Era uma vez… um rapaz e “as suas” escutas telefónicas...

Pedro Vicente
Improver
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6 min readNov 29, 2019

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Era uma vez um rapaz que estava a frequentar o curso de Engenharia Informática da Universidade de Coimbra que tinha uma cadeira chamada Comunicação e Profissão.

Para essa cadeira era necessário escrever um artigo e fazer uma apresentação. Não interessava o tema, era um exercício sobre escrita de artigos e apresentações em público.

Como já devem ter percebido esse rapaz era eu, e por diversão escrevi um artigo sobre escutas telefónicas, dei-lhe o título:

Escutas Telefónicas: A tortura do século XXI

Para ser avaliado, publiquei em 2005 este artigo (no meu site pessoal da Universidade), bem como a apresentação.

Cadeira feita… ficou lá o artigo publicado… e provavelmente nunca mais me lembraria dele… (e confesso que não me lembro também da nota que tive).

2 anos passaram.

25 de Outubro de 2007

Inesperadamente, recebo um e-mail… de um jornalista do jornal pago com mais tiragem em Portugal:

Engº Pedro Vicente,

O meu nome é _____ e sou jornalista do ___ . Para o próximo fim de semana, estou a preparar um pequeno trabalho sobre escutas telefónicas. E fizeram-me chegar um trabalho seu “Escutas Telefónicas, a Tortura do Século XXI”. Gostaria de entrar em contacto consigo. Se possível ainda hoje.

Melhores cumprimentos,
_____

Lembro-me de o receber durante uma aula e ficar alguns minutos a olhar a tentar perceber quem me estava a tentar “apanhar” numa brincadeira…

Não era brincadeira… e ao pesquisar no Google por “escutas telefónicas” percebi que o meu artigo era o primeiro a aparecer nas pesquisas…

Com muito espanto e especialmente curioso enviei email de esclarecimento e tentando perceber qual era o objectivo:

Caro ___,

Fiz um trabalho e respectiva apresentação sobre o tema, para uma cadeira
do curso de Eng. Informática da Universida de Coimbra, curso que estou a
terminar, este focava-se nas escutas telefónicas como falou.

A apresentação era uma breve exposição do tema, envio em anexo caso
deseje mais alguma informação sobre o assunto.

Estou disponível para o que necessitar.

Cumprimentos

Pedro Vicente

Após uma chamada telefónica, com mais algumas perguntas e clarificando que era apenas um estudante de licenciatura (ou seja, sem nenhum conhecimento específico na área), respondo a algumas perguntas que qualquer pessoa (como eu) conseguem encontrar pela Wikipédia ou HowStuffWorks:

Caro ____,

Basicamente os telemóveis funcionam através de ondas de rádio, imagine
uma televisão, quando muda de frequência vai captando diversos canais,
com um vulgar rádio é a mesma coisa.

Um telemóvel de uma maneira simples funciona assim, o que precisa é um
“scanner”, um dispositivo que portátil que é capaz de receber múltiplos
sinais, a maioria deles permite fazer uma procura e procurar a conversa
que se achar “interessante”.

Estes scanners conseguem-se comprar na internet, embora creio que seja
ilegal a sua venda (e utilização) na maioria dos países.

Em Dezembro de 2006 houve alguma polémica quando o FBI activou um novo
tipo de vigilância que permite que o telemóvel se transforme num
microfone, mesmo que desligado. Para perceber como é que é possível
basta pensar que muitos dos telemóveis da Nokia mesmo quando desligados
se ligam automaticamente para o despertador tocar.

Pelo que foi publicitado na altura, os fabricantes mais vulneráveis a
este tipo de novas escutas são a Nextel e Samsung. Estes programas para
activar este tipo de coisas, são como se fossem “spywares” nos
computadores, aqueles programas que nunca notamos que entraram mas que
quando fazemos um scan ao computador lá estão a monitorizar o que
fizemos, e a mandar informações mais ou menos graves para o outro lado
da linha.

A maneira de impedir estas tecnologias mais avançadas, é simples,
remover a bateria quando se quer ficar mesmo em “segurança” ou usar
scans de escutas.

Não sei se era a informação que pretendia..

Cumprimentos

Pedro Vicente

Apercebi-me depois do email que devia tornar (ainda mais) claro que estava apenas a consultar o Google:

No email anterior não mencionei, mas tudo o que disse está referido nas
referências:

How Stuff Works,
http://electronics.howstuffworks.com/wiretappin
g.htm/printable
2. Wikipédia,
http://en.wikipedia.org/wiki/Wiretap

O que lhe disse foi praticamente um resumo/tradução.

O que começou por ser uma quase brincadeira… tornou-se num artigo de página central do jornal… o que foi bastante surreal e motivo de brincadeira entre os meus amigos.

Assumi que terminariam ali os meus 5 minutos de fama/situação surreal.

29 de Outubro de 2007

Contacto do Gabinete de Comunicação e Identidade da Universidade de Coimbra, a pedido de um canal em sinal aberto em Portugal (dos 3 grandes):

Caro Pedro Vicente,

O Gabinete de Comunicação e Identidade da Universidade de Coimbra foi contactado, esta manhã, pela __ que gostaria de entrar em contacto consigo.

