Hollywood mata

Alexandre Brandão
Sep 2, 2018 · 4 min read

Chovia numa noite quente na Barra da Tijuca. Henrique caminhou pela calçada molhada e entrou no Bar Beija-Flor. Olhou ao redor e procurou a mesinha da área de fumantes.

“E aí.” Ele disse. “Tudo bem?”

“Tudo, e você?” Disse o velho de cabelos ralos.

“A gente vai levando.”

“Sempre levando.”

O velho de cabelos ralos apontou para o garçom e pediu uma Heineken, enquanto batia o Marlboro vermelho no cinzeiro. Henrique viu os olhos castanhos baixarem para a mesa. Kurt Cobain cantava algo sobre um mosquito e um albino, aquela música famosa que não fazia o menor sentido. O velho tragou e soprou a fumaça para escuridão abafada.

“Diálogos.” Disse o velho.

“O que?”

“Diálogos.” Ele repetiu.

“Que que tem os diálogos?”

“A porra dos diálogos são o que dão vida para as merdas do texto. Do começo ao fim, capriche nessa porra.”

“Mas…”

“Mas é o caralho. As pessoas querem escrever tudo tão bonitinho e arrumado só que sempre se esquecem da merda dos diálogos. São eles que dão vida pra qualquer porra que você escreva.”

“Você já me disse algo do tipo.”

“Eu sei, mas não custa dizer de novo. Ah… esse povo novo.”

“Que que tem?”

“Parecem que querem enfeitar tudo, mas esquecem que oitenta por cento das pessoas falam filha-da-puta quando chutam uma quina com a porra do dedinho. Ninguém fala só ai. Nem a merda de uma freira fala ai quando essa merda acontece.”

“Eu sei, eu sei. Você leu?” Disse Henrique.

“Li.”

“Ficou bom?”

“Ficou.”

“Eu tô sentindo um mas vindo aí.”

“Pode ter certeza que sim, eu sempre digo mas pra alguma merda que você escreve sem pensar.” O velho de cabelos ralos acendeu outro Marlboro. “Não existe um idiota nesse mundo inteiro que cheira uma carreirinha de pó, olha no espelho e diz que merda eu fiz. Apaga essa porra.”

“Só que…”

“Shiu.” Fez o velho, tomando um gole da cerveja. “Isso não existe. É imbecil. Quando a gente cheira aquilo parece a melhor coisa do mundo. Ahhhhh… mas isso tá me matando. Tá bom, eu entendo, aquilo tá te matando. O cigarro tá te matando. A cerveja tá te matando. O mundo tá te matando. E a porra do tédio tá te matando, e é por isso que você cheira. Porque o caralho do tédio tá te matando e ninguém devia se importar com as consequências nessas horas. Porra, eu já te disse algo parecido e você insiste em fazer merda.”

“Você tá bêbado.” Disse Henrique.

“Tô sempre alterado, não devia te surpreender mais.”

“Não me surpreende, só que tem coisa que você fala que não faz sentido.”

“Deixa de ser teimoso, porra. Eu sei que tem ego envolvido nisso, eu sei, também detestava quando alguém vinha dar pitaco nas porras que eu escrevia. Só que se você veio me procurar, então você vai ouvir.”

“Tá bom, tá bom.” Henrique virou o copo e acendeu um Hollywood vermelho.

“É essa porra que vai te matar.” Disse o velho.

“Você também tá fumando, porra.”

“Marlboro não faz mal, Hollywood mata.”

“Mais um dos seus conselhos de velho?”

“Alguma coisa você tem que ouvir!”

“E a sua inspiração, ainda tá aí?”

“Qual inspiração?” Falou o velho.

“A de olhos castanhos.”

“Ah… essa. Claro, ela sempre volta. Nunca vai embora. Às vezes, ela me engana e eu penso que se foi de vez, mas ela volta. Aí eu tento afastar essa merda o dia inteiro, mas ela sempre volta e eu acabo aqui, bebendo, fumando e só Deus sabe o que mais.”

“Inspiração insistente essa aí.”

“Você não tem ideia.” O velho apagou o cigarro no cinzeiro e pediu a conta ao garçom.

“Já vai?”

“Já. Olha ali.” Ele fez um sinal com a cabeça na direção de uma mesa aonde um loira encarava os dois. “Sabe de uma coisa?” Disse o velho. “Mais cedo ou mais tarde você vai arrumar uma inspiração.”

“Acho que não.” Falou Henrique e sorriu. “Eu sou um pouco diferente de você.”

“Tá bom.” Disse o velho e se levantou. “Te vejo por aí.”

“Sua noite vai ser boa, velho.”

“Claro que vai, elas sempre são até eu fechar os olhos.”

Henrique riu, vendo o velho escritor caminhar até a saída do bar ao lado da loira. Numa mesa no outro canto do bar, ele viu uma morena o observando. Ela desviou os olhos para fora. Puta que pariu, ele pensou, enquanto se levantava e soprava a última fumaça do Hollywood para o ar, tomara que ela não seja minha inspiração. Mas alguma coisa em sua barriga lhe dizia que ela era diferente.

Bem, uma hora ou outra, todas pareciam diferentes. Ele sorriu e atravessou as mesas abarrotadas de pessoas, escutando um cover muito bom de Cazuza e sentindo um receio esquisito cutucar seu peito.

AB — 25/08/2018

impublicável.

ficção e não-ficção sem explicação, sem censura, sem reparos, sem cortes. as regras, os ensinamentos, as listas de como ser um bom escritor ficaram de lado. aqui é um lugar para se escrever - e nada mais.

    Alexandre Brandão

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    Às vezes um cigarro é só uma fumaça e uma história é só uma história

    impublicável.

    ficção e não-ficção sem explicação, sem censura, sem reparos, sem cortes. as regras, os ensinamentos, as listas de como ser um bom escritor ficaram de lado. aqui é um lugar para se escrever - e nada mais.

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