Photo credit: Niels Eric on VisualHunt / CC BY-NC-ND

Eles não podiam sumir assim

Andresa Scucuglia
Sep 6, 2018 · 3 min read

Presenciei a essência do amor materno. É o tipo de amor que é referência. Mas só quem é mãe pode realmente saber o que é, o que significa amar alguém muito mais do que a si mesma. Como é ter consciência de que tão-somente a existência desse outro ser é razão suficiente para justificar a sua própria vida nesse mundo.

Aquele era o dia em que todas as suas expectativas, suas esperanças, seu futuro desmoronavam. Era um dia frio e chuvoso, o dia em que sua vida se despedaçava, nada fazia sentido, não podia nem pensar, nem respirar, queria evaporar no ar… Más notícias sempre são dadas aos poucos, mas ela pressentiu nas primeiras palavras o que estavam começando a dizer.

Seus dois filhos haviam sofrido um acidente fatal, juntos, num dia qualquer, numa rua qualquer, atingidos por um carro dirigido por um cidadão qualquer. Naquele instante não importava comos ou porquês, só o que latejava em sua cabeça era o fato de nunca mais vê-los vivos, não vê-los mais existindo, perto ou longe, não importa, nunca mais.

Quando chegou ao local da tragédia, os corpos estavam sendo retirados, a Polícia marcava o chão, desenhando com fita a posição em que eles se encontravam, como num filme. Era desesperador, inacreditável, ela queria mesmo sumir, morrer também, só podia ser um pesadelo. A chuva se transformou em tempestade, o que dispersou a multidão de curiosos.

Havia poucas pessoas ali, mas parecia que nem mesmo Deus estava com ela naquele momento. Anestesiada pela maior dor do mundo. A Polícia terminou tudo e levou os corpos, ela ficou para trás.

Quando a ambulância saiu, só restaram os dois contornos, desenhados no chão. Ainda assim podia reconhecê-los, ouvir suas risadas e resmungos, cheirar seus cabelos e sentir sua pele.

A chuva começava a cobrir aqueles esboços na rua deserta. A água batia com força em seu rosto, apagando as lágrimas e o barulho alto do gotejar implacável em telhas, calhas e janelas camuflavam seus soluços, vindos do espaço vazio que era seu interior…

Imagem: public domain picture

A água da chuva que enchia a rua estava encobrindo o contorno de SEUS filhos, ela não podia ver aquilo. Eles não podiam sumir assim. Como isso era possível? Ajoelhou-se no rio pluvial e tocou seus contornos, podia ver suas mãos e suas pernas, debaixo d’água… Repousou a mão direita sobre a mão do mais velho e a esquerda na do menor.

“Mamãe está com vocês. Eu nunca vou deixá-los sozinhos”.

E deitou-se ao lado dos corpinhos desenhados numa rua qualquer sob a enchente. A sensação é de que não só os contornos, mas também seus espíritos estavam ali, não abandonando nunca sua mamãe.

Esse foi um pesadelo que tive em 2002, desses com tantos detalhes que você acorda aterrorizada. Eu o escrevi na sequência porque parecia um filme kafkiano. À época, eu ainda não era mãe. Ao relê-lo hoje, meu filho já com 9 anos, revivi o terror e fiquei consternada com o "sentimento" que pude expressar após esse pesadelo.

Quando eu era criança, houve um acidente no meu bairro em que várias crianças foram atropeladas na porta de casa, por um carro desgovernado. Nunca é cedo demais para entender o quanto isso é terrível. Imaginar isso na perspectiva de uma mãe, é ainda mais perturbador.

impublicável.

ficção e não-ficção sem explicação, sem censura, sem reparos, sem cortes. as regras, os ensinamentos, as listas de como ser um bom escritor ficaram de lado. aqui é um lugar para se escrever - e nada mais.

Andresa Scucuglia

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Música, filmes, livros, inovação, a vida, o universo e tudo mais. Sou jornalista e trabalho no Banco do Brasil.

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