De volta para o passado

Não apenas o cenário político brasileiro parece ter regressado aos anos 90, com impeachment e crise econômica nas manchetes. A cultura pop, em geral, também. Exemplos não faltam, e com certeza todo mundo reconhece pelo menos um: o desenho animado As Meninas Superpoderosas (1998) volta com episódios inéditos depois de 11 anos do último; Chiquititas (1997) e Carrossel (1989), novelas infanto-juvenis de grande sucesso, ganham novas versões nessa década de 2010. Em plena era da informação, do acesso à internet se tornando cada vez maior entre a população, não é de se surpreender que a disseminação de um comportamento nostálgico seja facilitada. Vídeos de algum seriado, de um filme, um videoclipe de uma banda, uma entrevista de 20 anos atrás nunca vista antes, todos estão agora disponíveis para quem quiser matar as saudades de algo que adorava e, por que não, continua adorando.

Acima, elenco de Chiquititas de 2014. Abaixo, elenco de 1997

No livro Cultura da Conexão, o autor e estudioso dos meios de comunicação Henry Jenkins cita o pesquisador britânico Will Straw, que ressalta o fato de a internet ressignificar o conteúdo antigo, atualizando a forma como o interpretamos e fazemos uso dele no momento atual. “Eu diria que um efeito importante da internet é exatamente essa revitalização de formas antigas da cultura material. Não é apenas que a internet, como um novo ambiente, remodela o passado com as linguagens do presente, de modo que os vestígios do passado possam ser mantidos vivos. […] Na verdade, a internet reforça o peso cultural do passado, aumentando sua inteligibilidade e acessibilidade.” No contexto de web, essa procura por algo em comum constrói as comunidades on-line. Um grupo de fãs do Nirvana, por exemplo, que não têm mais a possibilidade de ver o ídolo Kurt Cobain ao vivo em 2016, procura por vídeos de shows no YouTube, faz amizades por meio de redes sociais, compra álbuns da banda que na época não tinham condições de pagar e, assim, mantém vivo o amor de fã pelas possibilidades que a internet proporciona. Se o conteúdo é feito e colocado à disposição, é porque tem gente interessada nele. Com a demanda, a produção aumenta e cria-se um ciclo vicioso.

Se, para alguns, a internet trouxe de volta um pouco do que havia ficado para trás, para outros, ela trouxe à tona algo que não puderam vivenciar anteriormente. A doutora em Comunicação Social e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) Adriana Amaral afirma que a tendência é continuar assim, o que muda são os fenômenos que irão se repetir. “Acho que continua porque tem as pessoas que viveram naquela época, se identificam com isso e fazem relação com determinado período legal que elas viveram. E tem as pessoas que não viveram a época mas que se interessam, acham interessante, acabam de repente gostando. Então tem vários tipos de pessoas, sempre vai ter público para consumir esse conteúdo.”, diz a pesquisadora. Ao mesmo tempo em que um jovem adulto hoje em dia pode se deixar levar de saudades dos anos 90 ouvindo Wonderwall, do Oasis (1995), ou algum hit dos Backstreet Boys, os mais novinhos podem ouvi-las e gostarem tanto quanto se tivessem vivido no período. A tela do computador tem a capacidade de se transformar em uma janela ao passado, seja para os que presenciaram determinado período matarem as saudades, seja para cativar aqueles que não puderam estar lá para viver.

