Audiência

Indo para o estágio, no caminho me deparei com uma mulher jovem parada no ponto de ônibus com um livro tampando a cara, como se o rosto dela fosse a própria estampa da capa, a propaganda invisível e desejada das mentiras que nos contam: sonhe grande. Era assim que o livro dizia. Culpar as pessoas pelo fracasso, pela falta de imaginação em pensar coisas novas, grandiosas é uma baita covardia. E ali do meu carro, aquela mensagem bateu em meu peito de forma aguda, porque me senti um pouco culpada. Sonhe grande. Qualquer um pode sonhar. Eu posso sonhar grande. Aliás, dentro daquele carro eu estava sonhando grande. Mas né, com uma ligeira diferença objetiva: que eu tenho instrumentos para correr e arcar com o preço alto dos meus sonhos grandes. Afinal, não estava eu dirigindo meu próprio automóvel rumo ao estágio na justiça federal, local que me aguarda para o futuro como magistrada?

A reflexão durou até eu ser tomada de assalto pela tristeza inóspita colhida da fala de um pedinte que passava pela rua. Já desistindo dessas instâncias e se ocupando em não mais pedir esmolas, a despeito de o sinal estar fechado soltou um grito de desespero: Senhor Jesus, tem misericórdia de mim. Aquela súplica soou maior e mais sincera que qualquer pedido já feito por todos os pedintes do mundo. Meu coração se contristou feito mãe que vê o filho indo para guerra. Com a incerteza de saber se ele voltaria vivo. Com a incerteza de saber se dias melhores virão.

Continuei seguindo. Ignorando uma realidade sobre a qual o direito parece não incidir.

Chegando no fórum, cumprimentei as seguranças cujo tempo tornou minhas cúmplices das singelas tardes que passei por lá. Subi morosamente para o gabinete como quem quer adiar alguma coisa, mas algo me tomou no caminho. A salinha de audiência por vídeo-conferência estava agitada. Havia indícios de que ali iria ocorrer audiência. Como não tinha acumulado trabalho no gabinete e ponderei que meu estágio já estava acabando sem eu ter assistido quase nenhuma audiência, resolvi sentar-me para assistir.

Não sei por que me surpreendo mais com essas coisas, mas aqueles três homens de preto entrando com cara de marra e arma na cintura me deixaram um pouco acuada. É assustador ficar no mesmo ambiente, com poucos metros quadros — portas e janelas fechadas — que quatro homens armados. E não são quais-quer homens armados. São os caras da federal que carregam o distintivo no peito. O orgulho nos óculos escuro. A marra no jeito de andar. A força na própria compleição do corpo. Dá um medo danado ter que se sentar ao lado deles. Eu, que sempre tive medo de homens armados, fiquei pensando o quão engraçado era eu ter me enveredado pelos caminhos da justiça criminal. Talvez, porque nos papeis a realidade soe menos agressiva do que você se deparar com a instituição face a face.

Um detalhe curioso me chamou a atenção: uma tatuagem no braço direito de um deles. Era uma fórmula da física, que se não me traem meus conhecimentos, representava a lei da gravitação universal dos corpos. Será que dando indícios que no universo as coisas se ordenam de maneira natural?

E então fui lançar minha atenção sobre a face do réu. Mais um caso de contrabando. Esse era dos grandes. Era o chefão da quadrilha. Mas contrabandista é feito esposa adúltera: não se arrepende do ato, só de ter sido pega. Como é difícil para o réu manter a cara de piedade, quando, na verdade, o pensamento estava mais para esses filhos da puta me pegaram. Puta que o pariu. Ainda tenho que fazer cara de arrependido.

Eu que sempre tive medo de homem armado, fui me meter no criminal. Que ironia. Mas estudando a avulsão e o direito de vizinhança só me confirmo. O direito civil é muito chato. insuportável. Dele não se consegue extrair a face humana. O direito penal tem emoção. Tem o afloramento daquilo que é o homem. Pode-se contemplar a realidade encenada para além do papel. com tinta viva da expressão das faces e dos corpos. Daí minha ironia se justifica, restando implodida em sua estrutura idiossincrática.

Voltei para o gabinete, mais cópias e execuções fiscais me aguardavam.

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