A __ está a preparar uma peça sobre a ida do PGR à Assembleia da República e gostariam de abordar, na ocasião, o trabalho que realizou sobre “Escutas Telefónicas”.

Nesse sentido e tendo em conta o prazo, que em televisão é sempre bastante apertado, agradecia que entrasse em contacto comigo assim que lhe for possível (os meus contactos estão mais abaixo), para o podermos pôr em contacto com a __.

Já lhe deixei uma mensagem no telemóvel a dar conta deste mesmo pedido.

Cumprimentos,

Pouco depois uma chamada. Esclareci o âmbito do artigo, as minhas habilitações e respondi a algumas perguntas. Fui convidado para uma entrevista sobre o tema. Para ficar claro enviei as informações por email:

Cara ___,

Como lhe disse o meu trabalho foi apenas de investigação e compilação de informações recolhidas na internet.

Facilmente se encontram vários dados sobre como a rede de telemóveis funciona e como se podem fazer, escutas, foi nessas que me baseei. Quanto a rede de telefones fixos, essa é ainda mais vulnerável dado que basta haver uma intercepção de dados em alguma parte “do fio”.

Não tenho qualquer experiência prática, apenas sei o que aprendi ao longo da minha pesquisa.

Seguem as referências:

Telemóveis ->
http://electronics.howstuffworks.com/radio-scanner.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Eavesdropping

Telefones ->
http://people.howstuffworks.com/wiretapping.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Telephone_tapping
http://www.aaroncake.net/circuits/phonetap.asp

Cumprimentos

O interesse na entrevista manteve-se. Decidi perceber até onde poderia ir esta bizarria.

O meu nível de incredibilidade aumentava... decidi entrar no buraco para ver até onde ia… sentia-me literalmente Alice no País das Bizarrias.

Vou à entrevista.

Perguntam-me imensas coisas técnicas referidas no artigo. Explico as minhas habilitações novamente. Indicam que tem validade… e pedem-me que responda. Respondo a coisas básicas “como funcionam telemóveis?”, “como se fazem escutas?” que qualquer pessoa lê na Wikipédia.

Perguntam-se se existem sites onde vendem aparelhos para escutas. Digo que é bastante provável. Pedem-me para pesquisar para o vídeo da reportagem. Recuso… já muito desconfortável com a direcção da entrevista, peço para terminar.

A entrevista vai para o ar numa edição seguinte do Jornal da Tarde.

A legenda das minhas habilitações: “Doutorado em Escutas Telefónicas pela Universidade do Minho”.

Fico incrédulo. Envio mensagem à jornalista. Pede desculpa e assume o lapso, mas já tinha ido para o ar.

Decido, obviamente, que cheguei fundo suficiente no buraco, “ser Alice” estava a ir numa direcção que não achei razoável. Decido recusar qualquer outro pedido.

30 de Outubro de 2007

Recebo uma proposta de uma pequena editora para escrever um livro sobre escutas.

Já nem entro em explicações. Recuso.

11 de Novembro de 2007

Email de outro canal em sinal aberto em Portugal (dos 3 grandes):

Boa tarde Pedro!

O meu nome é ____. Sou jornalista da __ e estou a fazer uma reportagem sobre escutas telefónicas, sob a vertente mais técnica. Vi, através de uma pesquisa da internet, que o Pedro desenvolveu, em tempos, um trabalho nesse âmbito. Gostaria de saber se tem disponibilidade para me prestar alguns esclarecimentos sobre a matéria.

Fico a aguardar.

Obrigado

Resposta no mesmo dia:

Caro ____,

Agradeço o convite, mas terei de declinar.

Neste momento não tenho disponibilidade, nem sou especialista na área.

Facilmente obterá respostas para o que quer em sites como:

How Stuff Works,
http://electronics.howstuffworks.com/wiretapping.htm/printable

Wikipédia,
http://en.wikipedia.org/wiki/Wiretap


Pedro Vicente

Pensei que era assim que esta história surreal tinha terminado…

29 de Novembro de 2019

Um amigo a quem anteriormente tinha descrito esta história surreal envia-me… uma Tese de Mestrado em Direito da Universidade de Lisboa de 2015 onde o meu artigo é citado inúmeras vezes.

Decido assim, escrever este artigo para partilhar esta epopeia da surrealidade.

Fim… (presumo que apenas por agora)

Nota: Não tenho como objectivo atacar a credibilidade de nenhum dos jornalistas, editor ou da autora da tese, dai não indico, nem indicarei: empresas, nomes ou links. Isto para mim é só uma história (real) que partilho como um momento de humor kafkiano e não um artigo de crítica. Não irão assim encontrar nenhuma moral final. Também não irei especular porque aconteceu, ou sobre se, devia ou não ter acontecido.

E a resposta é sim…estão todos obviamente sob escuta! 🤫

PS: Um bem-haja ao prof. António Dias Figueiredo que (acidentalmente através de uma cadeira muito interessante) me proporcionou esta epopeia!

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Pedro Vicente
Improver

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