Pretérito mais que perfeito

A televisão e o cinema já vêm fazendo um trabalho de reciclagem há tempos — como o filme A Fantástica Fábrica de Chocolates (com versões de 1971 e 2005) e o seriado Full House (originalmente de 1987 a 1995, e sua versão de 2016, Fuller House) -, e no momento atual a internet só intensificou e massificou essa tendência. Inúmeras postagens on-line a respeito do tema podem ser encontradas em uma simples busca no Google. Um dos pioneiros no ramo, o canal brasileiro do YouTube, Nostalgia, do paulista Felipe Castanhari, tem no momento mais de 6 milhões de inscritos, sendo um dos maiores do país. O jovem de 26 anos começou a postar vídeos no final de 2011 e não parou mais. Cada vez mais conhecido pelo público, a audiência se divide em pessoas relembrando de um desenho, filme ou seriado de antigamente e os mais novos, que pela influência de Castanhari dentro do YouTube, acabam por conhecer e admirar o que fazia a cabeça dos mais velhos há alguns anos. Seguindo a mesma linha do Nostalgia, outro paulista, dessa vez de Jacareí, Danilo Nogy, criou o Canal 90, que conta com quase 230 mil inscritos. Com 27 anos, Nogy, como é conhecido pelo público que o acompanha, produz vídeos de conteúdo nostálgico dos anos 90 há quatro anos. “Em junho de 2012, decidi juntar duas coisas que eu amava: coisas antigas e produção de vídeos. Assim surgiu o Canal 90, um conteúdo focado em anos 90 na internet. Decidi focar na década de 90, pois foi o tempo que eu realmente vivi, já que nasci no final de 80. Além do mais, anos 80 já é um tema muito saturado na internet e em outros meios”, diz o youtuber.

Danilo Nogy, criador do Canal 90

Questionado sobre o porquê das pessoas se interessarem por conteúdo do tipo, ele relaciona à saudade da infância: “Acredito que o fator principal seja o fato disso remeter aos tempos de infância, aos tempos em que as pessoas eram realmente felizes, inocentes. Todo mundo tem muitas histórias boas sobre a infância. Relembrar coisas que cercavam esses tempos é uma forma de reconstruir esses dias felizes”.

Sem dúvida, a internet parece realmente diminuir a distância que o tempo colocou entre passado e presente. Muita gente acaba por se descobrir nostálgica ao se deparar com um vídeo ou imagem que lembre de algo bom que já passou. “Outro fator que ajuda muito é que a internet por si só já incentiva a galera a tirar foto daquele brinquedo antigo e postar para os amigos verem, ou passar aquela fita VHS para o YouTube. Isso vai aumentando cada vez mais o serviço retrô da internet e, consequentemente, trazendo mais pessoas para cultuar esse tipo de conteúdo”, destaca Nogy.

Tamagotchi, brinquedo popular nos anos 90

Atrair mais pessoas que possam se interessar nesse assunto dentro da internet também cabe ao portal de notícias e entretenimento BuzzFeed. Na sua versão brasileira é possível encontrar diversos artigos destinados a um público nostálgico dos anos 90, como As 40 coisas mais anos 90 que já aconteceram, ou 48 coisas que vão te fazer chorar de saudade dos anos 90 no Brasil, e assim por diante. “Acho que os anos 90 é meio o que está se pautando agora. Não só na internet, mas em outras mídias também. Há um tempo atrás, por exemplo, teve uma temporada daquele seriado Californication (2007–2014), que foi toda pautada pelos anos 90, eles citavam a década [na série]. Todos os produtos midiáticos acabam entrando num mesmo contexto”, ressalta Adriana Amaral.

Na década passada, a grande referência do retrô eram os anos 80. Agora, os anos 90. A cada 20 anos a moda, os costumes, as saudades, parecem se repetir. É quase necessária a existência de um período intermediário para que algo deixe de ser tendência, vire cafona, e depois seja tendência novamente. “Durante os últimos anos, a década de 80 foi revirada do avesso inúmeras vezes em tudo que é canto, o que é ótimo, mas causou uma certa canseira no público que consome cultura pop”, diz Nogy. Os anos 90 são a geração de quem descobriu a internet no início dos anos 2000. Ou seja, agora é a hora desse público se manifestar, relembrar e, principalmente, rir muito dessa época. “Os anos 90 são a bola da vez para aquelas pessoas que sempre viram todo mundo relembrar o seu tempo, mas nunca tinham muito o que falar. Agora elas têm.”, finaliza o youtuber.

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