foi na esquina da Venâncio

Davi Koteck
Sep 4, 2018 · 5 min read
João Quadros/Flickr

Uma noite começa do mesmo jeito de sempre, não vai continuar do mesmo jeito de sempre. A tevê vai estar ligada no doze, o filme dublado sempre pelo mesmo dublador no volume médio, e também uma garrafa meio vazia com líquido meio transparente (bastante teor alcoólico). Vai faltar fumaça porque a última seda rasgou com todo resquício de ponta.

O barulho agudo e metálico do interfone é mais surpreendente (e por isso mais interessante) do que chiado da tevê aberta. Ele destranca a porta e puxa a grade do corredor. O corredor fica escuro porque não tem iluminação automática. Sobra apenas a sombra de luz amarela da sala em formato de pequenas barras. Então Joana aparece.

Era comum que ficassem sem se falar por alguns dias. No entanto, o último mês em silêncio fugiu à regra. A última noite em que se falaram terminou com caco de vidro no chão, porcelana quebrada, gosto amargo de receita azul assinada e com carimbo legível enquanto derrete embaixo da língua. Joana saiu de casa e ele não soube mais dela, até o interfone tocar.

Quando ela entrou, disse que podia ser isqueiro, ou fósforo. Até a boca do fogão. Basta Moreno girar o botão para esquerda, até ouvir o gás estalar e ver as chamas, deveriam ser vermelhas, mas são azuis demais para que se pareçam com fogo. Alívio para dedos queimados.

Moreno inclinou a cabeça em direção ao fogo com o beque na boca. As mãos como concha para o vento não apagar a brasa. O sofá bege que ela sentava de pernas cruzadas ocupava quase todo apartamento. Ele tossiu forte, e bateu com o dedo médio no meio do baseado para as cinzas caírem lá embaixo, na esquina da João Pessoa.

O cheiro de noite invadiu o apartamento pela fresta da janela. Sentir esquentar as orelhas a luz laranja dos postes da esquina, fronteira para vida urbana. Não trocaram uma palavra desde que ela sugeriu o beque. Joana estava ali e não brigavam. Isso talvez fosse o suficiente para aquela noite.

Em frente ao sofá bege, não há nenhum móvel. Há um quadrilátero irregular (portanto trapézio) com algumas capas de discos manchadas de vinho tinto. Ali, antes, ouviam juntos o trompete de Herb Alpert, o sax de Coltrane. Isso até o disco arranhar e a agulha ficar torta e a vitrola estragar porque era velha demais. A falta de música tornara-se insuportável para Moreno.

Tudo começa sempre há muito tempo atrás. Basta que ela diga que sua camiseta é legal, e que gosta (sempre gostou) de cabelo comprido. Vocês escutam o mesmo tipo de música. Então ela cantarola baixinho no seu ouvido o início de Lithium. As luzes piscam demais para que se vejam com clareza. O primeiro beijo é sempre o mais estranho, porque tem língua demais e saliva de menos. A música é muito abafada e quando entope o ouvido vocês saem dali. (é normal que Nirvana vire Coltrane e Coltrane vire silêncio e tudo isso é culpa dessa merda de rotina).

Ela fechava os olhos enquanto o beque quase queimava o indicador e o dedão. Tem os lábios redondo demais, parecem fazer força demais para puxar pouca fumaça. Ele sentiu o vento gelado na cara, mesmo que seja verão, há sempre um vento por aí.

O único sentido proposto para tornar plausível a existência de uma janela é deixar que o vento entre, ele pensou em dizer. Apoiou os braços no parapeito enquanto o baseado escorregava entre os dedos. (janelas que dão em janelas, persianas que não funcionam seguidas por cortinas que não tapam o sol). O beque apagou de vez.

Basta que trinta e sete minutos de silêncio sejam interrompidos com um arranhão na garganta dele, a úvula se afoga na saliva, logo depois balança de um lado para outro, como um saco de pancadas. Quando o silêncio ficou impossível, pediu que Joana saísse.

Destrancou a porta e puxou a grade do corredor, os olhos vermelhos, boca seca demais para dizer tchau. É comum porta de prédio antigo ranger quando for aberta. Lá de cima esperou ela aparecer em miniatura, dobrando a esquina da Venâncio, até chegar à parada de ônibus e estender o braço, subir os degraus, passar a roleta. Acendeu todas as luzes de casa e deixou a porta aberta, desceu as escadas, ouviu ranger de novo, dessa vez bem de perto. Então botou os fones e se pôs a caminhar.

É difícil dizer qual o momento exato em que você perde a consciência. Você está no chão, sente o piso da calçada com agressividade nas suas costas. Uma luz amarela perfura o preto dos olhos fechados. Pode ser que toda a sua vida rebobine e você evoque memórias escondidas no subconsciente.

Então um tribunal moral — tudo aquilo que você sabe muito bem vai ser cobrado. Você pensará em rastro de chamas, no que deixou de fazer, ou vai pensar naquilo que (efetivamente) você fez. Ela dizendo que podia ser até a boca do fogão desde que seja fogo. O barulho estridente do interfone vai reverberar, no fundo vai tocar Nirvana.

Sempre pode ser a sua hora. É claro que isso só acontece com os outros. É só você atravessar a rua para enxergar uma luz branca — o farol caolho de um carro azul furando o sinal vermelho. Em fração de alguns segundos ele vai bater em você. Aquele momento que você esperou a vida inteira, mesmo sem saber que esperava. Tudo sempre é tão colorido nas noites de verão.

Quando sua cabeça for esmagada no atrito com o poste de luz, todos vão se sentir próximos de você. Conhecidos e colegas de colégio e da faculdade e familiares que não são família, amigos de Joana, Joana, família da Joana, mãe, pai, três colegas do pai da academia militar, só uma das irmãs, um amigo da adolescência, dois vizinhos da primeira casa, um porteiro e uma professora (esse menino tinha um futuro brilhante).

Todos eles vão levar uma grande coroa de flores, carta de pêsames, vai ter escolta militar. O cemitério receberá visitas durante os dois primeiros meses, então a lápide vai começar a apagar seu nome, as flores vão ser recolhidas, as suas células vão ficar abertas, você fica branco e roxo, os músculos contraem, os órgãos vão se autodigerir.

impublicável.

ficção e não-ficção sem explicação, sem censura, sem reparos, sem cortes. as regras, os ensinamentos, as listas de como ser um bom escritor ficaram de lado. aqui é um lugar para se escrever - e nada mais.

Davi Koteck

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se tudo vibra

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