
Entre Tebas e Damasco
O mito de Édipo é, possivelmente, uma das maiores tragédias escritas que possuímos — certamente a maior escrita por Sófocles. O inquietante tema sobre uma possível determinação de fatos da nossa vida é contrastado com o nascimento de um garoto, que nada sabia sobre as previsões acerca de seus atos. A história fala do rei Laio - esposo de Jocasta -, ao qual é revelado, em uma consulta aos oráculos, que seu filho o matará e se casará com a rainha. Para evitar o parricídio e o aberrante incesto, Laio ordena ao seu servo que mate a criança, mas este o leva para o alto da montanha e o abandona com os pés amarrados feridos. Um pastor encontra o bebê e leva-o para que Polípio, rei de Corinto e sua esposa Mérope cuidem dele. E assim é feito, Polípio leva o menino para sua casa e lhe dá o nome de Édipo.
Tudo parece adormecido, até que em uma curiosa consulta aos oráculos, Édipo descobre que matará seu pai e se casará com sua mãe. Sem saber que Polípio e Mérope não são seus pais biológicos, Édipo decide sair de Corinto, imaginando que assim, evitaria a consumação das profecias. Em sua fuga de Corinto, na estrada para Tebas, Édipo é atacado pela tropa do rei Laio e, em legítima defesa, acaba matando o rei. Édipo chega à Tebas, vence a esfinge, se torna tirano e casa-se com Jocasta, ou seja, desconhecendo a sua história, Édipo vai ao encontro do seu trágico destino: mata o próprio pai e casa-se com a mãe.
Não mais na estrada para Tebas, mas em direção a Damasco, Paulo cavalga para um encontro parecido com o de Édipo. Desde pequeno, o Apóstolo havia sido instruído não somente quanto aos ensinamentos do Tanakh (Antigo Testamento), como em uma educação filosófica clássica. Sua aparição no Novo Testamento, acontece exatamente no contexto da perseguição aos cristãos (ainda não chamados dessa maneira). Para a mentalidade farisaica de Paulo, o cristianismo é um movimento religioso insolente, que ignora a tradição de grandes mestres do seu povo, desenvolvida por séculos para que os israelitas voltassem a observar o Tanakh.
Como se não bastasse, seus perseguidos veneravam o filho de um carpinteiro que, segundo eles, havia ressuscitado no terceiro dia após ter sido crucificado. O obstinado fariseu decide agir em nome de D’S. Ao menos, em sua mente, era isso que ele estava fazendo. A próxima página é escrita não mais por um proeminente aluno, mas por um exímio assassino. O nome de Paulo, ainda conhecido como Saulo, é temido por todos os seguidores de Cristo. Ironicamente, a base lógica para tal ação drástica pode estar relacionada ao conceito prevalente de que embora nada pudesse ser feito para apressar ou frustrar inteiramente a vinda da era messiânica, a transgressão e a apostasia dentro da nação poderia atrasá-la.
Zeloso pela lei e ansioso por manter Israel unido nos dias em que as bênçãos messiânicas se aproximavam, Paulo logo direcionou seus esforços contra os judeus que acreditavam no Jesus de Nazaré; pois, em sua opinião, seu líder tinha sido desacreditado pela crucificação e sua pregação cismática apenas poderia atrasar mais a prometida era messiânica. Sua campanha parece prosperar, até que ele decide ir a Damasco para extraditar cristãos e posteriormente os executar. No caminho, o Messias do qual ele trabalhava para não retardar a vinda, literalmente o derruba do cavalo para deixar claro que Paulo não estava perseguindo hereges, mas perseguindo o Messias de D’s. (ver Atos 9.1–18)
A tragédia de Paulo é cair em si de que está lutando contra o que mais possui zelo e tenta defender. Seus esforços para que a vinda do Messias não fosse retardada, nada mais foram do que um banho de sangue daqueles que possuíam o selo do tão esperado Redentor. Por serem corpo de Cristo, Sua amada Igreja, o Soberano não diz à Paulo que a perseguição era contra um grupo, mas contra Ele próprio. As palavras do seu mestre Gamaliel, foram cumpridas nas atitudes do aluno mais zeloso. Paulo — lamentavelmente — se viu lutando contra o próprio D’s.
Sua religiosidade pode — certamente — compelir contra um experiência real com D’s: essa é a dura mensagem da conversão de Paulo. Mais que isso, Paulo mostra em seu exemplo, que podemos — em nome de nossa religiosidade — travar uma dura guerra contra aquilo que é conduzido pelo próprio D´s. Nossa queda radical é manifesta não somente na deturpação de nossa naturalidade, mas na impossibilidade de estabelecermos uma relação real com D’s, sem que ela seja completamente conduzida por Ele. Na história de Paulo, a descoberta acontece no caminho de Damasco. Infelizmente, as Escrituras falam de um momento de descoberta um pouco mais dramático. No capítulo 7 de Mateus, a descoberta é daqueles que profetizaram e fizeram muitas maravilhas em nome de Cristo (verso 22), mas nunca O conheceram. A desoladora realidade é que estes não somente o desconheciam, mas praticaram — como dito pelo próprio Cristo — uma abominação naquilo que fazem (verso 23).
Sem o direcionamento do próprio D’s, através do Seu Espírito, somos incapazes de saber como adorá-Lo, como servi-Lo. Cambaleamos e caímos com uma naturalidade lamentável, em nossas tentativas de fazer a Sua vontade e agradá-Lo. Mesmo que tenhamos — possivelmente — algumas bases coerentes de pensamentos, somos incapazes de acertar em sua aplicação. Contudo, a história da conversão de Paulo, não é somente um ponto de descoberta para uma temível problemática, mas é também o alento para o panorama criado. O mesmo Cristo que anuncia a terrível atitude do apóstolo, é o Redentor que não somente o ensinará como servi-Lo, mas o transformará em um dos principais líderes da Igreja Cristã.
E você, como tem sido a sua jornada até aqui? É possível que sua religiosidade esteja o conduzindo até a estrada de Damasco, onde descobrirá estar lutando contra o próprio D’s? Talvez o seu ofuscado zelo precise ser redimido pela majestosa Graça de Cristo, fazendo com que ele veja beleza onde só existiam tonalidade escuras e sufocantes; ou, possivelmente, você precise “cair do cavalo” — de alguma forma — para que Cristo o ensine a ver com os Seus olhos, guiado pelo Seu Espírito. Seja como for, não espere até que se veja lutando contra Ele. Lembre que as misericórdias do Eterno se renovam a cada dia (Lamentações 3.22,23), e sua caminhada com Ele pode tomar um rumo diferente, hoje.
Que o Eterno o abençoe!