raciais. O antissemitismo nazista, no entanto, vem de uma ciência anticristã e é puro racismo, fruto do positivismo do século XIX. Sob o regime nazista, não foi possível nem mesmo alguma “conversão”: um judeu poderia até ter o registro no partido e participar disciplinadamente de todos os encontros, mas não teria sido poupado.

Preparou-se então uma encíclica contra o nazismo?


Papa Pio XI ao lado de Eugênio Pacelli futuro Papa Pio XII.

Este é também um fantasma da história. A única encíclica em língua alemã, Mit brennender sorge (“Com profunda preocupação”), de Pio XI, em 1937, não era de modo algum uma apologia ao nazismo. O Reich, na verdade, impediu rigorosamente a sua difusão e apreendeu todos os exemplares. Quando Hitler foi em visita a Roma, o Papa transferiu-se para Castel Gandolfo, antecipando a sua estadia de verão em dois meses. Hitler estava muito interessado em visitar os Museus do Vaticano, pintor fracassado que era. Mas o Papa, assim como a improvisada ida para Castel Gandolfo, fechou os museus com o pretexto oficial de que estavam “em reforma”, um dia antes da chegada de Hitler. Em vez de pregar contra ele na Praça de São Pedro, o Papa optou por não o receber.

Hoje se define Pio XII um “Schindler do Vaticano.” Você está de acordo?


Papa Pio IX

Não, porque Schindler não era um herói sem mancha como hoje é lembrado. Eu não faria essa comparação. Faço-lhe uma pequena confidência. Todas as noites, antes de me deitar, converso com alguns santos com os quais me sinto mais próximo. E São Pio XII nunca falha quando lhe peço a intercessão. Porque não só estou convencido de que ele está no Paraíso, como também em uma posição eminente. Pessoalmente, sou um grande devoto de Pio XII, como se já fosse um santo. Por outro lado, compartilha a sorte de outro Pio, outro grande difamado: Pio IX. Até pouco tempo atrás parecia impossível a beatificação de Pio IX, mas, ao contrário, chegamos lá. Chegará também o dia da beatificação e, em seguida, da canonização do Papa Pacelli.

(Entrevista publicada no dia 03/03/2015, na revista italiana La Nuova Bussola Quotidiana.)

(Veja também os demais artigos da Coleção Igreja Hoje.)

(Curta a página Vittorio Messori em português.)