Delicadeza — Um poema

A delicadeza está por toda parte
ela, que sempre sofre descrença
foge, abomina a luz, enfrenta
pelas frestas a sua face liquefeita
É uma mancha de nascença
nunca apaga, anuncia
uma essência
Toma as formas do corpo
quando me envolve, lenta
vira um espaço onde me guardo
eternamente atenta
A delicadeza está no frescor
da manhã num pasto azulado
A delicadeza está na flor
colhida, acolhida num frasco
A delicadeza está no braço
que carrega no pasto azulado
a flor no frasco
Para onde ela vai, carregada?
encontra o embaraço
de quem a recebe na mão e na alma
Vivo do quase, e o quase também é contente
fala das ausências que se saciam
da sua própria sede
Vivo do quase, quase-sempre
é da minha tentativa
do fechar e abrir da ferida
que tenho sido
amada, odiada, (mal) compreendida
Mas a não existência não me faz falta
existir tem a ver com arranhões,
ranhuras, rachaduras, contusões
Se me entristeço pelos tropeços
também fico feliz por cuspir
na cara dos desatentos
A vida está por aí
você a toca e a desloca
a destoa, a entorna
sem sentir
Tenho vivido apesar de tudo
e as contradições são plenas
um abrir de cortinas, de janelas
no meio do escuro
Mãos invisíveis me guiam os quadris
um anjo torto me comove
mostra-me o contorno, que se move:
A vida é terrena
a estrela é secreta —
é preciso se vestir ao avesso
para toda e qualquer festa
Mas tem dias que a delicadeza
é docemente nocauteada
a gente veste uma coragem
que o medo logo desarma
E tudo bem que seja assim
provar de vez em quando
o fracasso
O que fazer com esse pedaço
de triste desilusão?
Vou vencer pelo cansaço
e voltar a este chão.

