Como eu descobri que não sou poeta

É quase meia noite e eu estou sentada em um canto qualquer da faculdade, procrastinando minha vida como sempre, as moscas são minha companhia e uma imensidão de que tudo é nada ao mesmo tempo. Faz frio lá fora e hoje eu não quis voltar pra casa. Há dias que venho constatando essa verdade inabalável de que não sou poeta. O título só me servia por vaidade. Sofro da síndrome de narciso. Porque mesmo quando escrevo só sei falar de mim mesma. Não sou poeta. E como descobri isso foi notando. Que só escrevo quando estou triste. Ou quando muito apaixonada. Ou quando euforicamente abalada por algum sentimento. Isso não é ser poeta. O poeta se constrói da dor das palavras. Feito um artesão que encontra no vocabulário uma maneira de pintar o mundo. Poeta é ofício como qualquer outro. Exige dedicação, tempo. Porque poesia não vem assim tão fácil. O trecho se constrói praticamente sozinho. O poeta é apenas o instrumento de cujas mãos o universo se utiliza para arranjar verdades. Eu não sou poeta. E quanto mais eu vejo conhecidos se estribando nas veredas da vaidade e escrevendo poemas ridículos mais me envergonho por ter ousado um dia dizer que sou da escrita.

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