Embrulha o resto para viagem?

Ilustração de Cécile Dormeau

Como disse Dummond:

… fica sempre um pouco de tudo. Às vezes um botão. Às vezes um rato.

Mas o que fazer com o que ficou depois de tudo que já se foi, se esse pouco que ficou não é o que gostaria que tivesse ficado?
Mas a verdade é que o resto nunca é o que deveria ficar.

Resto é a sobra de uma degustação que começou muito saborosa, mas que no final fica amargo e é deixada de lado. Esse é o pior resto de todos. Olhamos para a sobra e automaticamente é gerado um desconforto pelo que já se foi, e o que restou nem de longe se parece com o que não está mais lá.

Você até quer repetir e sentir de novo aquele delicioso sabor. Mas o que restou te deixou traumas significantes, ao ponto de você ter medo de fazer uma nova degustação e sentir novamente aquele gosto amargo que demorará muito tempo para sair da sua boca.

– Garçom, por favor, quero pedir outra coisa.
– Embrulha o resto para viagem?
– Não! Fique para você se quiser, pode ser que seu paladar aprecie esse resto, porque o meu já não gosta mais.