ABSURDO COTIDIANO

28–6–17, sp

Ativar o despertador
antes de dormir
é tortura diária.

Acordar, abrir os olhos,
levantar-se:
melhor seria não viver.

Melhor seria não viver
a acordar e lavar o rosto,
fazer a barba,
escovar os dentes, cariados,
engolir o café
e morrer,
aos poucos.

Viver de tempo curto,
sempre apressado,
pelo tempo dos outros:
do emprego, do curso,
do atraso.

Perder horas
dentro do trem
tentando chegar
onde é um ninguém:
um crachá,
um uniforme,
no fim do mês,
uma porção de vinténs.

Fumar um cigarro
para morrer mais rápido
enquanto descansa
no intervalo.

Chegar em casa
completamente exausto,
ligar a tevê,
ouvir a mesma desgraça:
“Não sei como Deus me colocou aqui.”

Já é tarde da noite,
Deus foi dormir,
não ouve seus anseios,
o que resta
é resistir.

Amanhã é outro dia,
o despertador vai tocar
às seis em ponto.

Não é um belo poema,
e é um tanto triste,
se fosse um livro
seria uma tragédia
longe dos leitores
e das vitrines.

Eu daria o nome
para ilustrar:
esta obra se chama
O ABSURDO DO COTIDIANO,
dedicada a todos
que ao ouvirem o despertador
são capazes de afastar
enquanto se levantam
a vontade de se matar.

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