Contratando um bom UX

É mais difícil contratar UX do que ser treinado pelo Michel Teló. (Foto: Divulgação)

Talvez a tarefa mais difícil do trabalho de UX seja — empatada com explicar a profissão aos familiares na ceia de Natal — recrutar bons designers.

O rótulo é fácil: assim como qualquer um pode ser intitular "Dr Bumbum", também não é difícil colocar um "/UX" no LinkedIn. Custa só dois ou três caracteres. Nos dois exemplos, há profissionais pouco capacitados vendendo-se como um jeito fácil de levantar a audiência.

“Tem designer que se vende de um jeito, mas é bem outra coisa. Você tem que abrir o olho pra não pagar filé mignon e levar carne de segunda”
 — Claudia Pátria, Gerente de UX da Vivo

A demanda por profissionais de UX não pára de crescer, e isso é ótimo para a área. Mesmo em plena crise, vivemos pleno emprego: só 1% dos respondentes do Panorama de UX de 2017 da Saiba+ não estavam trabalhando. Ou seja, tem menos desempregados em UX do que no Principado de Mônaco.

E se isso é uma ótima notícia para os contratados, não chega a ser algo que facilita a vida dos contratantes. O trabalho de recrutar não é nada fácil, tanto que há profissionais especializados nisso. E nem esses têm uma varinha mágica:

“Nós usamos canais físicos e digitais, criamos conteúdo relevante e apoiamos a comunidade. É mais amor, carinho e suor do que mágica! =)”
 — Bernardo Carvalho Wertheim, co-fundador da The Bridge, de recrutamento de profissionais de criação e tecnologia

Quando você procura um profissional já com algum tempo de mercado, indicações podem ser um ótimo atalho. Afinal, currículos bons podem enganar, e nem sempre dá pra entender 100% a pessoa pela entrevista. Por isso, ter uma referência da prática ajuda muito:

“Indicações funcionam muito bem na área. Como é um trabalho coletivo, envolve dinâmicas de saber trabalhar em grupo que são difíceis de avaliar.”
 — Gil Barros, arquiteto e urbanista, professor e pesquisador na FAU - USP

Algumas vezes, em vez de contratar profissionais com bastante experiência, pode fazer mais sentido formá-los. Não é uma solução para 'euquipes' individuais ou times com pouca interação. Mas funciona bem em empresas com mais maturidade em design, em que esse aprendizado pode ser rápido.

“Um bom caminho tem sido aproveitar esse boom de pessoas boas querendo entrar na área e desenvolvê-las internamente. Mas muitas empresas não têm um ambiente que consegue acolher e desenvolver um UXer novato”
 — Diogo Cosentino, UX Lead da Try

Tá, mas cadê os bullets com dicas?

Ôpa, já ia me esquecendo. Com uma ajuda dos amigos, benchmark e um histórico de erros e acertos em contratações, listo algumas dicas para quem quer achar um bom UX pra chamar de seu.

Bons ux são humildes. Afinal, nosso trabalho é exatamente não ser dono da verdade, não ser PhDeus. Quem já fez pesquisa sabe que o querido usuário sempre nos surpreende. Se a pessoa vem pra entrevista de emprego com muitas certezas, minha única certeza é que ela não serve pra área.

Bons ux não falam de usar Axure, Sketch ou Flinto. Bons designers usam a cabeça. Às vezes, o Paint. E também esses softwares aí. Mas não vão perder tempo discutindo ferramentas.

Bons ux se interessam pelo resultado. Sério, grande parte dos entregáveis de UX são retângulos cinzas. A menos que seja uma releitura de Mondrian por Sebastião Salgado, não há genialidade nisso. Não importam mapas e wireframes, um bom designer deve saber explicar o pensamento por trás, a interação com equipe do projeto, e os resultados alcançados. Desconfie de quem só se preocupa com o wireframe ou só usa conteúdo fake.

Bons ux são curiosos. Estão sempre querendo aprender mais sobre o negócio do cliente, sobre tecnologia, sobre gente. Podem ter tatuagem de heavy metal mas ainda assim vão querer saber quem é Simone e Simaria, Maiara e Maraisa, Patati e Patatá.

Bons ux participam da comunidade. Aliás, isso é uma das coisas mais bacanas da área. Temos eventos, happy hours, grupos de mensagens, meetups. Boa parte gratuita, inclusive. Se alguém realmente gosta da área, não tem por que não participar de alguns.

Bons ux não boas companhias de boteco. Isso não sou eu quem está dizendo, é um post de 2011 do Fabricio Teixeira. Eu só estou tomando como verdade absoluta.

No fim das contas, é sobre gente, não técnicas

(ou: Hire for attitude, train for skill)

Entendo que recrutar em UX é sobre encontrar pessoas com afinidade com a área, não técnicas ou softwares. Claro, experiência conta. Vivência numa área X ou Y diminui a curva de aprendizado. Isso deve ser levado em conta. Mas, vale lembrar, nosso trabalho é basicamente sobre gente.

É sobre gente boa, competente, que conversa com com todos na empresa, não só com o squad. Gente que tem empatia, que entende diversidade, projeta para todos, que sempre acha que dá pra fazer melhor. Parece difícil? Não desanime.

É um pouco difícil de achar, sim. Mas vale a pena. Minha dica final é no estilo Sérgio Mallandro: Se você procura um bom designer de UX, não procure um bom designer de UX.

Procure uma boa pessoa. 
Yeh yeh.