A LOUCURA SE ESCONDE EM MEIO A MULTIDÃO
21–7–17, sp

Ao tentar tirar o carregador da tomada, acabei desligando todas as tomadas. Ao tampar o pote de café, tudo escapou da minha mão e emporcalhou o chão todo, o pó entrou nos vincos do piso e estão lá até agora. Ao pegar o prato para lavar, ele escorregou e caiu sobre o resto da louça, quebrando em diversos pedaços e trincando um copo dentro da pia. Ao pegar o copo para tomar água, o fundo estava sujo, porque a faxineira lavou correndo. Ao tirar a camiseta, as outras se enroscaram e ficaram todas amarrotadas. Ao tentar guardá-las novamente, não ficaram na posição certa e tudo ficou uma bagunça. Ao tentar ligar o aquecedor na tomada, os pinos eram maiores que todas as entradas da casa. E estava muito frio. Ao ver uma cena bonita e pegar o celular para tirar uma foto, a memória estava cheia. Ao abrir o livro para, finalmente, ler no fim do dia, os olhos ressecaram e começaram a coçar insuportavelmente.
Tentam nos convencer que a loucura é própria dos loucos, que ela pode ser contida por paredes altas de hospitais psiquiátricos e receitas de tarja-preta. Que ela está distante de nós.
É mentira.
A loucura parece ter um jeito todo seu de entrar no nosso dia-a-dia, impedindo nossos avanços nas coisas mais simples, como o cinto estourar logo de manhã quando estamos atrasados. Nos enchendo de ódio e nos molhando os olhos.
Lutar com ela pode levar a um estado de nervos incurável, que nos coloca de quatro e guardados em um hospício qualquer. Ou pode formar uma crosta intransponível de resiliência.
Não me espanta a quantidade de rostos assustados por aí.

